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MEMÓRIA DO POETA
Mestres da verdade na Grécia arcaica
- A Musa, invocada pelo poeta no início de um canto, tem a função de fazer conhecer os acontecimentos do passado, e a palavra do poeta, tal como se desenvolve na atividade poética, é solidária a duas noções complementares — a Musa e a Memória —, duas potências religiosas que delineiam a configuração geral que confere à Aletheia seu significado real e profundo.
- Passagem invocada ao longo do texto: “E agora dizei-me, Musas, que habitais o Olimpo — pois vós, vós sois deusas: em toda parte presentes, vós sabeis tudo; nós, ao contrário, não ouvimos senão um rumor e não sabemos nada — dizei-me quais eram os guias, os chefes dos Dânaos. A menos que as filhas de Zeus que porta a Égide, as Musas do Olimpo, não se recordem elas mesmas daqueles que haviam vindo a Ílion, eu não poderia dizer a multidão, não poderia dar os nomes, mesmo que tivesse dez línguas, dez bocas, uma voz que nada quebra, um coração de bronze em meu peito”
- A Musa é uma das potências religiosas que superam o homem no momento mesmo em que ele sente em si a sua presença
- No plano profano, o nome comum musa corresponde à Musa do panteão grego, assim como metis corresponde a Métis, esposa de Zeus, e themis corresponde à grande Têmis, outra esposa de Zeus
- Numerosos testemunhos de época clássica permitem pensar que musa, nome comum, significa a palavra cantada, a palavra ritmada
- Filão de Alexandria transmite um discurso antigo que narra como o Criador, após concluir o mundo, soube que faltava apenas a palavra laudatória, e então gerou a estirpe das cantoras plenas de harmonia, nascidas da Virgem Memória — Mneme —, a quem o vulgo, alterando o nome, chama Mnemósine
- Os nomes das filhas da Memória desdobram uma teologia da palavra cantada: Clio connota a glória das grandes façanhas transmitidas às gerações futuras; Talia alude à festa como condição social da criação poética; Melpômene e Tersícore evocam música e dança; Polímnia e Calíope exprimem a rica diversidade da palavra cantada e a voz poderosa que dá vida aos poemas
- As mais antigas epícleses das Musas remontam a três figuras veneradas num antiquíssimo santuário no Hélicon — Melete, Mneme e Aoide —, cada uma portando o nome de um aspecto essencial da função poética: Melete indica a disciplina do aprendizado do ofício de aedo; Mneme é a função psicológica que permite recitar e improvisar; Aoide é o produto final, o canto épico
- Cícero reporta uma nomenclatura com quatro Musas — Arche, Melete, Aoide, Thelxínoe —, em que Arche é o princípio originário que a palavra do poeta busca desvelar, e Thelxínoe é a sedução do espírito, o encantamento que a palavra cantada exerce sobre os outros
- A palavra cantada é inseparável da memória, e o significado dessa memória nos ambientes de aedos não pode compreender-se sem considerar que, do século XII ao IX, a civilização grega fundou-se não na escrita, mas nas tradições orais, o que exigiu o desenvolvimento de técnicas precisas de memorização.
- Na tradição hesiódica, as Musas são filhas de Mnemósine; em Quios, recebem o nome de reminiscências; são elas que induzem o poeta a recordar-se
- Passagem evocada no texto sobre a memória nas civilizações orais: “Naqueles tempos a memória não enganava. Eram dadas indicações sobre os meios para identificar os lugares, sobre os momentos propícios às empresas, sobre os sacrifícios a executar aos deuses, sobre os monumentos dos heróis de localização secreta, que era difícil encontrar em regiões tão distantes da Grécia”
- Milman Parry e seus epígonos esclareceram amplamente os procedimentos compositivos dos poetas com a análise da técnica formular: os aedos criavam em voz alta não por palavras, mas por fórmulas, por grupos inteiros de palavras predispostos e já prontos a inserir-se no hexâmetro dactílico
- Os poemas homéricos oferecem exemplos de exercícios mnemotécnicos conhecidos como catálogos — catálogo dos melhores guerreiros aqueus, catálogo dos melhores cavalos —, sendo que o catálogo do exército grego e do troiano ocupa a metade do Canto XII da Ilíada, em quatrocentos versos
- As pesquisas de J.-P. Vernant permitem afirmar que a memória divinizada dos gregos não corresponde aos mesmos fins da memória moderna — ela não tende a reconstruir o passado segundo uma perspectiva temporal
- Nos ambientes de poetas inspirados, a memória é uma onisciência de caráter divinatório que se define pela fórmula: o que é, o que será, o que foi
- Com sua memória o poeta acede diretamente, em visão pessoal, aos acontecimentos que evoca, tendo o privilégio de entrar em contato com o outro mundo e de decifrar o invisível
- A memória não é apenas o suporte material da palavra cantada e a função psicológica que sustenta a técnica formular — é também e sobretudo a potência religiosa que confere ao verbo poético o estatuto de palavra mágico-religiosa
- A função do poeta é tradicionalmente dupla — celebrar os Imortais e celebrar as façanhas dos homens valorosos —, e esse duplo registro da palavra cantada se esclarece quando posto em relação com um aspecto característico da organização da sociedade micenéia.
- Passagem citada no texto sobre Hermes: “Elevando a voz, tocando harmoniosamente a cítara, cujo amável canto o acompanhava, com seu louvor realizava os Deuses Imortais e a terra tenebrosa; dizia quais foram no princípio e quais atributos cada um deles recebeu na repartição”
- O sistema palazial parece ter sido dominado por um personagem real encarregado das funções religiosas, econômicas e políticas, ao lado do qual existia um chefe do Laos, que comandava os homens especializados no ofício das armas
- As pesquisas sobre a pré-história das teogonias gregas mostram que Hesíodo aparece hoje não como o primeiro testemunho de uma literatura teogônica, mas como o resultado final de uma longa série de relatos lançada à luz pelos testemunhos orientais, hititas e fenícios
- F. M. Cornford propôs preciosas comparações entre a luta de Zeus contra os Titãs e a batalha contra Tifeu, de um lado, e as teogonias da Babilônia, em particular a luta de Marduk contra Tiamat, de outro
- Na Babilônia, no quarto dia da festa real da Criação do Novo Ano, o rei mimava uma luta ritual que repetia a façanha de Marduk contra Tiamat, enquanto era recitado o poema da Criação, o Enuma Elis
- J.-P. Vernant demonstrou que, nas cosmogonias e teogonias gregas, a ordenação do mundo é inseparável dos mitos de soberania, e que os mitos de emergência colocam em primeiro plano o papel determinante de um rei com características divinas que, após numerosas lutas, triunfa sobre seus inimigos e instaura definitivamente a ordem no Cosmos
- Hesíodo marca com precisão o declínio desse tipo de relato: não se trata mais de um relato oral pronunciado por ocasião de uma festa ritual, mas de uma obra escrita ou ao menos ditada
- Recitando o mito de emergência, o poeta colabora diretamente para a ordenação do mundo, sendo antes de tudo um funcionário da soberania
- No poema de Hesíodo encontra-se a mais antiga representação de uma Aletheia poética e religiosa, cuja significação plena somente se revela em relação às Musas e à Memória, potências que dizem o que é, o que será, o que foi.
- As Musas reivindicam o privilégio de dizer a verdade, e o contexto da Teogonia indica a estreita solidariedade de Aletheia e Memória, convidando a reconhecer nas duas potências religiosas uma única e mesma representação
- A Aletheia de Hesíodo adquire pleno significado somente quando se estabelecem as noções que dominam o segundo registro do poeta — o louvor das façanhas guerreiras
- O segundo registro da palavra poética é inteiramente consagrado ao louvor das façanhas guerreiras, e na antiga Esparta, sociedade totalmente dominada por um grupo de guerreiros, duas potências formidáveis ditam a lei — o Louvor e o Vitupério —, cujo jogo define o único critério de diferenciação numa sociedade fundada no princípio da igualdade entre todos os cidadãos.
- Em certas festas, como as Partenéias, as donzelas tinham o privilégio de lançar expressões de escárnio aos jovens que tivessem cometido alguma falta, ou de fazer-lhes longo elogio público se fossem dignos disso
- Os anciãos, fortes do prestígio conferido pela sociedade organizada em classes de idade, passavam grande parte do dia no parlatorio, consagrando o melhor dos discursos ao elogio das belas ações e à crítica das más
- As Musas são honradas em Esparta a duplo título: como protetoras dos flautistas, dos tocadores de lira e dos citaredos — pois a música faz parte da educação espartana —, e sobretudo como potências que lembram aos iguais os julgamentos que serão dados sobre o comportamento de cada um, dispondo-os a desafiar o perigo e a realizar façanhas dignas de ser celebradas, pelas quais merecerão uma memória ilustre
- Na esfera da batalha, o guerreiro aristocrático aparece como que obcecado por dois valores essenciais — Kleos e Kydos, dois aspectos da glória —, e em nenhum momento ele pode reconhecer-se como agente ou fonte de seus atos, pois sua vitória consiste num puro favor divino e a façanha, uma vez realizada, só toma forma por meio da palavra de louvor.
- Kydos é a glória que ilumina o vencedor — uma espécie de graça divina, instantânea, que os deuses concedem a um e recusam a outro
- Kleos, ao contrário, é a glória tal como se desenvolve de boca em boca, de geração em geração — se Kydos provém dos deuses, Kleos sobe até os deuses
- Um homem vale quanto vale seu logos — são eles que lhe concedem ou recusam a Memória
- O estatuto do louvor no mundo aristocrático é o de um princípio obrigatório, e o poeta, árbitro supremo nesse plano fundamental, confere ao simples mortal o ser e a realidade, mas sua palavra é uma arma de dois gumes — pode ser boa ou má —, pois o campo da palavra poética é polarizado pelo Louvor e pelo Vitupério.
- Passagem citada: “Para ser justo, dizia o Velho do Mar, louvai de todo o coração as façanhas, mesmo as de um inimigo”
- Os textos de Píndaro e de Baquílides mostram a extensão do elogio — não são senão louvores à força dos braços, à riqueza do rei, à coragem dos nobres
- Passagem de Píndaro citada: “Néstor e o lício Sarpedão, homens de grande fama, nos são conhecidos pelos versos harmoniosos que compuseram os artistas de talento. São os cantos ilustres que fazem durar a lembrança do mérito; poucos, porém, conseguem obtê-los”
- Com a potência de sua palavra, o poeta transforma um simples mortal no igual de um Rei, e seu louvor é qualificado como etymos — verdadeiro, genuíno
- A palavra do poeta é uma arma de dois gumes, à semelhança da Çamsa dos indianos — pode ser boa ou má
- Píndaro afirma que o Elogio é contíguo ao Vitupério, e que a Maledicência de dente insaciável carrega o rosto de Momos
- Passagem citada: “Repelindo o Vitupério tenebroso, como uma onda benévola, levarei a um amigo o verdadeiro louvor de sua glória”
- Momos, qualificado de tenebroso, é um dos filhos da Noite e irmão de Lethe — por suas afinidades com o Esquecimento, o Vitupério é o aspecto negativo do Louvor, que como simples duplicata de Lethe se define como Silêncio
- O campo da palavra poética encontra seu equilíbrio pela tensão de potências que se opõem duas a duas: de um lado a Noite, o Silêncio, o Esquecimento; do outro a Luz, o Louvor, a Memória
- Passagem citada: “Os mortais esquecem tudo aquilo que não arrastam sobre suas ondas os versos que dão a glória, tudo aquilo que não faz florescer a arte suprema dos poetas”
- Teócrito afirma que muitos ricos teriam permanecido sem memória se não tivessem tido Simônides
- A Memória possui valor duplo no plano da palavra cantada — de um lado é o dom de vidência que permite ao poeta formular a palavra eficaz; de outro, é a própria palavra cantada, que não cessa jamais de ser e se identifica com o Ser do homem cantado —, e a Aletheia ocupa lugar preciso nesse sistema de pensamento cujo equilíbrio se funda na tensão de potências antitéticas.
- A Memória que o poeta concede a um homem não é a lembrança vaga e profana que os homens não recusam a seus mortos — trata-se do eterno monumento das Musas, a mesma realidade religiosa da palavra do poeta encarnada no Elogio
- Píndaro, quando recorda, chama Aletheia de filha de Zeus e a invoca ao lado da Musa
- Para Baquílides, Aletheia é concidadã dos deuses, admitida ela somente a partilhar a vida dos Imortais
- Passagem citada: “Certamente, o vitupério dos mortais se volta para todas as obras, mas Aletheia triunfa sempre”
- Passagem citada: “A pedra de Lídia faz reconhecer o ouro; junto aos homens a virtude tem por testemunha a Sabedoria dos poetas e a onipotente Aletheia”
- Em termos formais, Aletheia se opõe a Lethe como se opõe a Momos — está do lado da Luz, confere luminosidade e esplendor, e dá brilho a todas as coisas
- Quando o poeta pronuncia uma palavra de elogio, fá-lo por meio de Aletheia e em seu nome — sua palavra é alethes, como seu espírito — e o poeta é capaz de ver a Aletheia: é um mestre de verdade
- A relação Aletheia-Lethe organiza também as representações da palavra cantada consagrada aos relatos cosmogônicos, e nas Obras e os Dias de Hesíodo a Aletheia revela-se dupla — a das Musas que o poeta pronuncia em seu nome e a que o camponês de Ascra possui como não-esquecimento dos preceitos do poeta —, sendo que os dois momentos não diferem fundamentalmente, pois é a mesma Aletheia vista sob dois aspectos.
- Hesíodo, como o adivinho-profeta, orgulha-se de revelar os desígnios de Zeus, e suas palavras são definidas como etetyma — palavras de caráter religioso — por dois motivos: pela natureza religiosa da função poética e pelo caráter sagrado dos trabalhos da Terra
- No pensamento de Hesíodo, trabalhar a Terra é uma prática plenamente religiosa, e divino é quem conhece o encadeamento ritual dos trabalhos e se recorda de cada rito sem cometer nenhuma falta de esquecimento
- Hesíodo chama explicitamente Aletheia à rigorosa observância das datas e à repartição dos dias de trabalho e dos dias interditos
- Se o poeta possui a Aletheia pelo privilégio da função poética, o camponês de Ascra só pode ganhá-la a preço de um esforço de memória — o esquecimento pode obscurecer-lhe subitamente o espírito, privando-o da revelação dos Trabalhos e dos Dias
- Por trás da relação em alguma medida etimológica da Aletheia do camponês com Lethe, pode reconhecer-se ao nível do mestre uma relação ulterior e homóloga, em que Lethe não é mais o esquecimento dos homens, mas Lethe filha da Noite
- O primeiro aspecto dessa dupla relação — o religioso — é o fundamental: ele estrutura a representação da palavra cantada consagrada ao louvor do personagem real, do mesmo modo que organiza o campo da palavra votada à celebração da façanha guerreira
- Enquanto funcionário da soberania e como louvador da nobreza guerreira, o poeta permanece sempre um Mestre de Verdade, mas esse sistema de pensamento que consagra o primado da palavra cantada como potência religiosa torna-se progressivamente um anacronismo, condenado pela democracia clássica.
- A missão do poeta já não é exaltar os nobres, louvar os ricos proprietários que desenvolvem uma economia de luxo, vangloriar-se das alianças matrimoniais e das proezas atléticas
- Encontrando-se a serviço de uma nobreza tanto mais ávida de louvores quanto mais suas prerrogativas políticas são contestadas, o poeta reafirma os valores essenciais de sua função com tanto maior ímpeto quanto mais eles começam a parecer obsoletos
- Ao limite, o poeta torna-se apenas um parasita encarregado de devolver à elite que o mantém uma imagem embelezada do passado
- No mundo micenéio, o poeta pode ter tido a função de oficiante da soberania, encarregado de colaborar para a ordenação do mundo; mesmo após o declínio de sua função litúrgica, em época arcaica permanece um personagem poderosíssimo para a nobreza guerreira e aristocrática — ele sozinho concede ou recusa a memória
- A Verdade do poeta é uma Verdade assertórica — ninguém a contesta, ninguém a demonstra —, fundamentalmente diversa da concepção tradicional moderna, pois Aletheia não é o acordo da proposição com seu objeto, nem o acordo de um juízo com outros juízos, e não se contrapõe à mentira, sendo sua única oposição significativa a de Aletheia e Lethe.
- Nesse nível de pensamento, se o poeta é verdadeiramente inspirado e seu verbo se funda num dom de vidência, então sua palavra tende a identificar-se com a Verdade
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