Oceano – Tétis, a Deusa Mãe
SOUSA, Eudoro de. Horizonte e Complementaridade. Sempre o Mesmo acerca do Mesmo. Lisboa: Imprensa Nacional, 2002.
6. No segundo hemistíquio do v. 201 (= v. 302), a «Oceano, génese dos deuses», Homero associa a «mãe Tétis» (metera Thêthyn) e, pouco mais adiante (205), refere-se à «imoderada discórdia» (ákrita neíkea) que há muito os mantém desunidos e apartados do seu leito amoroso (eunês kai philotètos). As demais referências mitológicas à deusa mãe, em escritos posteriores (cf. RE, s. v. «Tethys»), ou dependem destes versos da Ilíada, ou das genealogias de Hesíodo, onde Oceano e Tétis, filhos do Céu e da Terra, dão origem, por sua vez, a todos os rios do mundo. Já vimos como há motivos para supor que Homero alude a uma teogonia que remete o Oceano para além de Urano, com estatuto de potência teocosmogônica primordial. Mas alude, simplesmente. E essa é a razão por que ficamos sem saber de onde provém a antiga discórdia, que suspendeu o ato genesíaco. Curioso e sugestivo é comparar Homero e Hesíodo: a separação do Céu e da Terra tem o seu correlato na separação de Oceano e de Tétis. Teria Homero transposto o tema da separação? Contra uma resposta afirmativa, não vale invocar a posterioridade de Hesíodo: como teremos ocasião de verificar, a separação do Céu e da Terra é um mito universal (cf. § 21), tão difundido no espaço geográfico, quanto dilatado no tempo histórico. Demais, o poeta da Ilíada parece já conhecer a mutilação de Urano, que, em Hesíodo, consuma a separação do Céu e da Terra, se levarmos em conta que não menos de sete vezes substitui o nome de Zeus pela circunlocução formular «o filho de Crono ankylomètès» (2,205 e 319; 4, 75; 9, 37; 12, 450; 16, 431; 18, 293), e que o epíteto «de mente retorcida» ou «de pensamento tortuoso» aponta inequivocamente para o bem planejado cometimento de Crono contra o pai. Portanto, o tema da separação podia ter sido transposto; mas não é necessário admitir que o fosse. Em primeiro lugar, porque a separação de entidades divinas sexualmente opostas, comprometidas no drama das origens, seria, como por assim dizer, uma forma a priori da imaginação mítica e, por conseguinte, podia reaparecer, mutatis mutandis, em todas as três ou quatro gerações sucessivas de qualquer das teogonias, gregas ou orientais, que se conhecem. Homero refere-se diretamente à discórdia entre Oceano e Tétis e, indiretamente, à de Urano e Gaia; Hesíodo insiste só nesta; mas, em ambos, não faltam acenos à sobrevivência do tema da separação, nas desavenças de Crono com Reia e de Zeus com Hera. E em segundo lugar, porque, na hipótese muito verossímil de se encontrarem vestígios de empréstimos orientais na teocosmogonia do Ludíbrio de Zeus, a discórdia entre Oceano e Tétis, inexplicada pelo próprio texto homérico, está presente e explicada, tanto quanto um mito pode explicá-la, no paralelo dissídio entre Apsu e Tiamat, relatado pelo poema babilônico da criação.
