VISEUX
VISEUX, Dominique. L'initiation chevaleresque dans la légende arthurienne. Paris: Dervy-Livres, 1980
INTRODUÇÃO AO ESTUDO DAS LENDAS E DOS MITOS
“Sem abertura para a transcendência, a inteligência humana seria um luxo tão inexplicável quanto inútil.” F. Schuon.
Ao empreender o estudo das lendas indo-europeias e mais particularmente aquelas que constituíram a literatura Arturiana, não pretendemos nos colocar no mesmo ponto de vista da maioria dos estudos contemporâneos que tratam deste assunto. Com efeito, como se verá rapidamente, não é nossa intenção catalogar lendas nem mesmo explicar sua razão sociológica; nossa ótica sendo estritamente tradicional, não nos parece útil enfeitar com julgamentos pessoais dados tradicionais que são, por definição, além do arbítrio e da subjetividade.
Não pensamos, com efeito, que os mitos, como se imaginou frequentemente, sejam destinados a explicar fenômenos naturais, históricos ou sociológicos, pois se assim fosse, haveria desproporção entre a qualidade dos meios postos em prática e a futilidade dos objetivos perseguidos. Por outro lado, os mitos não representam de modo algum para nós uma certa “filosofia do homem primitivo” e não poderiam ainda menos ser a expressão de um “senso do maravilhoso” ou de uma “imaginação popular” que alguns comentadores gostariam de ver neles. Compreendemos muito bem que o espírito tradicional se tornou totalmente estranho às preocupações do mundo moderno, mas isso não justifica de forma alguma as projeções deste último sobre o conjunto destas lendas, tendendo a lhes emprestar um papel compensatório que é, na verdade, muito longe de convir.
As interpretações psicanalíticas são, a este respeito, verdadeiramente deslocadas e nunca se deve ser demasiado cauteloso contra qualquer influência destas, desde que esta ciência moderna arroga-se o privilégio de explicar os fenômenos de ordem psicológica, pretendendo assim julgar o Superior pelo inferior. Dizemos “deslocadas”, pois uma das tendências modernas mais desenvolvidas é tomar, neste tipo de interpretação, o símbolo pela coisa simbolizada, ou acreditar que um símbolo tem por objetivo dissimular uma realidade, enquanto se trata precisamente do contrário. Estas poucas observações bastarão para mostrar o quanto a exposição que se segue é estranha a qualquer influência das exegeses modernas e consequentemente a toda forma de erudição.
De nosso ponto de vista, a poesia, que está na origem da literatura, tem uma função totalmente diferente daquela de constituir um “fenômeno literário” ou um “patrimônio cultural”. Ela é essencialmente o que se designa tradicionalmente pela “Língua dos Deuses” e, por via de consequência, tinha, entre outras, a função de propagar e de conservar o Mito.
Os níveis de leitura e de interpretação de um mito são, é claro, múltiplos, como já havia notado Dante e sua pluralidade é totalmente legítima, desde que um deles não pretenda suplantar os outros. Distinguem-se geralmente quatro níveis possíveis de leitura correspondendo a quatro ordens de realidade: os três primeiros (literal, sociológico e teológico) constituem a interpretação exotérica, enquanto o último, que dá a interpretação metafísica ou esotérica, pode sozinho ultrapassar as limitações inerentes aos outros graus. Este aspecto “polissêmico” do mito é tornado possível pelo emprego do simbolismo tradicional que não tem por objetivo, como acabamos de indicar, de dissimular, mas ao contrário, de expor da maneira mais adaptada a todas as formas e etapas da inteligência, verdades de ordem essencialmente metafísica.
Em seu artigo intitulado “Sire Gauvain e o Cavaleiro verde”, A. K. Coomaraswamy já libertou suficientemente a origem do mito e suas relações com o rito para que não seja mais necessário retornar a isso. Diremos simplesmente, para resumir, que o mito está sempre na origem dos contos populares, que ele pode ser considerado como simultâneo ou melhor, anterior ao próprio rito, e isso se compreende facilmente se pensarmos que o mito pertence essencialmente à metafísica pura, enquanto o rito já é como a formulação dela. Por outro lado, se a conservação dos mitos é confiada através das lendas à memória popular, não é certamente no povo que se deve procurar a origem. Como acontece fatalmente, em seguida, que o mito se degrada pouco a pouco quando se encontra separado de sua fonte (como foi o caso no Ocidente), pode-se facilmente compreender que então ocorre “uma passagem do mito e do ritual à epopeia, depois da epopeia ao relato romanesco, e enfim deste ao romance realista”.
No curso de nossa exposição, nos esforçamos frequentemente para mostrar como se desenvolve a interpretação sacrificial da vida no mito Arturiano, no sentido em que o ato sacrificial é o “sacrum-facere” ou o ato de “tornar sagrado”. Esta interpretação sacrificial é particularmente evidente na maioria dos mitos indo-europeus e pode ser extraída tão facilmente das lendas gregas ou escandinavas, da mesma forma para o que concerne a tradição hindu, até a dos Índios da América do Norte, onde, nestes últimos casos, o mito ainda subsiste em sua forma original e metafísica (e não sob forma de lendas) sendo ainda “vivificado” por um sacerdócio e pelos ritos que se ligam a ele. A doutrina metafísica do sacrifício é, com efeito, da mais alta importância para quem quer compreender verdadeiramente o sentido profundo destes mitos como o das modalidades que eles emprestam.
A questão que toca à iniciação, e mais particularmente à iniciação real e cavalheiresca, constitui como se suspeita, o primeiro objetivo desta exposição, mas não aborda, propriamente falando, os aspectos “técnicos” e históricos. O trabalho de síntese realizado por René Guénon é, em nossa opinião, largamente suficiente para o que concerne a cada um destes aspectos e não deixaremos de nos referir a ele implicitamente, ao longo desta exposição.
O que nos importou antes de tudo foi pôr em evidência, é a extrema coerência que liga as lendas Arturianas e queremos falar, é claro, de uma coerência simbólica que nos parece de longe a mais importante, já que ela se estabelece às vezes até mesmo em detrimento do sentido literal. O que observamos, no desenrolar destas lendas, não nos pareceu (como alguns puderam sentir) ser apenas uma repetição incansável e monótona das mesmas aventuras, cuja trama literária seria um tanto “descosturada”. Pensamos, ao contrário, que a maioria das lendas das quais nos ocupamos são perfeitamente consequentes consigo mesmas e que elas desenvolvem um pensamento simbólico e mítico de uma extrema concisão. A abordagem esotérica destas lendas frequentemente pôs em evidência certos aspectos deste simbolismo, o que já é apreciável, mas seria lamentável limitar-se ao estudo exclusivo de certos temas simbólicos, estudo que arrisca restituir apenas uma visão fragmentada do mito.
É por isso que preferimos a abordagem deste último em toda a sua extensão, a fim de bem mostrar que uma lenda não se cria de uma justaposição mais ou menos sutil de temas e de símbolos, mas que o desenrolar geral e a ordenação destes obedecem a um plano de conjunto, previamente estabelecido, que é a formulação direta do pensamento mítico. Em consequência, a “trama” (ou o “mito”) da lenda não tem a importância secundária que se lhe concede na maioria das vezes, mas constitui por si mesma um resumo do que poderíamos chamar o “Drama Cosmogônico”, em virtude das correspondências entre as ordens macrocósmica e microcósmica, ou em última análise, uma “Imagem do Mundo” expressa em seu desenvolvimento temporal.
Como acabamos de indicar, o mito, que constitui por assim dizer a “ossatura” da lenda, desenvolve, entre outras, a doutrina tradicional do sacrifício sob modalidades indefinidamente variadas das quais veremos no curso desta exposição algumas formulações características. De fato, quando se fala de sacrifício, deve-se sempre lembrar que é do sacrifício de Si que se trata, sacrifício que se opera em vista de uma reintegração em um estado de “Não-Dualidade”, e esta observação basta para mostrar o caráter único e insubstituível do mito, cuja importância permanece primordial para o caminho e o devir do ser.
O mito tem, portanto, antes de tudo, uma função de ensino e por assim dizer de “fio condutor”, levando o Herói (ou seja, todo indivíduo qualificado para “entender”) a seu próprio sacrifício ou ao aniquilamento de sua própria individualidade, destruindo assim as relações ilusórias do sujeito e do objeto para acceder enfim, na Identificação Suprema, ao estado de “Sujeito Total”, além de toda distinção.
É evidente que a rejeição desta via condena o ser cuja inteligência discriminatória não pode se elevar além da aparência, a errar na tecelagem ilusória da vida, tomando por realidade o que não é senão a sombra ou o reflexo dela. A via do sacrifício que é a única capaz de deter esta ignorância inerente à condição humana, deve então se compreender em uma acepção total da vida onde todo ato, todo pensamento e além mesmo, toda intuição suprarracional, se torna um sacrifício e uma união. É nesta perspectiva que foram concebidos os mitos e mais geralmente as instituições tradicionais, como os ritos e os “costumes”, que são como os prolongamentos e as aplicações deles nos domínios mais diversos da sociedade tradicional.
A ótica que acabamos de definir não é, aliás, aplicável apenas à mentalidade indo-europeia, mas bem além, à humanidade inteira. O pensamento semítico é ele mesmo particularmente impregnado desta concepção e não é estranho constatar que o cristianismo, repousando inteiramente sobre esta noção de sacrifício, se incorporou tão bem, em certos aspectos, à mentalidade celta, entre outras.
Esta compatibilidade fundamental do cristianismo com as lendas celtas, que resulta da fusão natural de duas fontes tradicionais autênticas, não nos pareceu como um obstáculo à compreensão destas lendas, mas ao contrário, como uma confirmação notável da “philosophia perennis”. É por isso que não pareceu necessário estabelecer uma discriminação sistemática entre estas duas fontes, no entanto, distintas no início. Importa pouco, com efeito, que tal símbolo substitua tal outro, desde que a coisa designada permaneça idêntica e não sofra nenhuma degradação.
Na realidade, a única incompatibilidade que se pode observar, é a da incompreensão e do desvio do símbolo, de seu enfraquecimento, diríamos. Quando, com efeito, ocorre tal lacuna em uma lenda ou uma epopeia (que já são formas desviadas do mito original) é fatal que os autores envolvidos compensem pouco a pouco estas falhas por arranjos totalmente pessoais, revelando-se, no estudo, muito incompatíveis com o espírito tradicional. São precisamente estes arranjos que tentaremos afastar ao longo deste trabalho, zelando antes de tudo por conservar às lendas sua integridade tradicional.
O objeto deste estudo concerne quase exclusivamente ao fundo celta bretão transbordando ligeiramente para o fundo irlandês, com notadamente a lenda de Tristão que se liga ao ciclo Arturiano em certos pontos. Para o resto, pareceu-nos necessário estabelecer numerosas aproximações com as mitologias escandinavas e gregas ou com certos contos tradicionais da Europa do Norte. Enfim, a contribuição da tradição hindu, que apresenta uma simbologia análoga, revelou-se de uma importância primordial para a compreensão do pensamento indo-europeu e isto explica nossas referências constantes às doutrinas metafísicas da Índia.
As interpretações que daremos das lendas estudadas nesta exposição não são de modo algum exclusivas, pois isto contradiria o próprio caráter do simbolismo tradicional, cuja faculdade essencial é de se prestar a uma multiplicidade de pontos de vista. O símbolo é, de fato, um elemento de comunicação entre as diversas ordens da realidade, extremamente flexível, e acontece frequentemente, como veremos, que ele seja modificado não em seu sentido fundamental, mas em suas nuances, dependendo das situações nas quais ele é considerado.
Isto exige, é claro, por parte daquele que percebe estes símbolos, uma grande disponibilidade de espírito (no sentido de “vacuidade”) assim como um mínimo de intuição intelectual, o que, infelizmente, se perde cada vez mais na mentalidade moderna.
Enfim, não podemos insistir demais no fato de que nos parece indispensável estar si mesmo livre de todo preconceito cultural ou universitário, assim como de toda pretensão a qualquer erudição, para vislumbrar a profundidade e a “magia” internas destas lendas, sua ação e sua eficácia sobre as estruturas mentais do ser. Sem esta condição, arrisca-se inevitavelmente a se ater apenas à “letra” e é principalmente isso que quisemos evitar, sabendo que “só o Espírito vivifica”.
