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HÉSTIA
JAMES HILLMAN. MYTHIC FIGURES. SPRING PUBLICATIONS.
- A importância do “dentro” (in) como preposição-chave na análise e direção privilegiada dos valores da alma é estabelecida, mostrando como a literalização desse conceito leva a um esquecimento de que se está na psique, e não a psique dentro de si.
- A análise demonstra a importância do pequeno e detalhado, e a jornada junguiana, inicialmente focada em passos gigantes (Índia, tipologias, individuação, grandes sonhos), agora se volta para passos de formiga, atenção minúscula às menores coisas.
- “In” é a palavra da alma na psicologia profunda: em análise, em terapia, na transferência, no amor, em luto, “into” como termo para estar totalmente absorvido.
- A história do campo confirma esses usos, com a psicanálise preocupada desde o início com uma topografia interior e dinâmica de regiões, figuras e forças, memórias e sentimentos, tudo imaginado como interno.
- Uma objeção principal ao behaviorismo por parte dos analistas de profundidade é que ele não tem “dentro”; não há “in” ali.
- A principal atividade da análise ocorre dentro, onde a verdadeira pessoa se esconde, o eu interior.
- “In” é a preposição-chave em análise, mais importante do que “com”, a direção-chave do movimento psicológico, a localização-chave da psicodinâmica e a posição privilegiada dos valores da alma.
- Palavras “in” características da análise junguiana incluem temenos, container, vas hermeticum, espaço sagrado, bem como as advertências sobre abrir a garrafa (para o espírito não escapar), a caixa resgatada do submundo ou o pote dos males.
- “In” é um hábito mental compartilhado, cuja concepção resulta parcialmente da institucionalização (o endurecimento de ideias originárias em paradigmas).
- A literalização (tomar as palavras em seu sentido primário, sem metáfora) pode ser um pecado primordial que leva aos pecados da mente institucionalizada.
- “In” é literalizado como um lugar definido para o qual se vai (inconsciente, corpo) ou um tempo definido no passado, fazendo esquecer que não se está na psique, mas sim na psique que está em si.
- Os principais usos linguísticos de “in” incluem: preposição significando dentro dos limites de espaço, tempo, condição, situação, circunstância (estado de ser limitado, confinamento); prefixo com sentido negativo ou privativo (indecisão, insano) e com sentido de continuar um movimento para dentro (indo em direção a, entrando em algo).
- A palavra “in” atua como uma força arquetípica, onde entrar no inconsciente leva mais profundamente à situação, sentimentos, memórias, envolvido pela transferência.
- Inclusão, com seus vícios e perigos, segue racionalmente do serviço profissional ao “in”, que preposiciona o profissional a se preocupar com bordas e quadros, puxando-o para um trabalho interior com consequências sectárias, exclusivas e isoladas.
- A desliteralização e a desconstrução são necessárias para manter a psicoterapia terapêutica, evitando o fundamentalismo e permitindo descobrir as raízes do que está certo na análise por meio de mitos diferentes.
- O poder que atrai e mantém no “dentro”, o insistência arquetípica em interiorizar e preservar a santidade do “in”, é identificado como a deusa Héstia.
- Héstia foi a primeira de todos os imortais a ser honrada em libações e procissões (antes de Zeus, Hera, Deméter e Gaia).
- A imagem de Héstia é a lareira brilhante e emissora de calor (focus em latim), traduzível psicologicamente como a atenção centrada que aquece e dá vida a tudo que entra em seu raio.
- Ovídio fala de Héstia como “nada além de uma chama viva”; seu nome deriva do indo-europeu vas (habitar) e da raiz de essência; ela é apenas “dentro”, a essência da alma que habita qualquer coisa.
- A análise como serviço ao “in” encontra paralelos em Héstia: os juízes escreviam fatos relevantes e deixavam os pergaminhos no altar de Héstia (anotações, diários, registros de sonhos); a análise como sustento, alimento da alma, apoio incondicional (vacas prenhes sacrificadas a Vesta para garantir leite).
- A análise ocorre um dia de cada vez, uma sessão de cada vez, mantendo-se fresca; as vestais não podiam armazenar água, carregando apenas o necessário em um vaso de base estreita que não podia ficar em pé (futile) – o disciplina estrita do recipiente.
- O atributo mais comum de Vesta é “eterna” (análise interminável).
- Disputas eram resolvidas no altar de Héstia (terapia de casal, resolução de conflitos), e a lareira era um lugar de fazer as pazes e conceder misericórdia (análise como refúgio, lugar seguro).
- Héstia não participa de guerras, queixas ou assuntos entre deuses e mortais.
- A análise como serviço ao “in” envolve impessoalidade e numinosidade (transferência em vez de relacionamento humano): proclividade ao anonimato, juramento pela santidade da lareira (não necessariamente por qualquer personalidade), presença potente (não indivíduo pessoal), numina em vez de divindade.
- “Sacrificar a Héstia” tornou-se provérbio para um negócio secreto (privacidade e segurança do temenos analítico), asilo sagrado onde se podia refugiar, e a oferenda sacrificial nunca é violenta, sem derramamento de sangue.
- Não há histórias sobre Héstia, e ela indica nenhum movimento (ausência de intervenção pessoal, “abstinência” freudiana).
- Héstia está sempre sentada em elementos circulares, e os lugares onde é adorada são circulares (natureza do Self, progresso analítico).
- Héstia está especialmente ligada à vida e lei da família e do clã, e o único serviço real prestado em sua homenagem parece ter sido uma refeição familiar – a refeição compartilhada merece mais atenção analítica do que “dormir junto”.
- Héstia não sai do seu lugar; é preciso ir até ela – em Platão (Fedro), quando os onze deuses viajam para o Olimpo, Héstia permanece sozinha em casa.
- A imagem de Héstia é arquitetônica, e sua imagem e seu lugar são idênticos – a análise como ritual hestiano do interior deve ocorrer em uma situação fechada, onde o analista não faz atendimentos externos ou domiciliares.
- Arquitetonicamente, Héstia era emparelhada com Hermes (ele do lado de fora, ela do lado de dentro); na era do excesso de Hermes (espaço cibernético, celulares, realidade virtual), a força centrípeta circular de Héstia é mais necessária do que nunca.
- Héstia é imune ao poder de Afrodite e às flechas de Eros; a sexualidade deve ser escondida de Héstia – a violação sexual direta e desenfreada (Príapo) não pertence ao brilho da lareira.
- As vestais cultuavam Héstia como virgens; se fossem manchadas, eram enterradas vivas e “deletadas” (excomunhão da sociedade analítica), o que mostra que a pureza sexual em relação à análise é exigida pela deusa do “dentro”.
- Surpreendentemente, com Héstia, está-se no domínio coletivo: seu ponto de vista na pólis grega era o Pritâneo (a prefeitura comum), e o fogo sagrado na lareira da prefeitura era considerado a alma e a sorte do estado.
- Héstia é representada sentada no omphalos ou umbigo da cidade; a vida doméstica pertence à cidade, e a vida pública pertence à esfera privada – a saída da análise seria dada por Héstia, cuidando da chama na prefeitura nos rituais da democracia.
- Por meio da desconstrução, a deusa Héstia é identificada como a fundamentação arquetípica válida para o apego do analista ao “dentro”, revelando que a análise é um ritual de Héstia e que servir a ela integra o público e o privado.
- O objetivo é estabelecer a preeminência do prefixo e preposição “in” como um dominante da ontologia analítica.
- A abordagem da psicologia arquetípica é demonstrada para salvar o fenômeno – os fortes sentimentos e valores importantes que permanecem ligados à palavra “in” mesmo após a desconstrução intelectual.
- O apego ao “in” é arquetipicamente válido: o amor pela interioridade da análise não vem apenas do hábito histórico de localizar a alma dentro da pele, mas é dado por Héstia.
- A análise é um ritual de Héstia – o foco atento chamado “consciência” – e, portanto, coloca seus praticantes em sua lareira.
- Héstia não conhece as distinções entre público e privado, entre dentro e fora no sentido de insight psicológico e atividade política, entre self e comunidade.
- A descoberta de Héstia significa que o que um paciente faz, e o que o analista faz, na prefeitura para manter as brasas brilhando é tanto parte da fabricação da alma quanto qualquer sonho, memória, emoção ou insight.
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