mitologia:kerenyi:segredo-eleusis

Segredo de Eleusis

KERÉNYI, Karl. Eleusis: archetypal image of mother and daughter. Princeton, N.J: Princeton University Press, 1991.

  • O percurso de entrada no santuário de Eleusis, tal como os atenienses o faziam, revela uma sequência de espaços com graus crescentes de sacralidade, desde o pátio externo romano até o interior do Telestérion.
    • No período romano, o acesso ia até os degraus das Grandes Propilées, flanqueadas por arcos triunfais com a dedicatória a Deméter, Perséfone e ao imperador, obra dos imperadores Adriano, Antonino Pio e Marco Aurélio.
    • O pequeno templo no pátio externo, dedicado a Ártemis Propileia e ao Pai Posídon, vinculava os iniciados aos mistérios de Licosura, onde Ártemis era irmã e Posídon era pai de Perséfone.
    • No período arcaico, o grande terreno de dança se estendia até os muros internos, e os iniciados dançavam em torno do poço Kallichoron; esse espaço foi dividido e desativado a partir do século V a.C.
  • O santuário de Eleusis foi incendiado pelos persas após Salamina, e a reconstrução do muro no período clássico, embora incorporasse celeiros de grão, destruiu o terreno de dança arcaico.
    • O muro romano foi construído sobre o muro do século V a.C., que já cortava o terreno de dança.
    • Os celeiros protegiam o grão trazido para os sacerdotes, parte considerável do tesouro do templo, sem qualquer relação com o segredo dos mistérios.
  • As Pequenas Propilées, construídas em cumprimento a um voto do cônsul Ápio Cláudio Pulcro por volta de 40 a.C., formavam um portal interior mais severo, cujo interior revelava mais do que o exterior.
    • Os arquitraves exibiam feixes de grão, crânios de bois sacrificados, rosetas e utensílios rituais conhecidos do público.
    • No interior, duas cariátides substituíam os pilares laterais: grandes figuras femininas carregando a cista mystica, representando as sacerdotisas que conduziam objetos sagrados na procissão festiva.
    • Os cestos das cariátides mostravam em sua superfície objetos não secretos, como o vaso do kykeon, rosetas, bolos, brotos e espigas, ramos de murta e inúmeras cápsulas de papoula.
  • A procissão era guiada pelo daduco portando duas tochas, e o pintor da tábua votiva de Niínion retratou Iakchos e Hécate conduzindo os iniciados, vestidos de escuro com bastões de peregrinos, em direção às Grandes Deusas.
    • As vestes brancas só foram introduzidas no festival em 168 d.C., provavelmente por influência dos mistérios egípcios de Ísis.
    • As vestes usadas na myesis eram guardadas como mortalhas para as gerações seguintes ou dedicadas às deusas.
    • Na tábua de Niínion, Deméter recebe os iniciados perto do omphalos, sentada na agelastos petra, enquanto Perséfone, pintada em cores escuras, está entronizada ao fundo como rainha do mundo inferior.
  • O omphalos de Eleusis, como o de Delfos, significava um vínculo entre o mundo inferior e o céu e a terra, e provavelmente se situava no Plutônio, a gruta que indicava a entrada para o mundo inferior.
    • O termo navio de um lugar de culto derivava do antigo Oriente, onde significava um vínculo entre o céu e a terra.
    • Fundações recém-descobertas no Plutônio podem ser as bases do omphalos, embora os arqueólogos ainda não tenham reconhecido essa possibilidade.
  • O pais aph' hestias, o menino do lar, escolhido por sorteio entre as famílias mais distintas de Atenas e iniciado à custa do Estado, executava as ações sagradas prescritas em nome de toda a comunidade festiva.
    • O menino não necessitava de purificação prévia, pois era tomado diretamente do lar familiar e conservava o estado de inocência original.
    • Seu protótipo mitológico era Demofonte, o filho do rei que Deméter quis tornar imortal no fogo e deixou no chão junto à lareira.
  • O Telestérion, projetado por Ictinos no período de Péricles, era um edifício retangular de 58 por 58 metros com entradas em três lados, uma floresta de colunas e uma abertura no teto que funcionava como chaminé.
    • O Anactóron, pequeno edifício retangular dentro do Telestérion, era o núcleo antigo imóvel em torno do qual o grande edifício foi sucessivamente ampliado.
    • O trono do hierofante ficava à direita da única porta do Anactóron, voltado para ela, protegido por um teto próprio próximo ao fogo que irrompia.
    • O título hierofantes não significa aquele que mostra as coisas sagradas, mas aquele que as faz aparecer, phainei.
  • O hierofante proclamava em voz alta e cantante, sob o grande fogo noturno, que a Señora havia dado à luz um filho poderoso, Brimo havia dado à luz Brimo, o Forte ao Forte.
    • Brimo é principalmente uma designação para a rainha do reino dos mortos, aplicável a Deméter, Core e Hécate em sua qualidade de deusas do mundo inferior.
    • O nascimento no fogo tinha paralelos mitológicos: Dioniso nasceu entre os raios que consumiram Sêmele, Asclépio nasceu na pira funerária de Corônis, e Deméter colocou Demofonte no fogo para torná-lo imortal.
    • Marcas de fogo dos períodos protogeométrico e geométrico, por volta de 1100 a 700 a.C., foram encontradas no terraço onde o templo dos mistérios já estava situado, sugerindo que pessoas se faziam cremar ali para ficar perto da deusa dos mortos.
  • O hierofante batia o echeion, instrumento semelhante a um gongo de efeito aterrador, ao chamar Perséfone, e a epopteia começava com visões inefáveis da deusa do mundo inferior.
    • O echeion era usado no teatro grego para imitar o trovão e provavelmente fora tomado de um culto arcaico dos mortos.
    • Sófocles, em Édipo em Colono, representou com arte e contenção a epifania de Perséfone na cena em que o trovão do Zeus subterrâneo ressoa e Édipo segue Hermes e a deusa inominável até o Hades.
    • Numa segunda fase da cerimônia, o hierofante, em profundo silêncio, exibia uma espiga de trigo colhida, memento concreto de tudo o que Deméter e Perséfone haviam dado à humanidade.
  • A visio beatifica eleusina era uma visão com olhos corporais abertos, como atestam os relatos de cura de um cego em Eleusis e o vocabulário da epopteia, que implica um ver real e não figurado.
    • A tábua votiva de Eucrates, do século V a.C., com dois olhos recortados acima da inscrição e a cabeça de uma deusa cercada de raios vermelhos, provavelmente aludia à epifania de Perséfone.
    • Sócrates no Fedro descreve uma visio beatifica filosófica superior à eleusina, usando os termos telete, myesis, epopteia e phasmata felizes, confirmando indiretamente que visões eram vistas no Telestérion.
    • A linguagem dos autores posteriores, que chamavam as visões eleusinas de phasmata inefáveis e sagrados, derivava da formulação platônica, que havia rebaixado a visão eleusina ao classificá-la como espectral e vacilante.
  • O episódio do brâmane Zarmaros, que em 20 a.C. assistiu à epopteia a convite de Augusto e em seguida se lançou sorrindo ao fogo como sacrificium beatificum, ilustra uma avaliação negativa da visio beatifica eleusina por um ponto de vista oriental.
    • Augusto havia sido iniciado em Eleusis imediatamente após sua vitória em Âncio e retornou à Grécia em 20 a.C., quando recebeu a embaixada indiana.
    • O ato do brâmane tinha caráter emulativo e de arrogância oriental, como observou o filósofo cínico Onesícrito, que acompanhou Alexandre em campanha.
    • O monumento funerário de Zarmaros foi erguido em Eleusis, e Eurípides, nas Suplicantes, prova que o sacrifício voluntário pelo fogo era considerado permissível junto ao altar de Deméter.
mitologia/kerenyi/segredo-eleusis.txt · Last modified: by 127.0.0.1