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Mitologia

SOUSA, Eudoro de. Mitologia: História e mito. Organização de Joaquim Domingues. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2004.

Este livro decepcionará o leitor que pretenda informar-se acerca de «mitologia», de qualquer mitologia, de povos da antiguidade clássica ou de povos ainda pouco expostos ao influxo da chamada Cultura Ocidental. O autor encara o conteúdo de seu livro como sendo, ele próprio, mitologia, mitologia sui generis, embora se refira a mitos, clássicos ou não. Na redação intervieram referências a filósofos e intervém alguns termos filosóficos, mas isso não faz dele filosofia. Reivindicamos, pois, só o que diz o título. Não para lhe encarecer as qualidades, mas só para lhe atenuar os defeitos, leva-nos a dizer que o escrevemos três vezes, e do modo seguinte. A primeira redação foi a dos dois primeiros capítulos da n parte. Em determinada altura, uma reminiscência da leitura do ensaio de Heidegger sobre A Coisa fez que, em parte, mudássemos a terminologia que, até então, estava sendo usada e assim, acabada essa que, agora, é a segunda parte do livro, voltássemos aos capítulos iniciais, no intuito de homogeneizar o escrito. Mas, entretanto, já escrevêramos a primeira parte e à mesma operação esta foi submetida. Era inevitável deixar à vista alguns remendos. Não voltámos a redigi-lo de princípio a fim porque, mesmo como está, resta, ao que nos parece, algo de aproveitável. Mas reconhecemos que é um livro torturado e que não pouco torturará quem tenha coragem para lê-lo.

O título diz: mitologia. Não o esqueça, o leitor, no andamento da leitura. Mas não é colectânea de mitos, nem filosofia da mitologia. E, pura e simplesmente, mitologia. Quem for mais versado no assunto, em melhores condições está para apreciá-lo ou desapreciá-lo. Quem o for menos, aprecie-o ou desaprecie-o, do modo como se lhe apresenta o texto e como disposto ou indisposto estiver para a leitura. Nem seria preciso declarar que falamos do «ontem» com os olhos postos no «hoje»: isso ficou patente; pelo menos, isso. Refiro-me a Diabo, a Deus e aos deuses. Creio em tudo o que disse. Talvez exagerasse umas coisas e minorasse outras. Mas isto é o que todos fazem quando pensam o que quer que pensem, contanto que o pensem por si, por sua conta e risco. Só receamos o que todos receiam: os mal-entendidos. Não se julgue uma proposição insólita ou paradoxal senão no contexto, no contexto que é o livro inteiro. E assim me despeço deste meu livro, porque outro, apenas sonhado, já me insta para que o pense e escreva, ou antes, para que o escreva e pense, pois, na verdade, eu só penso quando escrevo.

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