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Ulisses

VERNANT, Jean-Pierre. Ulysse suivi de Persée: petite conférence sur la Grèce. Paris: Bayard, 2004.

1. Ulisses, Odysseus em grego, chega até nós desde o fundo dos tempos graças a Homero, grande poeta que há quase três mil anos cantou em versos suas histórias em grandes assembleias, personagem-chave e herói da Grécia antiga cujas aventuras, séculos depois, no século V a.C., todas as crianças atenienses aprendiam de cor na escola, conhecendo-o como a um colega.

2. Ao lado de Ulisses está Aquiles, o de pés velozes, guerreiro que escolheu a “bela morte”, morrer jovem no auge da força e da coragem, enfrentando em combate singular os maiores inimigos diante de Troia para provar ser o melhor e garantir uma glória imortal, encarnação da virilidade, da coragem e do heroísmo.

3. Ulisses, embora também bom guerreiro armado de capacete, couraça, escudo, dardo e espada, é sobretudo um astuto dotado de métis, a esperteza que lhe permite sair de todas as situações aparentemente perdidas, vencendo adversários muito mais fortes pela astúcia, pela mentira, pela dissimulação e pela invenção de ardis.

4. Ulisses, então recém-casado com Penélope e pai de Telêmaco com três meses, não queria partir para a guerra e, ao saber da chegada de Nestor, o velho sábio e eloquente enviado para convencê-lo, fingiu-se louco, andando de costas diante de um arado puxado por um asno e uma mula e semeando pedrinhas, mas Nestor colocou o bebê no caminho do arado e, quando Ulisses correu para salvá-lo, provou que ele não estava louco e o obrigou a partir.

5. Após dez anos de cerco sangrento diante de Troia, cidade fortificada que os gregos não conseguiam penetrar, Ulisses concebeu com o artesão Epeio um enorme cavalo de madeira oco, grande como uma casa, com alçapão e escada, construído às escondidas e levado à praia.

6. Os gregos fingiram abandonar o cerco e embarcaram, e os troianos, julgando-se vitoriosos e tomando o cavalo por oferenda aos deuses equinos dos gregos, como Atena e Poseidon, deixada por não caber nos pequenos barcos, levaram-no para dentro das muralhas como talismã e celebraram a vitória com festa, dança e vinho antes de dormir.

7. Na noite silenciosa, a elite dos guerreiros gregos escondida no cavalo desceu, abriu as portas ao exército que voltara e tomou Troia, mas os gregos, enlouquecidos pelo ódio da guerra, mataram homens, mulheres e crianças e violaram templos, mostrando que mesmo povos civilizados podem perder a cabeça, como os próprios franceses na guerra da Argélia, e os deuses, condenando esses excessos, puniram-nos dispersando sua frota e matando a maioria.

8. Ulisses, que não se destacara pela crueldade na conquista de Troia, partiu com doze navios para Ítaca, sua pequena ilha, enfrentando tempestades e ataques na Trácia, até chegar ao cabo Maleia, onde, avistando quase a pátria, foi arrebatado por nove dias de tormentas enviadas pelos deuses rumo a um mundo que não era mais o dos gregos nem sequer um mundo humano.

9. Para os gregos, os homens são comedores de pão e bebedores de vinho, agricultores que cultivam a terra, e reconhecem os deuses, sabendo que não podem fazer tudo e que acima deles há potências que os observam e julgam, sobretudo no respeito à hospitalidade, regra comum a gregos, troianos e povos vizinhos, segundo a qual se deve acolher o estrangeiro suplicante, sob pena de escandalizar Zeus hospitaleiro.

10. Fora das águas gregas, Ulisses entra num mundo de fantasmagoria sem verdadeiros homens, sem pão, vinho nem hospitalidade, habitado por imortais alheios ao tempo, ao contrário dos homens, efêmeros como folhas que caem, e por seres não propriamente humanos, onde talvez pague pela desmedida dos gregos na guerra, por não terem reconhecido nos inimigos humanos e irmãos, lançado às fronteiras da noite onde reinam as potências opressoras.

11. Após nove dias de tempestade, Ulisses chega ao país dos Lotófagos, comedores de lótus, planta mágica que faz esquecer tudo, e os três marinheiros enviados como batedores, acolhidos gentilmente, comem o lótus e perdem memória, identidade, passado, futuro e desejo de retorno, repetindo apenas “lótus” e querendo ficar, até que Ulisses os arrasta à força para os navios.

12. Numa noite negra e sem vento, os navios são levados sozinhos pela ondulação até uma ilhota invisível, como se se abrissem as portas de um mundo noturno após as do esquecimento, ilha inculta de bosques e cabras selvagens diante da ilha escarpada dos Ciclopes, povo sem navegação, portos, agricultura, sociedade nem Estado, cada um isolado com sua família numa gruta, mais próximos dos deuses que os homens, mas indiferentes a eles, e, apesar das súplicas dos marinheiros, Ulisses, curioso, decide ver de perto um Ciclope.

13. Ulisses sobe com doze homens até a imensa gruta de um Ciclope pastor, cheia de queijos e leite, e, recusando-se a partir com o saque, espera escondido com eles, minúsculos diante do gigante de um olho só que, ao vê-los, ouve a mentira de Ulisses sobre o navio destruído e o pedido de hospitalidade e responde que os hospedará em sua barriga, devorando dois homens de manhã e dois à noite e fechando a gruta com um rochedo que nem quatro carros moveriam, enquanto Ulisses se arrepende de sua curiosidade.

14. Ulisses oferece ao Ciclope um vinho magnífico dado por um sacerdote de Apolo e diz chamar-se Ninguém, Outis, jogando com métis, a astúcia, que também soa como “ninguém”, e o Ciclope, embriagado, promete como presente comê-lo por último e adormece, quando Ulisses e quatro companheiros cravam no olho único um tronco de oliveira em brasa, e os gritos de Polifemo atraem os outros Ciclopes, que, ao ouvir que Ninguém o mata, vão embora, salvando-se Ulisses ao tornar-se ninguém.

15. Para sair da gruta, Ulisses amarra os seis companheiros restantes sob o ventre de carneiros dispostos de três em três e, quando o Ciclope cego abre a entrada e apalpa o dorso dos animais sem pensar em procurar embaixo, todos passam, Ulisses por último agarrado à lã do carneiro preferido de Polifemo, que se espanta de vê-lo atrasado, e os gregos fogem para o navio e se põem a remar.

16. Ulisses, astuto mas vaidoso, não resiste a chamar Polifemo de longe, que lança uma rocha que quase traz o navio de volta, e revela seu verdadeiro nome, rei de Ítaca, vencedor de Troia, cuja glória sobe ao céu, de modo que Polifemo pede a seu pai Poseidon que o castigue, e o deus do mar passa a persegui-lo com sua vingança.

17. Ulisses chega à ilha flutuante de Éolo, cercada de muralhas de bronze, onde o rei, isolado do mundo com seis filhos casados com as seis filhas, acolhe-o por um mês para ouvir as notícias de Troia, e, como senhor dos ventos, caminhos do mar, dá-lhe um odre mágico com todos os ventos fechado por um fio de prata, deixando apenas um zéfiro para levá-lo a Ítaca, mas, quando a ilha já está à vista, Ulisses adormece e os marinheiros, julgando haver tesouros no odre, o abrem, soltando os ventos que os levam de volta a Éolo, que os expulsa.

18. Na ilha dos Lestrigões, de belo porto e aparência civilizada, todos os navios atracam lado a lado, exceto o de Ulisses, que, desconfiado, o esconde na ponta de um cabo, e os três homens enviados encontram uma moça gigante, seis vezes maior que eles, que os manda ao pai, o rei, que devora dois deles como o Ciclope, num mundo de pesadelo e canibalismo, e os Lestrigões destroem os navios com pedras e pescam os gregos na água.

19. Os Lestrigões pescam os gregos como outrora se pescavam atuns, reunidos e arpoados até sangrar, para guardá-los e salgá-los como provisão.

20. Só o navio de Ulisses escapa graças à sua desconfiança, restando-lhe apenas os companheiros dessa embarcação dos doze navios.

21. Na ilha de Circe, imortal maga filha do Sol, os doze batedores encontram uma bela mulher que canta enquanto fia e tece, cercada de feras dóceis, e, convidados a beber uma mistura com um filtro mágico, transformam-se em porcos, enquanto Ulisses, indo procurá-los, recebe de Hermes, deus da métis, uma erva antídoto e o conselho de enfrentar a maga de espada em punho.

22. Circe recebe Ulisses, faz-lhe beber a poção e espera em vão a metamorfose, e, diante da espada, reconhece-o e propõe-lhe partilhar seu leito, ao que ele, desconfiado, só consente após o grande juramento dos deuses de não lhe fazer mal e a restituição da forma humana aos companheiros, que voltam mais jovens, belos e melhores do que antes.

23. Depois de um ano junto a Circe, tomados pelo desejo de retorno, Ulisses e os companheiros recebem dela a instrução de ir às fronteiras do mundo humano, onde se abre a boca do Hades, e realizar ali os rituais para fazer subir os mortos.

24. Para os gregos, o mundo é cercado pelo rio Oceano, além do qual se abre a boca do Hades no país dos Cimérios, de noite perpétua e esquecimento, onde Ulisses vê a massa indistinta e sem rosto dos mortos, destino de cada um, e ouve de Tirésias, o único a conservar o pensamento por ter tido em vida a dupla visão, a advertência de passar por Caríbdis e Cila e não tocar, na ilha do Sol, nos rebanhos sagrados de vacas.

25. Na ilha do Sol, retidos quinze dias por uma tempestade e torturados pela fome, potência funesta ligada ao sono, à morte, à noite e ao esquecimento, os companheiros esgotam as provisões enquanto Ulisses, subindo para implorar os deuses, cede novamente ao sono, e eles abatem e assam as mais belas vacas, festejando durante três dias apesar dos gritos de Ulisses ao despertar, até que o vento cai e partem, enquanto o Sol exige de Poseidon e Zeus o castigo.

26. No mar, uma tempestade e o raio destroem o navio e afogam todos os marinheiros, flutuando como gralhas mortas, enquanto Ulisses, agarrado a um mastro, sobrevive sozinho, no fundo do que um ser humano pode suportar, a solidão completa, já ninguém, e chega à ilha de Calipso, “a escondida e a que esconde”, deusa servida por quatro ninfas, que o retém por cinco ou seis anos querendo fazê-lo esposo num duo amoroso infinito.

27. Cortado de tudo o que fazia sua identidade, Ítaca, servos, amigos, filho, pai e Penélope, que o julga morto ou pior, desaparecido, Ulisses deseja voltar a ser ele mesmo e recusa a oferta de Calipso de torná-lo imortal e eternamente jovem, chorando, sem desejo por ela, preferindo a morte, porque quer ser fiel a si mesmo, homem ligado aos outros por mil laços e cantado como herói da paciência, da memória e da fidelidade, já que uma imortalidade anônima apagaria Ulisses e a Odisseia, num tempo eterno e imóvel de tédio, enquanto a condição mortal dá valor a cada alegria, como as flores belas porque murcham.

28. De volta a Ítaca, Ulisses ainda precisa matar pela astúcia os cerca de cem pretendentes de Penélope e só volta a ser Ulisses ao ser reconhecido pelo filho, pelo pai, pelos servos e sobretudo por Penélope, que quer certificar-se de que o velho mendigo é o Ulisses de sua juventude, num jogo de xadrez em que cada peça deve recuperar sua relação com ele, até que, após vinte anos e a experiência do mundo da noite, dos monstros e do inumano, pela memória e fidelidade de ambos e pelo canto do poeta, o tempo é abolido e eles se reencontram como recém-casados no leito construído por Ulisses, numa noite conjugal que Atena prolonga impedindo o sol de nascer.

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