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PARADA DE FORMIGAS

ZIMMER, Heinrich Robert. Myths and symbols in Indian art and civilization. 8. print ed. Princeton, NJ: Princeton Univ. Press, 1992.

  • Indra derrota o dragão-titã que aprisionava as águas celestes nas montanhas e liberta o fluxo vital que sustenta o mundo, restabelecendo a ordem cósmica.
    • O dragão ocupava o espaço entre o céu e a terra na forma de uma serpente-nuvem sem membros.
    • Indra lança seu raio contra as espirais do monstro, que se despedaça como um feixe de juncos secos.
    • As águas libertas correm em fitas pela terra e voltam a circular pelo corpo do mundo.
  • As águas libertadas pertencem a todos os seres, pois constituem a seiva dos campos, das florestas e o sangue que corre nas veias, tendo sido monopolizadas pelo monstro que as retinha com ambição egoísta.
    • Os titãs recuam para os submundos após a derrota do dragão.
    • Os deuses retornam ao cume da montanha central da terra para reinar do alto.
  • A primeira ação de Indra após a vitória é reconstruir os palácios da cidade dos deuses, arruinados durante o período de supremacia do dragão, e ele contrata Vishvakarman para erigir uma residência sem igual.
    • Todos os seres divinos aclamam Indra como seu salvador.
    • Vishvakarman é o deus das artes e dos ofícios, descrito como um gênio miraculoso.
  • Vishvakarman constrói em um único ano uma residência resplandecente com palácios, jardins, lagos e torres, mas as exigências de Indra se tornam cada vez maiores e mais ambiciosas à medida que o trabalho avança.
    • A cada visita de Indra ao canteiro, novas visões de maravilhas surgem e são imediatamente exigidas.
    • Vishvakarman é levado ao desespero e resolve buscar auxílio em esferas superiores.
  • Vishvakarman recorre secretamente a Brahma, o criador primordial e encarnação do Espírito Universal, que habita acima da esfera olímpica de ambição e glória, e Brahma por sua vez sobe a uma esfera ainda mais alta para interceder junto a Vishnu.
    • Brahma consola Vishvakarman, prometendo que ele logo será aliviado de seu fardo.
    • Vishnu, o Ser Supremo de quem o próprio Brahma é apenas um agente, ouve em silêncio beatífico e com um simples aceno de cabeça confirma que o pedido será atendido.
  • Na manhã seguinte, um menino brâmane de cerca de dez anos, radiante de sabedoria, apresenta-se ao portão do palácio de Indra como peregrino e é pessoalmente recebido pelo deus, que o conduz ao salão de audiências e lhe oferece mel, leite e frutas.
    • O menino é descrito como esbelto, com olhos negros e brilhantes e luster de sabedoria.
    • Indra o encontra no meio de um grupo de crianças maravilhadas e o conduz ao interior do palácio com deferência.
  • O menino revela a Indra que nenhum dos Indras anteriores jamais conseguiu completar um palácio como o que Indra pretende construir, insinuando conhecer uma longa série de reis dos deuses anteriores a ele.
    • A voz do menino é comparada ao trovão suave e auspicioso das nuvens de chuva.
    • Indra reage com sorriso paternal e curiosidade condescendente diante da pretensão da criança.
  • O menino declara ter visto e conhecido pessoalmente o pai de Indra, Kashyapa, o Velho Homem-Tartaruga, seu avô Mariichi, Raio de Luz Celestial, o próprio Brahma e Vishnu, o Ser Supremo, revelando uma antiguidade que transcende a compreensão do deus.
    • Kashyapa é identificado como senhor e progenitor de todas as criaturas da terra.
    • Mariichi é descrito como filho de Brahma, cuja única riqueza era sua santidade e devoção.
    • Brahma é apresentado como emanado do lótus no umbigo de Vishnu.
  • O menino descreve ter testemunhado incontáveis dissoluções do universo, nas quais cada átomo se dissolve nas águas primordiais da eternidade, e enumera a incomensurável multidão de universos, Brahmas, Vishnus, Shivas e Indras que existem simultânea e sucessivamente.
    • Ao final de cada ciclo, tudo retorna ao oceano primordial, coberto de trevas absolutas e desprovido de qualquer ser animado.
    • Nenhum ser é capaz de contar os universos passados e futuros, os Indras simultâneos ou os que se sucedem em qualquer linha de existência.
  • O menino apresenta as durações cósmicas do reinado de Indra, dos dias de Brahma e da existência de cada Brahma, demonstrando a efemeridade de todas essas magnitudes diante da infinidade dos universos que brotam e se dissolvem como bolhas do corpo de Vishnu.
    • A vida e o reinado de um Indra duram setenta e um eons.
    • Vinte e oito Indras correspondem a um Dia e uma Noite de Brahma.
    • A existência de um Brahma equivale a apenas cento e oito anos de Brahma.
  • Durante o discurso do menino, uma procissão de formigas atravessa o salão em coluna de quatro jardas de largura, e o menino, ao notá-las, ri com uma gargalhada surpreendente antes de mergulhar em silêncio profundo e pensativo.
    • As formigas desfilam em arranjo militar pelo chão do salão.
    • O menino observa as formigas, pausa, e ri de modo espantoso antes de se recolher ao silêncio.
  • Indra, com a garganta seca e a voz entrecortada, interroga o menino sobre a razão do riso e sobre sua verdadeira identidade, reconhecendo nele um ser de virtudes incomparáveis envolto em aparência enganosa.
    • Indra chama o menino de Oceano de Virtudes envolto em névoa ilusória.
    • A voz de Indra continua a se quebrar enquanto ele interroga o visitante.
  • O menino recusa revelar o segredo do riso de imediato, descrevendo-o como uma sabedoria que destrói a vaidade mundana, ilumina os que buscam o conhecimento e é raramente revelada mesmo aos santos, mas que destrói os mundanos enganados pelo desejo e pelo orgulho.
    • O segredo é comparado a um machado que corta pela raiz a árvore da vaidade mundana.
    • O segredo é descrito como a luz que guia os que tateiam na ignorância e o ar vital dos ascetas que transcendem a existência mortal.
  • Diante da nova humildade de Indra, que implora ser instruído, o menino revela que cada formiga da procissão foi um Indra em existência anterior, elevada por atos piedosos ao reino dos deuses e reduzida novamente, por muitos renascimentos, à condição de formiga.
    • A piedade e as boas ações elevam os seres aos reinos celestiais de Brahma, Shiva e Vishnu.
    • Os atos malignos os afundam em mundos de dor, fazendo-os reencarnar como pássaros, vermes, porcos, animais selvagens, árvores ou insetos.
  • O menino conclui o ensinamento afirmando que a vida no ciclo dos incontáveis renascimentos é como uma visão em sonho, que a morte administra a lei do tempo e que os sábios não se apegam nem ao bem nem ao mal, pois ambos são tão passageiros quanto bolhas.
    • Deuses, árvores mudas e pedras são igualmente aparições nessa fantasia cíclica.
    • Apenas a sabedoria serve de balsa para a beatitude através do oceano do inferno.
  • Enquanto Indra ainda absorve o ensinamento, um eremita de aparência singular entra no salão com o cabelo emaranhado, uma pele de veado preta nos rins, uma marca branca na testa, um parasol de grama sobre a cabeça e um peculiar tufo circular de pelos no peito, parcialmente calvo no centro.
    • O eremita senta-se diretamente no chão entre Indra e o menino, imóvel como uma rocha.
    • Indra oferece ao recém-chegado leite azedo com mel e outras refrescâncias, curvando-se com reverência.
  • O menino interroga o eremita sobre sua procedência, seu nome, a razão de sua visita, o significado do parasol de grama e o sentido do tufo circular de pelos no peito, que é denso na periferia mas quase calvo no centro.
    • O menino toma a iniciativa de fazer as perguntas que o próprio Indra faria.
    • O eremita é instado a responder de forma breve.
  • O eremita, que se chama Hairy, revela ser um brâmane de vida breve que renunciou à casa, ao casamento e ao sustento próprio por saber que existirá pouco, vivendo de esmolas e usando o parasol de grama como único abrigo contra o sol e a chuva.
    • O eremita declara ter vindo especificamente para contemplar Indra.
    • Sua única proteção contra os elementos é o singelo parasol de grama que carrega.
  • O eremita explica que o tufo de pelos em seu peito diminui com a queda de cada Indra, razão pela qual o centro já está calvo, e que quando a segunda metade do período do Brahma atual terminar, ele próprio morrerá, tornando inúteis esposa, filho e casa.
    • Cada piscada dos olhos do grande Vishnu registra a passagem de um Brahma.
    • Tudo abaixo da esfera de Brahma é tão inconsistente quanto uma nuvem que se forma e se dissolve.
  • O eremita declara devotar-se exclusivamente à meditação nos pés-de-lótus de Vishnu, ensinamento que recebeu de Shiva, e afirma não desejar nenhuma das formas de redenção, nem sequer a absorção na essência inefável do deus supremo.
    • Shiva é chamado de o pacificador, o mais alto guia espiritual.
    • As formas de redenção mencionadas incluem habitar as mansões do deus supremo, assemelhar-se a ele em corpo e vestes, tornar-se parte de sua substância ou ser absorvido em sua essência.
  • O eremita, que era na verdade o próprio Shiva, desaparece abruptamente ao concluir seu discurso e retorna à sua morada supramundana, e simultaneamente o menino brâmane, que era Vishnu, também desaparece, deixando Indra só e atônito.
    • Os dois visitantes se revelam retrospectivamente como manifestações de Shiva e Vishnu.
    • Indra fica sozinho, perplexo, como se tivesse vivido um sonho.
  • Indra pondera os acontecimentos, perde todo o desejo de magnificar seu esplendor celestial ou prosseguir com a construção do palácio, e envia Vishvakarman embora com presentes e joias, em uma celebração solene.
    • Indra convoca Vishvakarman e o dispensa com palavras melosas e generosas dádivas.
    • A festa de despedida de Vishvakarman é suntuosa.
  • Indra, transformado pela sabedoria adquirida, deseja agora apenas a redenção, confia o peso e o fausto de seu cargo ao filho e prepara-se para retirar-se à vida eremítica no deserto, o que mergulha sua rainha Shachi em profundo desespero.
    • Shachi é descrita como bela e apaixonada.
    • A decisão de Indra de abandonar o trono é firme e imediata.
  • Shachi recorre ao sacerdote e conselheiro de Indra, Brihaspati, o Senhor da Sabedoria Mágica, pedindo-lhe que desvie o marido de seu propósito austero, e Brihaspati, com habilidade de mago, conduz a deusa de volta à presença do esposo.
    • Brihaspati é identificado como aquele que, por seus sortilégios, ajudou os poderes celestiais a arrancar o governo do universo das mãos dos titãs.
    • Brihaspati escuta pensativamente a queixa da deusa e assente com saber.
  • Brihaspati discursa sabiamente sobre as virtudes tanto da vida espiritual quanto da vida secular, atribuindo a cada uma o que lhe é devido, e persuade Indra a moderar sua resolução extrema, restaurando a alegria radiante de Shachi.
    • Brihaspati desenvolve seu tema com grande habilidade retórica.
    • O pupilo real é convencido a recuar de seu propósito excessivo.
  • Brihaspati compõe um segundo tratado, desta vez sobre a política e as estratégias do amor conjugal, demonstrando a arte de cortejar continuamente e de prender o ser amado com laços duradouros, estabelecendo em bases sólidas a vida conjugal do casal reunido.
    • Brihaspati já havia composto anteriormente um tratado sobre o governo, para ensinar Indra a reger o mundo.
    • O novo tratado estabelece em bases sólidas a vida conjugal do casal reunido.
  • A narrativa conclui com a história de como Indra foi humilhado em seu orgulho ilimitado, curado de uma ambição excessiva e conduzido, pela sabedoria espiritual e secular combinadas, ao conhecimento de seu papel adequado no jogo incessante da vida.
    • A humilhação de Indra é o mecanismo central da transformação narrada.
    • A sabedoria espiritual e a secular são apresentadas como complementares, não excludentes.
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