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RODA DE RENASCIMENTO
ZIMMER, Heinrich Robert. Myths and symbols in Indian art and civilization. 8. print ed. Princeton, NJ: Princeton Univ. Press, 1992.
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O tesouro de mitos e símbolos da Índia é imenso e ainda parcialmente inexplorado, pois, apesar do trabalho ininterrupto de estudiosos desde o final do século XVIII, surgem com frequência contos até então despercebidos, imagens indecifradas e valores estéticos e filosóficos ainda sem interpretação.
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A tradição indiana é transmitida em continuidade ininterrupta desde o segundo milênio a.C.
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Por ser predominantemente oral, a transmissão deixou um registro imperfeito, com períodos inteiros mal documentados e muito material irreversivelmente perdido.
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Dezenas de milhares de páginas permanecem em manuscrito aguardando edição, e as obras já publicadas são tão numerosas que nenhum indivíduo pode cobri-las em uma vida.
A herança indiana, ao mesmo tempo prodigiosa, fragmentária e homogênea, permite apresentar seus traços principais em um esboço simples e coerente, cabendo ao volume em questão revisar as grandes áreas, os símbolos dominantes e os aspectos mais significativos do mundo do mito hindu.-
As questões de metodologia e interpretação serão tratadas à medida que surgirem, não no início.
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As concepções orientais não devem ser forçadas a caber nas molduras delimitadoras familiares ao Ocidente.
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A profunda estranheza dessas concepções deve ser deixada livre para revelar as limitações inconscientes da abordagem ocidental aos enigmas da existência.
A história da Parada das Formigas abre um espetáculo desconhecido de espaço e pulsa com um ritmo alienígena de tempo, pois as noções de espaço e tempo são geralmente aceitas sem questionamento dentro de uma dada tradição, tornando-se invisíveis como a água para o peixe.-
As concepções de tempo e espaço raramente são discutidas mesmo por pessoas que divergem em questões sociais, políticas e morais.
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Por não alcançar além dessas concepções, o conhecimento ocidental tende a tomá-las como fundamentais à experiência humana em geral e como parte integrante da realidade.
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As concepções indianas de tempo e espaço parecerão, à primeira vista, ao Ocidente, insólitas e bizarras.
A história da reeducação de Indra opera com visões de ciclos cósmicos, eons que se sucedem na infinitude do tempo e coexistem nas infinitudes do espaço, concepções que dificilmente encontram lugar no pensamento sociológico e psicológico ocidental, mas que na Índia constituem o ritmo vital de todo pensamento.-
A roda do nascimento e da morte, o ciclo de emanação, maturação, dissolução e re-emanação, é lugar-comum da fala popular e tema fundamental da filosofia, do mito, da religião, da política e da arte.
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Esse ciclo aplica-se não apenas à vida do indivíduo, mas à história da sociedade e ao curso do cosmos.
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Todo momento da existência é medido e julgado contra o pano de fundo desse pleroma.
Segundo as mitologias do hinduísmo, cada ciclo mundial se subdivide em quatro yugas ou idades do mundo, comparáveis às quatro idades da tradição greco-romana, e que, como estas, declinam em excelência moral à medida que o ciclo avança.-
As idades clássicas ocidentais tomam seus nomes dos metais: Ouro, Prata, Bronze e Ferro.
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As idades hindus tomam seus nomes dos quatro lances do jogo de dados indiano: Krita, Treta, Dvapara e Kali.
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Em ambos os casos, os nomes sugerem as virtudes relativas dos períodos em sua lenta e irreversível sucessão.
Krita Yuga é a primeira e mais perfeita das idades, na qual o Dharma, a ordem moral do mundo, atua plenamente em seus quatro quartos, como uma vaca sagrada firmemente apoiada em quatro patas, e homens e mulheres nascem virtuosos e cumprem os deveres divinamente ordenados.-
Krita significa literalmente “feito, realizado, perfeito”, sendo o lance que ganha o jogo.
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A ideia de totalidade na concepção indiana está associada ao número quatro.
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Os brâmanes são estabelecidos na santidade, os reis agem segundo ideais de conduta régia, os camponeses se dedicam à agricultura e os servos se submetem à ordem sagrada.
No Treta Yuga, a ordem moral perde um quarto de sua força e os modos de vida próprios das quatro castas começam a decair, de modo que os deveres deixam de ser leis espontâneas da ação humana e passam a precisar ser aprendidos.-
Treta significa tríade ou triplo, sendo o lance do três no dado.
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O corpo universal e o corpo da sociedade humana são sustentados por apenas três quartos de sua virtude total.
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A palavra treta é etimologicamente relacionada ao latim tres, ao grego treis e ao inglês three.
O Dvapara Yuga é a idade do equilíbrio perigoso entre imperfeição e perfeição, na qual apenas dois dos quatro quartos do Dharma permanecem efetivos, e a vaca da ordem ética balança sobre apenas duas patas, enquanto os seres humanos de todas as castas se tornam ávidos de posses terrenas e avessos aos deveres sagrados.-
Dvapara deriva de dvi, dvau, significando dois, relacionado ao latim duo e ao grego duo.
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O status semidivino ideal da sociedade é destruído e o conhecimento da hierarquia revelada de valores se perde.
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A verdadeira santidade, alcançável apenas por práticas devocionais, votos, jejum e ascese, se extingue.
O Kali Yuga, a era das trevas, subsiste miseravelmente com apenas vinte e cinco por cento da força plena do Dharma, e elementos egoístas, cegos e imprudentes triunfam e dominam o dia.-
Kali significa o pior de qualquer coisa, além de querela, dissensão e guerra, e é o lance perdedor no jogo de dados.
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O Vishnu Purana descreve a degradação moral e social da era: propriedade conferindo prestígio, riqueza como única virtude, paixão como único vínculo conjugal, falsidade como caminho do sucesso e aparência exterior confundida com religião interior.
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Essa idade, no ciclo presente, teria começado na sexta-feira, 18 de fevereiro de 3102 a.C.
A duração de cada yuga é proporcional à quantidade de Dharma que contém, de modo que o Kali Yuga dura 432.000 anos, o Treta 864.000, o Dvapara 1.296.000 e o Krita 1.728.000, totalizando 4.320.000 anos em um ciclo completo chamado Maha-Yuga, ou Grande Yuga.-
A menor quantidade de substância moral no Kali Yuga explica sua curta duração relativa.
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Os yugas anteriores duram múltiplos inteiros da duração do Kali Yuga.
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O Maha-Yuga corresponde a dez vezes a duração de um Kali Yuga.
Mil Maha-Yugas, equivalentes a 4.320.000.000 anos humanos, constituem um único dia de Brahma, chamado kalpa, que começa com a criação de um universo a partir da Substância divina e termina com a dissolução e reabsorção de tudo no Absoluto.-
Em termos da contagem dos deuses, situados abaixo de Brahma mas acima dos homens, esse período compreende doze mil anos celestiais.
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As esferas mundanas e todos os seres nelas contidos desaparecem ao fim do dia de Brahma.
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Durante a noite de Brahma, que tem a mesma duração do dia, tudo persiste apenas como germe latente de uma necessidade de re-manifestação.
Cada kalpa se subdivide em quatorze manvantaras, ou intervalos de Manu, cada um compreendendo setenta e um e uma fração de Maha-Yugas e terminando com um dilúvio, sendo o período presente chamado Intervalo de Manu Vaivasvata, o sétimo manvantara do dia atual de Brahma.-
Manu é o equivalente hindu de Noé, o herói que escapa do dilúvio.
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O dia presente é denominado Varaha Kalpa, o Kalpa do Javali, pois é nesse dia que Vishnu se encarna na figura de um javali.
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Este é o primeiro dia do quinquagésimo primeiro ano na vida do Brahma atual, com mais sete dilúvios a ocorrer antes do fim do dia.
O progresso e o declínio de cada kalpa são marcados por eventos mitológicos que se repetem ciclicamente, de forma magnífica e inexorável, incluindo as vitórias dos deuses, os intervalos de derrota pelos titãs e os avatares de Vishnu, que surgem para salvar o mundo.-
Os deuses e os titãs são meio-irmãos, e os titãs estão sempre alertas para derrubar os deuses.
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Esses prodígios, por mais singulares que pareçam quando ocorrem, são apenas elos invariáveis de uma cadeia em perpétua rotação.
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Eles constituem o cronograma padrão de um dia de Brahma.
Os eventos mitológicos do Varaha Kalpa incluem a descida de Vishnu como javali para resgatar a Terra recém-criada do fundo do mar, o resgate de um grande rei elefante de um monstro marinho no quarto manvantara, e o Barateamento do Oceano de Leite no sexto.-
No início de cada kalpa, Brahma re-emerge de um lótus que brota do umbigo de Vishnu.
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Os eventos narrados no Ramayana são atribuídos ao Treta Yuga do ciclo presente.
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Os eventos narrados no Mahabharata são atribuídos ao Dvapara Yuga do ciclo presente.
Os textos tradicionais raramente mencionam que os eventos mitológicos que descrevem se repetem a cada kalpa, pois, do ponto de vista do indivíduo de vida breve, tal circunstância prodigiosa pode ser temporariamente desconsiderada, mas não pode ser totalmente descartada, já que o indivíduo permanece envolvido no ciclo das transmigações.-
Um dos relatos purânicos sobre os feitos de Vishnu em sua encarnação como Javali contém uma referência casual à recorrência cíclica dos grandes momentos do mito.
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O Javali, carregando a deusa Terra que está resgatando das profundezas do mar, observa casualmente: “Cada vez que te carrego assim…”
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Para a mente ocidental, que acredita em eventos históricos únicos e decisivos, esse comentário casual do deus eterno tem um efeito suavemente aniquilador sobre concepções de valor intrínsecas à estimativa ocidental do homem, sua vida, seu destino e sua tarefa.
Do ponto de vista humano, a vida de um Brahma parece muito longa, mas é limitada a cem anos de Brahma, ao fim dos quais ocorre uma grande dissolução universal que faz desaparecer não apenas as esferas visíveis dos três mundos, mas todas as esferas do ser, resolvendo tudo na Substância divina primordial.-
Após a dissolução universal, um estado de total reabsorção prevalece por mais um século de Brahma.
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Findo esse período, o ciclo inteiro de 311.040.000.000.000 anos humanos recomeça do início.
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