User Tools

Site Tools


mitologia:zoroastro:zaehner:imortais

IMORTAIS

ZAEHNER, R. C.. The Dawn and Twilight of Zoroastrianism. New York: G. P. PUTNAM'S SONS, 1961.

  • Ahura Mazdah, o Senhor Sábio, não é idêntico ao Espírito Santo (Spenta Mainyu), e logo após a morte do Profeta as entidades próximas ao Senhor Sábio foram sistematizadas numa héptade fechada de amesha spentas, os “Imortais Benfazejos”.
    • Os seis abstratos que compõem a héptade ao lado de Ahura Mazdah são: a Boa Mente, a Verdade ou Retidão (asha), a Reta Disposição (armaiti), o Reino, a Inteireza e a Imortalidade.
    • Nos Gathas, Ahura Mazdah é chamado pai do Espírito Santo, da Verdade, da Boa Mente e da Reta Disposição, mas essa paternidade divina não deve ser entendida em sentido literal.
    • O Espírito Santo, a Verdade e a Boa Mente são as hipóstases mais próximas de Deus; a Reta Disposição é a atitude de humildade do homem diante de Deus; a Inteireza e a Imortalidade são primariamente dons de Deus ao homem.
  • Cada um dos Imortais Benfazejos foi associado, muito cedo após a morte do Profeta, a elementos físicos do mundo material, numa vinculação entre o espiritual e o material que remonta ao próprio Zoroastro.
    • A Boa Mente foi associada ao gado, a Verdade ao fogo, o Reino aos metais, a Reta Disposição à terra, a Inteireza à água e a Imortalidade às plantas.
    • Já nos Gathas, armaiti parece identificada com a terra, e o fogo é símbolo da Verdade, enquanto a Boa Mente está estreitamente ligada ao gado.
    • Na tradição posterior, o homem é o correlato terreno de Ahura Mazdah, o boi da Boa Mente, o fogo da Verdade, a terra da Reta Disposição, a água e as plantas da Inteireza e da Imortalidade.
  • Os Imortais Benfazejos são primariamente aspectos de Deus e os instrumentos pelos quais ele age, aparecendo gramaticalmente com frequência no caso instrumental, o que indica que Zoroastro não os concebia como tendo existência separada de Deus.
    • Deus aparece como agente e suas operações divinas se realizam através de um dos Imortais Benfazejos.
    • A relação é comparável à da oração cristã, em que o homem ora a Deus por meio de Cristo, assim como Deus cria por meio do mesmo Cristo; no zoroastrismo, Deus se comunica com o homem pela Boa Mente e cria pelo Espírito Santo.
    • É pela Boa Mente que Deus se une ao homem e nele ativa a Retidão, e é pela Retidão que o homem justo percorre os caminhos da Boa Mente.
  • A vinculação entre os mundos espiritual e material constitui uma unidade harmoniosa que só é perturbada pela Mentira e por seu representante mais ilustre, Angra Mainyu, o Espírito Destrutivo, que introduz a morte no mundo.
    • A terra e a água que geram as plantas, as plantas que alimentam o gado e o gado que fornece leite e carne ao homem fazem parte do processo universal de vida.
    • Os metais, correlato terreno do Reino, podem ser usurpados pelos inimigos, assim como o próprio Reino pode sê-lo pelos seguidores da Mentira.
    • O fogo, posto por Zoroastro no centro de seu culto, é símbolo da Verdade porque, ao destruir a escuridão, representa o brilho que destrói o erro.
  • Dos conceitos que compõem a héptade, apenas Asha possui origem indo-iraniana demonstrável, correspondendo ao Rta do Rig-Veda, enquanto os demais parecem ser desenvolvimentos originais do próprio Zoroastro a partir de rudimentos muito tênues.
    • A Boa Mente e a Reta Disposição parecem elaborações da antítese fundamental entre Verdade e Mentira; a Boa Mente se opõe à Mente Má, e a Reta Disposição se opõe ao orgulho (Taromaiti ou Pairimaiti).
    • A Reta Disposição é predominantemente uma excelência humana e é ela que o próprio Senhor Sábio escolhe ao fazer sua irrevogável opção entre verdade e falsidade.
    • As teorias que tentaram explicar os Imortais Benfazejos por comparação com os adityas indianos, com o sistema planetário babilônico ou com as “três funções” indo-europeias de Georges Dumézil nada explicam de fato.
  • A Boa Mente parece ter sido invenção pessoal de Zoroastro, manifestação da mente divina a ele diretamente, e é através dela que o Profeta recebe sua revelação mais pessoal e estabelece o fogo como centro de seu culto.
    • No Yasna 29, a Boa Mente nomeia Zoroastro protetor do boi, modificando uma ordenança eterna promulgada por Ahura Mazdah e sua Verdade, mas o fazendo por incumbência do próprio Ahura Mazdah.
    • Na revelação mais pessoal relatada, é a Boa Mente que envolve Zoroastro e lhe pergunta quem ele é, ao que o Profeta responde ser verdadeiro inimigo do seguidor da Mentira e firme apoio do seguidor da Verdade.
    • O Professor Duchesne-Guillemin tem razão em se referir a Ahura Mazdah, à Verdade e à Boa Mente como a “Tríade” divina, pois as três estão unidas de modo que os demais Imortais Benfazejos não estão.
  • A originalidade do pensamento de Zoroastro torna-se evidente na comparação dos Gathas com o Rig-Veda e com o Avesta posterior, pois enquanto estes são francamente politeístas ou henoteístas, os Gathas apresentam um monoteísmo puro que porta a marca de uma revelação profundamente vivida e elaborada.
mitologia/zoroastro/zaehner/imortais.txt · Last modified: by 127.0.0.1