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2 Experiência objetiva

LEVY, John. The Nature of man according to Vedanta. London: Routledge, 1956.

IV – INTRODUÇÃO À ANÁLISE DA EXPERIÊNCIA OBJETIVA

1. Experiência objetiva

1. A experiência objetiva é uma mescla de pensamento e sentimento, e a natureza do sentimento só pode ser compreendida depois de plenamente analisado o pensamento como tal, entendido como o produto formal da cognição, seja ela voluntária ou involuntária.

2. Os dois tipos de cognição

1. A cognição é introversiva ou extroversiva, isto é, subjetiva ou objetiva, e como o pensamento e seu objeto são inseparavelmente um, a introversão pura conduz de imediato para além da mentação, pois voltar a atenção para a existência absoluta, que é o eu real, faz desaparecer a objetividade e dissolve o pensamento na não-dualidade, ao passo que voltá-la para os objetos sensoriais faz da consciência desses objetos outros tantos pensamentos objetivos, que são os que agora importam.

3. Um pensamento não é uma entidade

1. O pensamento é o nome dado à aparente objetivação da consciência, mas, provisoriamente, fala-se dos pensamentos como se fossem entidades reais, já que assim os considera o homem comum.

4. Pensamento abstrato e generalização

1. O pensamento abstrato e a generalização estão ligados à percepção sensorial, pois para alcançá-los é preciso considerar particulares, e o pensamento resultante exprime-se sempre em termos dos sentidos, por mais abstrato que seja ou por qualquer intuição que se tenha chegado a ele, como mostra a palavra “homem”, que, mal apreendida, suscita alguma representação visual diante do olho da mente, e assim todas as noções abstratas de qualidades, números, relações ou conceitos exigem o apoio de algum objeto de percepção sensorial, ainda que seja apenas um símbolo como um algarismo ou um som, sendo por isso objetos da consciência e inteiramente distintos da introversão.

2. Em certas pessoas a reação pode não ser visual, mas é sempre sensorial.

5. Os objetos da consciência

1. Objeto da consciência é tudo aquilo que pode retornar na memória, pois só se recorda o que se conheceu.

6. Percepção sensorial

1. Os objetos como tais nunca são realmente percebidos, pois a percepção sensorial fornece apenas as sensações nuas de som, tato, luz, gosto e cheiro, sem apresentar noções prontas de objetos, e o modo como, a partir de sensações simples, se forma a noção complexa de um mundo exterior regido por tempo, espaço e causalidade constitui o tema desta segunda parte da investigação.

2. O termo tato abrange todas as sensações cutâneas, como picada, dor, temperatura, contato e cinestesia, segundo a classificação de Parsons, e a investigação pouco tem a ver com os fins da fisiologia e da psicologia acadêmicas, sendo seu propósito inteiramente diverso do da ciência empírica.

3. O termo luz designa, da forma mais geral, forma, figura e cor, isto é, tudo o que é visual.

V – PERCEPÇÃO SENSORIAL E A NOÇÃO DE OBJETOS

1. Como surge a noção de objeto

1. Como a percepção sensorial fornece apenas sensações nuas de som, tato, luz, gosto e cheiro, quem percebe forma a noção de um objeto específico, ou de uma classe de objetos, quando é afetado repetida e semelhantemente por um grupo mais ou menos constante de sensações.

2. A correlação entre objetos dos sentidos e os sentidos

1. A luz é inseparável do ato de ver e o som do ato de ouvir, e um mesmo estímulo pode gerar som na linguagem dos ouvidos ou tato, luz, gosto e cheiro na linguagem da pele, dos olhos, da língua ou do nariz, sem que isso implique que o estimulante tenha existência real fora do ser percebido, pois abstraídas as qualidades conferidas pelos sentidos a um objeto supostamente independente, desaparecem sua materialidade e objetividade e resta um ser sem nome e sem forma, que transcende a dualidade de conhecedor e conhecido, e como essa abstração implica que quem percebe transcendeu também as qualidades sensíveis da própria pessoa, nenhuma diferença subsiste entre percebedor e percebido, abstração que se realiza inadvertidamente sempre que cessa a consciência de objetos, no intervalo entre dois pensamentos, na satisfação de um desejo ou no sono sem sonhos.

2. Essas considerações provam que as aparências como tais não passam do sentir dos sentidos e que o ser sem nome e sem forma é outro aspecto do princípio não dual da consciência, ficando para outro momento a questão de por que a não-dualidade parece dividir-se em sujeito consciente e objeto.

3. Forma designa as qualidades sensíveis em geral, e nome as qualidades intelectuais, isto é, tudo o que concerne à associação de ideias e à noção de um objeto específico ou de uma classe de objetos.

3. A unidade entre o que percebe e o percebido

1. Entre o chamado dado sensorial e o órgão correspondente há uma conexão imediata e inseparável, pois é da natureza da faculdade visual manifestar formas e cores, e da auditiva manifestar sons, de modo que aquilo que se toma por objeto é a visibilidade da visão, a audibilidade da audição e assim por diante, sem que nenhum objeto como tal tenha sido conhecido.

2. A ideia habitual de que as sensações são causadas por estímulos exteriores aos sentidos é uma ilusão, como mostra o fato de que um mundo percebido com apenas quatro sentidos, sem o tato por exemplo, não seria o mesmo cuja existência real se dá por certa, e como a noção de objetos é inseparável dos atos de ouvir, tocar, ver, provar e cheirar, e como vigília e sonho, vistos da consciência comum a ambos, são indistinguíveis enquanto produtos mentais, jamais existe um estímulo exterior aos sentidos.

4. A relação entre cérebro, órgãos dos sentidos e mundo exterior

1. A fisiologia reconhece no fenômeno da projeção que as sensações, embora resultem de alterações nas células cerebrais, são sentidas como se ocorressem à distância, o tato na pele, o gosto na boca, a visão e o som no ambiente, como ilusões convencionais estabelecidas na infância, sendo as sensações meras máscaras e símbolos de uma realidade filtrada pelo aparelho sensorial, e afirma ainda que a natureza particular de uma sensação é determinada pelo órgão receptor e não pelo estímulo, o que confirma, a partir da ciência empírica e provavelmente sem tal intenção, que a aparência como tal é apenas o sentir dos sentidos e que os objetos dos sentidos são um com a percepção sensorial.

2. Realidade é aquilo que transcende a mudança, e a análise do sono sem sonhos mostrou que essa realidade imutável é o eu, a consciência única em que vêm e vão os múltiplos aspectos da experiência objetiva, de modo que, se as sensações são máscaras e símbolos da realidade, desta não se pode ter conhecimento objetivo, pois ela se identifica com a não-dualidade.

5. Como surge a noção de mundo

1. Os objetos como tais não são percebidos e existem apenas como noções, isto é, quando são pensados, e como não se pode ter mais de um pensamento por vez, embora a rapidez de sua sucessão faça o homem comum crer no contrário, a existência simultânea de objetos é impossível, sendo a memória das noções passadas que leva a crer em sua coexistência, e a ilusão da existência simultânea e independente dos objetos dá origem à noção de mundo, que não passa de uma generalização.

2. A ideia de que se podem conhecer vários objetos simultaneamente é um dos muitos hábitos errôneos de pensamento que obscurecem a compreensão, e o desmascaramento desses hábitos desempenha papel importante no método.

3. A natureza da memória será discutida em etapa posterior.

4. Independente refere-se aqui à ideia de que os objetos existem independentemente de serem conhecidos.

6. Conclusão: as sensações como palavras de uma linguagem sensorial

1. Quando não há objetivação da consciência, isto é, percepção sensorial, aquilo que parecia ser objeto perde seus atributos sensoriais e intelectuais e permanece como o princípio da consciência em que parecia aparecer, não podendo ser chamado objeto nem o tendo jamais sido, pois em si transcendia nome e forma, o que não significa que nada esteja presente quando algo é conhecido, mas que esse algo existe de modo diverso de como aparece, já que a aparência é determinada apenas por quem percebe e não pela coisa em si, sendo os sentidos como outras tantas línguas que exprimem, cada uma em seu idioma, o ser não objetivado que está além do domínio da expressão.

Pós-escrito: Uma palavra sobre a intuição

1. As observações seguintes antecipam uma parte do método que exige preparação prévia, e quem não alcançar agora seu alcance deve evitar esforços indevidos e aguardar a leitura dos capítulos até o que trata de desejos, sentimentos e testemunha, pois certas passagens só se compreendem plenamente depois de visto o método como um todo, assim como uma melodia só pode ser apreciada depois de ouvida até o fim, quando se torna possível perceber o equilíbrio e o significado de cada nota ou grupo de notas na linha melódica.

2. Intuição é a prática inadvertida da introversão, que refere toda experiência objetiva à consciência subjetiva, um dom que muitas vezes pode ser desenvolvido por treinamento adequado, mas que não responde pelo acerto ou erro das conclusões alcançadas nem guarda relação imediata com o grau de cultura erudita ou estética de quem o possui, pois a cultura pode tanto evitar quanto provocar conclusões falsas, sendo necessário algo mais para que as intuições não sejam mal interpretadas por quem as tem.

3. O treinamento referido é a prática da introversão, parte importante do método vedântico, que ajuda a conduzir a um estado em que a intuição, em vez de fortuita, se torna o padrão normal da experiência, estado que transcende o que comumente se entende por intuição e melhor se descreve como a realização da não-dualidade.

4. Embora muitas pessoas dotadas pudessem seguir esse caminho se quisessem, é muito pequeno o número das que desejam acima de tudo o conhecimento espiritual, pois pode-se levar o cavalo à água, mas não obrigá-lo a beber.

VI – O CORPO E A FACULDADE SENSORIAL

1. O corpo e seu mundo

1. O corpo não poderia existir sem os sentidos, e os sentidos exigem o suporte de um corpo, sendo ambos inseparáveis, como se observa ao despertar, quando a consciência dos corpos estranhos surge aliada à consciência do próprio corpo, formando o corpo de quem percebe e seu mundo um todo indivisível.

2. O próprio corpo como objeto da consciência

1. Como o homem comum só conhece a subjetividade por meio da experiência de objetos, e como o lado objetivo da experiência é sensorial, a faculdade sensorial e o corpo que a sustenta parecem-lhe naturalmente situados do lado da consciência subjetiva, o que o leva a pensar o corpo como coisa à parte, quando o corpo é apenas um objeto da consciência entre outros.

3. O próprio corpo como noção

1. Se os objetos como tais não são percebidos, o próprio corpo, sendo objeto, tampouco é percebido, mas é uma noção formada do mesmo modo que a noção de qualquer outro objeto.

VII – A NATUREZA SENSORIAL DO MUNDO

1. A relação entre o corpo de quem percebe e os corpos estranhos

1. Como as sensações que originam a noção de objeto são apenas o sentir dos sentidos, e como estes não existem sem o suporte de um corpo, a noção de qualquer corpo estranho, animado ou inanimado, depende da noção do próprio corpo, pois a forma e a cor de um objeto se ligam inseparavelmente aos olhos, sua textura, peso e temperatura à pele, seu som aos ouvidos, e mesmo falar do som, da cor ou da textura de algo é concessão a um preconceito, já que na experiência real há apenas sensações isoladas, depois chamadas atributos de um objeto, sendo ainda o corpo próprio o padrão último de tamanho e situação.

2. A noção dos corpos de outras pessoas

1. Os corpos alheios, como o próprio, são noções pertencentes ao estado de atividade mental presentemente vivido, conclusão a que também conduz a análise da percepção sensorial, já que a noção de um corpo estranho depende da noção do próprio corpo, seja este o da vigília ou o do sonho, e também a experiência atribuída aos outros revela-se uma noção no que tem de objetivo.

VIII – O SENSO COMUM E O TESTEMUNHO DOS OUTROS

1. As limitações do senso comum

1. O senso comum apoia-se no testemunho de outros seres vivos ou de instrumentos fabricados que ampliam a faculdade sensorial para provar a existência independente dos objetos, dando por certa a existência independente desses mesmos seres e instrumentos, ao passo que a visão metafísica, em total oposição, considera ilusória a ideia de que objetos animados ou inanimados existam independentemente de serem percebidos.

2. Os cânones do senso comum não podem nem precisam ser desprezados nas situações puramente humanas a que se aplicam, mas quem pretende centrar-se no eu imutável, em vez de viver na periferia à mercê de tudo o que afeta a pessoa, deve adotar uma posição que permita ver com plena objetividade todos os aspectos da experiência, discriminando o transitório do imperecível, visão que só se obtém do ponto de vista da consciência.

2. A atribuição de vida a outros corpos

1. Entre corpos animados e inanimados nem sempre se pode traçar distinção segura, pois os sentidos como tais só encontram matéria insensível, e o princípio da vida e da consciência jamais pode ser objeto de percepção.

2. Outros seres corporificados só parecem existir quando se parece estar corporificado, o que ocorre na vigília e no sonho, estados transitórios que vêm e vão na consciência e cujas experiências se correspondem exatamente como produtos da mente, de modo que, assim como o sonhador dota de vida e consciência os corpos imaginários do sonho, o homem desperto faz o mesmo com os da vigília, e o hábito de atribuir vida aos corpos acompanha a extroversão, não sendo a noção de organismo vivo senão a objetivação do princípio da vida em termos dos sentidos.

3. A definição de organismo vivo como aquilo que possui capacidade de formar reflexos condicionados, adotada por Bertrand Russell do ponto de vista do senso comum, pode servir de excelente critério para as inferências da ciência natural, mas nada explica sobre a atribuição de vida a corpos estranhos.

3. Conclusão: um meio de elevar-se acima da perspectiva do senso comum

1. Assim como não se pode avaliar a cor exata dos objetos usando sempre óculos coloridos, não se pode conhecer a verdadeira natureza da experiência individual vendo-a sempre do ponto de vista da individualidade, sendo o senso comum, na verdade, sinônimo de ignorância, que gera a dúvida, e por isso convém buscar o motivo de toda questão filosófica, reconsiderando do ponto de vista da consciência todo problema que vise validar a perspectiva do senso comum, da vigília, para vê-lo em sua justa perspectiva ou vê-lo desaparecer, sem deixar-se deter pelo clamor interior de objeções, pois o motivo é a busca da verdade.

2. Esse algo que levanta objeções é o ego, cuja natureza será discutida no momento oportuno.

IX – O DUALISMO IRREAL DE MENTE E MATÉRIA

1. Nenhuma distinção entre o mental e o físico

1. Fica provado que a experiência de vigília, como a do sonho, é produto da mente, pois todos os objetos dos sentidos, inclusive o corpo, existem apenas como noções, quando pensados, e por isso é irreal a distinção entre objetos físicos e mentais, residindo a diferença não na natureza dos objetos, mas na qualidade ou intensidade diversa dos pensamentos, assumindo a extroversão ora a tangibilidade, ora não.

2. Problemas insolúveis

1. Responder por que isso é assim exigiria incursões na cosmogonia e na evolução, o que equivaleria a conceder que as aparências existem independentemente de serem conhecidas, erro já refutado, e nada se ganharia com tal concessão, pois recorrer a um princípio exterior para explicar a origem da manifestação deixaria sem razão o fato de uma causa primeira, Deus, supostamente sem carências, ter desejado trazer um universo à existência, sendo preferível demonstrar que todas as questões sobre origens são ilógicas e absurdas.

2. A cosmogonia e a evolução foram discutidas sob vários pontos de vista em obra anterior, notadamente no capítulo sobre a evolução, e a questão das origens será retomada no capítulo XXVIII.

X – DOIS EQUÍVOCOS COMUNS

Bispo Berkeley, Bertrand Russell e Dr. Samuel Johnson

1. Russell admite que Berkeley acerta ao dizer que os eventos conhecidos imediatamente são mentais, mas julga provável que erre quanto aos eventos inferidos em lugares sem corpos vivos, já que luz e som levam tempo para viajar até quem percebe e algo não mental deve ocorrer no trajeto, mas não há diferença entre os eventos conhecidos imediatamente e os inferidos, pois ao postular eventos não percebidos visualizam-se inevitavelmente imagens mentais, conhecidas imediatamente ainda que vagamente, como se estivessem fisicamente presentes, o que reintroduz o dualismo de mente e matéria que o próprio Russell refutou, e nessa postulação se está presente, imaginativamente com o próprio corpo ou vicariamente pelo de outrem ou por algum aparelho de registro, para testemunhar os eventos inferidos, seja a inferência certa ou errada.

2. O próprio Russell reconhece que, quanto ao mundo em geral, físico e mental, o que se sabe de seu caráter intrínseco deriva do lado mental e quase tudo o que se sabe de suas leis causais deriva do lado físico, mas que do ponto de vista da filosofia a distinção entre físico e mental é superficial e irreal.

3. A observação de Russell de que a matéria decaiu com a física recente, deixando de ser causa das sensações, e de que o Dr. Johnson, ao chutar uma pedra para refutar Berkeley, ficaria menos satisfeito se soubesse que pé e pedra eram sistemas complicados de movimentos ondulatórios que nunca se tocaram, apenas substitui uma terminologia por outra, sendo a resposta adequada que o pé de Johnson fazia parte integrante do mundo aparentemente exterior e não diferia da pedra, de modo que, se a pedra era mental, também o era o corpo, tendo Johnson cometido o erro de pensar o próprio corpo como coisa à parte.

XI – A ILUSÃO DA MATERIALIDADE

1. Materialidade

1. A noção de materialidade coincide com as ilusões gêmeas de que os objetos existem independentemente de serem percebidos e de que, sólidos, líquidos ou gasosos, possuem três dimensões, e para compreender como surge a noção de objeto tridimensional é preciso entender antes como se forma a noção de extensão em comprimento e largura.

2. Comprimento e largura

1. A extensão em comprimento, em largura ou em ambos é uma ideia formada pela memória de sensações descontínuas embora sucessivas, que do ponto de vista do senso comum podem parecer físicas ou mentais e que dão a impressão de se ter percebido uma superfície, sem que tenha havido percepção imediata de superfície alguma.

2. Diante de uma página impressa à distância de leitura, nota-se que é preciso mover os olhos ou a página para ver mais do que uma porção muito limitada e que, enquanto se observa uma porção, não se observam as outras, de modo que a impressão de ter visto a página não resulta de um olhar único e abrangente, mas da memória de vários olhares distintos, tal como a noção de objeto específico nasce de grupos de sensações repetidos e semelhantes.

3. Quando aquilo que depois se chama superfície cabe num único foco visual ou tátil de atenção, ou se olha e apalpa com mais minúcia, ou, como é mais comum, recorre-se inadvertidamente à experiência passada para suprir imaginativamente as sensações que se combinam na noção de superfície ou de objeto.

3. Profundidade

1. O conhecimento da extensão em profundidade, da superfície para dentro, tampouco resulta de percepção direta, pois as sensações são de superfícies, embora a ideia de profundidade seja inerente à noção de superfície, já que uma superfície sem substância é inconcebível, digam o que disserem os mercadores de abstrações.

4. O aspecto fisiológico da tridimensionalidade

1. A noção de profundidade tem base fisiológica em dois fatores paralelos, as convenções do tato e a visão binocular, sendo esta impossível sem aquele, e assim como a visão binocular funde em uma só as duas imagens ligeiramente diversas formadas por cada olho, a pele mostra que a leitura convencional das sensações depende apenas do hábito, pois um lápis entre as pontas do dedo médio e do indicador é sentido como um só estímulo porque essas superfícies costumam ser adjacentes, ao passo que, cruzados os dedos, é sentido como duplo, permanecendo as duas sensações, sem o testemunho dos olhos ou o conhecimento do experimento, tão distintas quanto de fato são, o que se aplica à faculdade de agarrar, em que reside a base fisiológica da tridimensionalidade, e evidencia que o aspecto fisiológico da percepção não pode ser separado do psicológico.

5. Continuidade

1. A resposta a estímulos sensoriais acima de certo limiar prolonga-se brevemente após o evento, sendo em última instância cerebral e bioquímica, e grupos distintos de sensações com seus prolongamentos sucedem-se com rapidez suficiente para parecerem uma linha contínua, mas a continuidade objetiva é ilusória, como mostra o intervalo entre dois pensamentos, normalmente despercebido porque se supõe erroneamente que, sem nada objetivo presente, subsistam o nada e a inconsciência, de modo que o senso de continuidade não deriva do lado objetivo e fisiológico da percepção, mas da consciência única, imutável e atemporal em que todas as percepções ocorrem.

6. A origem psicológica da tridimensionalidade

1. Quando a atenção se volta para fora, toma-se consciência de sensações e realiza-se instintivamente o processo mental de compor superfícies pela memória, completado por outro que imagina o que não se pode perceber, o outro lado ou o interior da superfície nocionalmente percebida, obtendo-se assim a impressão de um objeto tridimensional, e o hábito de combinar sensações táteis com visuais e outras deve-se em parte, senão inteiramente, à possibilidade de sentir ou tocar partes do próprio corpo que não se veem, completando a analogia o resto, tal como numa pintura o reconhecimento de objetos inexistentes num espaço inexistente não provém da tela colorida, mas do hábito de associar sensações físicas e imaginárias para formar ideias, do mesmo modo que se cria o mundo sólido dos cinco sentidos.

2. Na prática nem sempre se vê ou sente em imaginação o outro lado ou o interior de uma superfície, pois a ideia de materialidade está tão enraizada no hábito mental que isso se torna dispensável, e assim como no raciocínio também na percepção se chega a conclusões por um processo elíptico, talvez a melhor medida de bons e maus cérebros, atalho pragmaticamente útil mas metafisicamente inseguro, do qual pode ser preciso desembaraçar-se ao praticar o método.

3. No cinema sonoro, a partir do jogo mecânico de luz sobre uma tela e das ondas sonoras vazias que enchem a sala, cria-se, como num sonho, um mundo vivo do qual se participa inteiramente, percorrendo toda a vasta gama do pensamento e do sentimento, o que ilustra também a atribuição de vida e consciência aos outros.

7. O objetivo desta análise

1. O relato simplificado de um processo complexo justifica-se porque o ponto de vista e o propósito diferem essencialmente dos da ciência empírica, visando separar do lado objetivo da experiência humana o princípio consciente que a informa, ficando o significado da percepção sensorial e da memória para a análise da natureza do desejo.

8. Resumo

1. A materialidade é uma ilusão criada pela combinação, por meio da memória, de sensações visuais e táteis, experimentadas como físicas ou mentais, relativas a movimentos reais e imaginários do corpo e dos sentidos de quem percebe.

XII – ESPAÇO

1. O conceito de espaço e a ilusão da materialidade

1. A ilusão de que os objetos, meras noções presentes, têm existência independente e simultânea, somada à da tridimensionalidade, gera a noção de um espaço em que as coisas materiais se localizam e pelo qual são permeadas, e o intervalo vazio entre corpos supostamente coexistentes, que nada contém correspondente à noção comum de objeto e parece imensuravelmente grande e independente em comparação com o volume de todos os corpos visíveis e tangíveis, recebe do homem comum existência absoluta, mas como não se pode pensar um intervalo ou um vazio em abstrato, sem referência a corpos tangíveis, a começar pelo próprio, o espaço, longe de ser independente e absoluto, coincide com a noção de matéria e em particular com a noção da própria encarnação.

2. Distância e proximidade

1. O conceito de espaço e a ideia errônea da existência independente e simultânea dos objetos andam juntos, e a objeção triunfante de que um objeto distante, se fosse noção na cabeça de quem o pensa, deveria aparecer diante dele assenta num mal-entendido, pois pensamentos determinativos de tempo e lugar acompanham quase sempre, e com grande rapidez, o pensamento de um objeto, sem fazer parte dele, já que o objeto pensado especificamente não tem localização, nem perto nem longe, nem aqui nem ali, sendo necessário outro pensamento ou série de pensamentos para situá-lo em relação aos demais, e além disso a mesma memória que faz crer na existência simultânea dos objetos não permite ver o Vesúvio sobre uma escrivaninha.

2. Espaço, localização, distância, proximidade e direção são termos abstratos nascidos de percepções presentes, sem as quais careceriam de sentido, generalidades cômodas que se tende a converter em entidades absolutas, mas sempre que se usam tais palavras fala-se de imagens ou sensações reais, por vagas que sejam, pois não há diferença entre consciência mental e física.

3. Expressões como consciência, princípio da consciência, paz e não-dualidade podem parecer exemplos dessa tendência a absolutizar abstrações, impressão que se desfaz para quem tiver paciência de ler até o fim.

3. Conclusão

1. Se os objetos materiais e sua situação espacial são noções separadas ligadas apenas pela memória, isto é, na mente, os objetos situam-se não num espaço invisível e exterior, mas na consciência de quem os percebe.

2. A física, ao não aceitar mais sem reservas a existência absoluta de um espaço tridimensional e ao rejeitar a noção comum de tempo, confirma as descobertas do Advaita Vedanta, mas postular um contínuo quadridimensional perpetua sob nova forma as velhas ilusões do senso comum sobre a existência real e independente das coisas, conceito que, por útil que seja à ciência empírica, pouco significa para a psicologia e nada para esta doutrina, sendo esse contínuo, se assim se pode chamá-lo, a consciência única em que ocorre toda a múltipla experiência.

XIII – A ILUSÃO DA CAUSALIDADE

1. Mudança

1. A mutação caracteriza a experiência de vigília e de sonho, mas na verdade nada muda, pois quando o protótipo mudou deixou de existir, e a forma presente é outro objeto, novo e original, da consciência, sem que registros ou memórias do original ofereçam base adequada para comparar e associar o antigo e o novo, já que uma fotografia é apenas extensão da memória, quando não seu substituto, e a recordação é apenas um tipo de pensamento entre outros, constituindo cada memória um objeto presente e, portanto, inteiramente novo da consciência.

2. Viver no mundo é impossível sem aceitar a causalidade, mas compreender a natureza do mundo é impossível aceitando-a, pois aceitá-la equivale a conceder a existência independente e simultânea de objetos que agem uns sobre os outros, o que é impossível, já que um objeto só existe quando pensado e dois pensamentos não ocorrem simultaneamente, e mesmo admitida a existência independente dos objetos, a relação de causa e efeito não se sustentaria, porque só depois da ocorrência se pode tomá-la como efeito de uma causa, quando a suposta causa já deve ter passado inteiramente ao efeito, sem que ambas tenham jamais sido observadas juntas, sendo a causalidade um termo sem sentido.

3. Relação

1. Embora todos experimentem o eu como continuidade ininterrupta, normalmente só o notam como o sujeito a quem os objetos aparecem descontinuamente, por não terem examinado a natureza do sono sem sonhos, e por enfatizarem o lado objetivo da experiência e negligenciarem o subjetivo transferem a continuidade da consciência para os objetos sob a forma de relação, aparecendo então a consciência como a memória que relaciona um pensamento a outro, quando a recordação é apenas um tipo de pensamento e dois pensamentos não ocorrem simultaneamente.

4. Resumo: a ilusão da relação

1. Um pensamento é a consciência de um objeto e cada novo pensamento indica um novo objeto, e como dois pensamentos não ocorrem juntos, dois objetos não podem coexistir nem, portanto, relacionar-se, sendo errôneas as ideias de mudança e causalidade, pois o incidente da mudança e a relação de causa e efeito são ficções.

XIV – TEMPO E ESPAÇO

1. A relação do espaço com o tempo

1. Concedida a realidade do espaço junto com a do corpo de quem percebe, a noção de extensão exige várias percepções, que levam tempo por serem sucessivas, de modo que o espaço se liga inseparavelmente ao tempo, e o tempo à memória de percepções sucessivas, concedida também a existência real de uma faculdade retentiva.

2. O conceito de tempo

1. A distinção proposta por muitos pensadores entre tempo perceptual ou subjetivo, confinado ao agora sempre móvel do presente, e tempo conceitual ou objetivo, que abrange todos os períodos e relaciona fixamente passado, presente e futuro, não pode ser traçada com clareza, pois um não se postula sem o outro, e considerado o agora inteiramente em si, tal como ocorre na experiência, o tempo não precisa ser postulado, assim como, examinadas de perto, as ideias de passado, presente e futuro revelam-se gratuitas, o que de novo impede postular o tempo.

XV – TEMPO E ATEMPORALIDADE

1. Duração e noção de tempo

1. O sono sem sonhos, visto de seu próprio ponto de vista e na realidade, é estado de ser incondicionado, e ainda assim diz-se ter dormido tantas horas, assim como se diz breve o intervalo entre dois pensamentos, atribuindo-se em ambos os casos existência temporal ao eu incondicionado, mas examinada a experiência real, a duração não tem parte nela, sendo experimentada apenas em estados de sucessão de pensamentos, de modo que o tempo é objeto da consciência, sem existência a menos que pensado, e seu conceito assenta nas ideias de passado, presente e futuro.

2. Essa divisão do tempo carece de sentido real, pois o pensamento de um evento passado ou futuro ocorre sempre como objeto presente da consciência, e o evento recordado ou esperado foi ou será experiência presente, desaparecendo de vez o passado e sendo de todo inexistente o futuro, e como sem passado e futuro subsistentes não se forma noção de presente, não pode haver presente, subsistindo apenas a consciência, a única sempre presente.

2. Tempo

1. De um ponto de vista ainda dual, o pensamento aparece como o princípio da consciência objetivado, sem que se possa dizer por quê, pois tal objetivação exigiria um agente independente e nada existe independentemente da consciência, sendo o pensamento a aparente objetivação da consciência, inseparável de seu objeto, e o tempo, ou a noção de sucessão, um desses objetos, isto é, também consciência objetivada.

2. A questão de por que o princípio da consciência, imutável e impessoal, aparece como dualidade de sujeito consciente e objeto será considerada no capítulo sobre as questões absurdas.

3. A passagem do tempo e o ser puro

1. A passagem do tempo mede-se pela observação de movimentos em objetos naturais como o sol, o que implica a recordação de percepções sensoriais sucessivas, e sem essas memórias a noção de tempo, se pudesse ser adquirida, dissolver-se-ia na experiência do ser puro, como ocorre sempre que cessa a atividade mental.

4. A apreensão da atemporalidade

1. A ausência de atividade mental não pode propriamente chamar-se estado, pois transcende o tempo, e compreendê-la exige abstrair da mente toda ideia de duração, o que é possível porque o pensamento é sempre um com seu objeto, de modo que, tomada a atemporalidade como objeto do pensamento, tudo o que é objetivo se desprende e realiza-se a atemporalidade como ser puro e imutável.

XVI – O TEMPO E A ETERNIDADE PRESENTE

1. A situação da experiência no tempo

1. Quando se pensa um objeto específico, nada mais está presente à consciência nem há ideia de sua localização, exigindo-se outro pensamento ou série de pensamentos para situá-lo em relação aos demais, e assim como um grupo de sensações que forma a noção de objeto é habitualmente seguido de outro que o situa no espaço, essa e qualquer outra experiência é seguida de outra que a situa no tempo, relacionando-a com a sucessão dos pensamentos em geral, e o grupo assim situado é considerado ocorrência presente, embora já passado, só sendo tido por passado quando surgem novos pensamentos.

2. Passado, presente e futuro

1. Pensei significa na verdade estar presentemente consciente do tipo de pensamento chamado memória ou recordação, pensarei significa estar presentemente consciente do tipo de pensamento chamado expectativa, intenção ou previsão, e penso significa estar presentemente consciente do tipo de pensamento chamado atualidade ou ocorrência presente, ao passo que a ausência de experiência objetiva não pode ser pensada nem dita como ocorrência presente, pois nela não há ocorrência nem indivíduo que fale ou pense, surgindo a aparente dualidade de sujeito consciente e objeto apenas com a experiência objetiva.

3. Sono e não-dualidade

1. Dormi, ou estive inconsciente, significa na verdade estar presentemente consciente de uma memória relativa à ausência de pensamento, embora não seja a ausência como tal que se recorda, mas as condições que precederam e seguiram a cessação da experiência individual, segundo o ponto de vista do homem comum, que pensa o sono como ocorrência temporal com começo e fim, tornando-o parte da vigília, quando de seu próprio ponto de vista o sono não ocorre, sendo em si atemporal, nem ativo nem passivo, pois duração, atividade e passividade pertencem ao domínio objetivo, inexistente no sono profundo, e no entanto existe um estado positivo correspondente ao que negativamente se chama ausência de pensamento, não estado no sentido comum, pois não começa nem termina, no qual se está imerso na não-dualidade, pronto a parecer tornar-se sujeito consciente quando os objetos parecem ser experimentados, permanecendo a não-dualidade como substrato e realidade da experiência dual, embora o indivíduo não possa dar-se conta dela quando a atenção se volta para fora.

2. Falar da existência da não-dualidade é figurado, pois ela não é presença cognoscível como os objetos, sendo o eu real, o sujeito último, e, como observou um grande sábio indiano, a não-dualidade, embora incognoscível, é de todas as coisas a mais conhecida, porque é sempre experimentada como o eu.

4. O tempo e a eternidade presente

1. Como o espaço, inconcebível sem os objetos que supostamente permeia, o tempo não passa de noção e nunca é experimentado diretamente, pois jamais se experimenta um tempo presente, sendo este apenas o modo de qualificar um grupo seleto de pensamentos que acaba de estar presente à consciência, mas por trás da noção de tempo presente está a apreensão imediata do princípio da consciência, sempre presente como o eu, não em termos de sucessão, mas como eternidade presente, conhecimento imediato que se exprime no uso do pronome eu, isto é, no egoísmo.

5. Conclusão: o ego e a não-dualidade

1. Em última análise, o pronome eu, mesmo quando supostamente designa a consciência individual, designa sempre a não-dualidade, e atualizar essa verdade exige abstrair da noção de consciência tudo o que é pessoal, não inadvertidamente como ao adormecer ou entre dois pensamentos, mas pela lembrança, na vida cotidiana, dos princípios fundamentais do Advaita, até aqui apenas parcialmente expostos.

2. Ninguém deve tentar aplicar esses princípios por conta própria, pois o método difere em cada caso individual, sendo essencial a orientação pessoal de quem tenha realizado plenamente a não-dualidade, que nenhum livro pode substituir, tratando-se aqui apenas de indicar uma possibilidade prática que alguns poucos e felizes membros da espécie humana sempre conheceram e experimentaram.

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