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BODHIDHARMA
LE TCH’AN (ZEN). RACINES ET FLORAISONS. Paris: Les Deux Océans, 1985
- Bodhidharma — monge indiano proveniente do sul da Índia ou mais provavelmente da Ásia Central — chegou à China no início do século VI, portador de uma longa transmissão original que remontaria ao Buda, sendo considerado pelo Chan seu primeiro patriarca na China; sua obra mais célebre expõe com admirável concisão os dois modos principais de acesso à Realidade última — o Tao.
- Estudiosos modernos consideram reais a existência e o ensinamento de Bodhidharma, apesar das lendas que cercam o personagem.
- Os dois acessos operam — o primeiro pela intuição do “Princípio supremo” — li — e o segundo pela prática.
- O primeiro acesso — pelo Princípio supremo — consiste no Despertar à Doutrina segundo as Escrituras, seguido da concepção de uma “fé profunda” no fundamento do Chan: todos os seres possuem a natureza de Buda, mas pensamentos errôneos e “impregnações adventícias” impedem que ela se manifeste.
- Bodhidharma preconiza “olhar o muro” — pi-kouan —: voltar as costas ao mundo e dirigir o olhar para onde nada há a ver do exterior, retornando-o para o interior em direção à natureza profunda; o termo kouan connota o discernimento, uma discriminação intuitiva da ordem do vipasyana — longe de um sentido quietista, pi-kouan simboliza o ato de sapiência.
- O texto enuncia: “Se se rejeita o falso para retornar ao verdadeiro permanecendo concentrado em 'examinar o muro', realiza-se que não há nem si mesmo nem outrem e que os profanos e os santos são iguais. Se se permanece firmemente nisso sem se afastar, não se estará mais nunca sujeito à letra do Ensinamento canônico.”
- Os aspectos essenciais da libertação descritos por Bodhidharma são: a ausência de si mesmo e de outrem, a igualdade universal que engloba samsara e nirvana, a paz e a espontaneidade, a “libertação de toda discriminação conceitual” que prefigura o wou-nien, e o wou-wei — o não-agir, a atividade na vacuidade, impregnada de abnegação e eficiência.
- Nem a palavra Despertar nem a palavra dhyana são pronunciadas — esse ensinamento se dirige apenas àqueles capazes de reconhecê-lo e vivê-lo; para eles, apegar-se à absorção e ao Despertar seria também um erro.
- O segundo acesso — pela prática — é destinado às pessoas que necessitam de apoios mais discerníveis e compreende quatro práticas que englobam todas as outras.
- Primeira prática — “Aceitar o ódio como retribuição” — pao yuan hing: diante do sofrimento, o praticante deve considerar que “ao longo de inúmeros períodos cósmicos passados, afastou-se do essencial para se dedicar ao secundário, errando ao longo de existências sucessivas e provocando assim inúmeros motivos de ódio” — e suportar com boa graça tudo o que lhe é sofrimento, sem o menor ressentimento e sem incriminar ninguém; o sutra enuncia: “Quando o sofrimento sobrevém, não é preciso se inquietar. Por quê? Porque, ao se alcançar um estado de consciência superior, pode-se penetrar completamente sua causa.”
- Segunda prática — “Adaptar-se às condições kârmicas” — souei yuan hing: todos os seres são desprovidos de Si mesmo e se reencarnam em função de seu herança kármica; honras e favores resultam do encadeamento causal dos atos passados e, esgotados os fatores condicionantes, nada resta — “quando se compreende que todo ganho ou perda é determinado pelos fatores kármicos, o pensamento não está mais sujeito a nenhuma variação” e acorda-se em profundidade com a Realidade última.
- Terceira prática — “Não desejar nada” — wou so ts'ieou hing: o sábio desperta ao Princípio Verdadeiro — tchen li —, que o afasta das coisas mundanas; “todas as coisas criadas são vazias e, por isso, nada há de desejável nem de regozijante”; o sutra enuncia: “Onde há desejo, há sofrimento. A ausência de desejo é a alegria.”
- Quarta prática — “Conformar-se ao Dharma” — tch'eng fa hing: o Princípio supremo, puro em essência, é a natureza de Vacuidade — sunyata — de todos os fenômenos, sem máculas nem apegos, sem si mesmo nem outrem; o sutra enuncia: “O Dharma é desprovido de seres animados, pelo fato de estar liberto da mácula dos seres animados. O Dharma é desprovido de Si mesmo, pelo fato de estar liberto da mácula do Si mesmo”; o sábio deve sempre estar pronto a se dar e a fazer dom de sua vida e de seus bens, tendo plenamente realizado a vacuidade dos três fatores da esmola — doador, dom e receptor —, sem dependência nem apego, fazendo amadurecer os seres ao purificá-los de suas máculas.
- As seis Perfeições devem ser praticadas para se libertar dos pensamentos errôneos, mas sem apego à noção de prática meritória.
- Em ambos os acessos, tudo é reconduzido ao essencial — à atitude profunda, à experiência vivida mais despojada —, reconhecendo-se a mensagem de um grande mestre e de um rude asceta que rompe com as escolas entregues às discussões teóricas, à busca de poderes ou ao desdobramento de ritos exteriores, e que retorna às fontes vivas do budismo.
- O acesso pela prática aparece como um caminho gradual e analítico, mas em ambos os casos o único apoio verdadeiro é o próprio fim — a Realidade última, Tao, pelo Princípio supremo, li, que designa o absoluto e se refere à natureza mesma da Realidade ou da Via.
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