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INSCRIÇÃO NO ESPÍRITO

LE TCH’AN (ZEN). RACINES ET FLORAISONS. Paris: Les Deux Océans, 1985

Atribuído a Nieou-t’eou e traduzido para o francês por Catherine Despeux

Este longo poema sobre o tema do espírito se desenrola de forma contínua, mas, para facilitar a leitura, nós o dividimos em estrofes. Ele está preservado no kiuan “Trinta dos Anais da Transmissão da Lâmpada”, onde faz parte de um conjunto de quatro longos poemas que tratam do mesmo assunto.

Esta inscrição sobre o espírito começa com a ideia essencial presente ao longo de todo o texto: a não produção de todas as coisas (anutpâda), tema fundamental do Grande Veículo amplamente desenvolvido no Lankavatarasutra. Uma vez que há não produção, não existe nem sujeito nem objeto. Depois de, logo no primeiro verso, ter suprimido o objeto — que não é qualquer objeto, mas a base do Ch’an, ou seja, o espírito —, o autor elimina, no quarto verso, a visão de um sujeito. Por meio de um método abrupto, ele vai diretamente ao cerne da questão. Dirigindo-se aos seres de inteligência superior, ele os incita a dar diretamente o salto para o Absoluto, deixando surgir espontaneamente a natureza primordial e repousando nesse estado natural e sem esforço. A função iluminadora (tchao) da prajna pode se desdobrar sem obstáculos e abolir a distinção sujeito-objeto. Essa sabedoria emana a luz e a reflete, como um espelho, que não há necessidade de purificar.

Assim, o autor desta inscrição se opõe ao caminho progressivo, criticando o exercício da quietude (tche) no qual se “fixa o espírito para torná-lo imóvel”. Ele varre todos os obstáculos para, no meio do poema, nos colocar na presença da mente original, da budidade e da extinção da contemplação. Essa budidade, inexprimível, não implica uma renúncia às emoções. A posição do autor é que basta simplesmente ver a verdadeira natureza dessas emoções, considerá-las como são, como as imagens de um sonho às quais não nos apegamos. A manifestação e suas miríades de mudanças são indissociáveis da vacuidade e são seu revelador necessário. Os desejos emergem, se desdobram e recuam para dentro do único, enquanto banhamos na alegria e vagamos pelo Real.

A natureza do espírito é desde sempre não nascida,
Ao vê-la e conhecê-la, por que então esgotar-se?
Uma vez que nada existe, desde toda eternidade,
Da ignorância da prática, quem pode então falar?

Ir e vir sem encontrar uma saída
É conduzir uma busca sem jamais ver o objetivo.
De tudo isso ainda é melhor abster-se
Para que a clara luz se ponha a resplandecer.

As experiências passadas não passam de vacuidade,
Mas com o saber começa todo erro.
O espírito ilumina distintamente os objetos;
Arrastado pelo objeto, mergulha no caos.

Que um único fio de inércia toque o espírito unificado
E todas as coisas ficarão para sempre obstruídas.
Tudo vem e desaparece, inteiramente naturalmente;
Por que perder-se assim numa busca vã?

Quando todo nascimento é um não-nascimento,
O nascimento e o objeto são iguais.
Se utilizais a ação do Vazio de espírito,
Obtereis seguramente um espírito purificado.

Em nenhuma circunstância crieis objeto;
Nada existe de mais sutil nem de mais verdadeiro.
O estado de conhecimento é um não-conhecimento
Pelo qual é conhecida a Essência de todas as coisas.

Fixar-se sobre o espírito para torná-lo imóvel
Ainda não está isento de imperfeição,
Pois a natureza fundamental aparece precisamente
Quando nascimento e morte são enfim abolidos.

O princípio absoluto é indefinível;
Nele não há libertação nem encadeamento.
Ele faz eco a tudo, mágico e penetrante,
E aí diante de vossos olhos se encontra constantemente.

Se diante de vossos olhos não existe objeto algum,
Esse Vazio de objeto sendo o repouso inefável,
Não façais então esforço sobre o espelho Sapiente,
Pois a essência é por si mesma vazia e impenetrável.

Um pensamento se eleva e depois se desvanece,
Sem nenhuma distinção entre o depois e o antes,
Pois o pensamento seguinte, sendo sem origem,
O pensamento precedente dissolve-se sobre o campo.

Passado, presente e futuro são sem objeto algum;
Eles não comportam de fato nem espírito nem Buda.
Os seres desde todo tempo permanecem vazios de espírito
E surgem sobre a base dessa ausência de espírito.

Profano e desperto tornam-se diferenciados;
Surgindo, as paixões atingem o ápice,
As estratégias mentais desviam do permanente,
E a busca do Real vos coloca na Via.

A essa dupla incompreensão, se remediais,
Do espírito transparecerá a diafaneidade.
Nenhuma necessidade de habilidade nem de engenhosidade;
Conservai somente o estado do recém-nascido.

Nesse silêncio apaziguado perfura o conhecimento;
Não vos cegueis em todas as noções,
Pois não existe noção nesse imenso silêncio,
Nem mais do que na Escuridão de vossa residência.

Nesse silêncio apaziguado livre de todo erro,
Irradiam a luz e esse imenso silêncio,
Onde todos os fenômenos são constantemente reais,
Pois o único é o aspecto desse mundo de aparências.

Estar sentado ou de pé, ir ou vir,
A todas essas démarches não vos apegueis,
Pois a Via não compreende nenhuma direção,
E não existe ninguém para entrar ou sair.

Nela não há união alguma, nem dispersão alguma,
Menos ainda lentidão ou rapidez.
A clara imensidão é espontaneidade
E permanece além de toda formulação.

O espírito não diferente do espírito ordinário
Não está separado do desejo nem mesmo da luxúria;
A natureza, sendo vazia e espontaneamente livre,
As coisas emergem e mergulham conforme as circunstâncias.

O espírito está liberado do puro e do impuro,
Do mesmo modo que do profundo e do superficial;
O espírito, desde a origem, não depende do passado,
E ainda hoje não pertence ao presente.

Eis agora, vazio de todo apego,
Eis agora o espírito original,
Que, desde o início, sendo inexistente,
Sempre foi aquilo que é agora.

Desde sempre existe essa budeidade;
Por que então ainda deveria conservá-la?

As paixões desde todo tempo jamais existiram;
Por que então empenhar-se em eliminá-las?

Quando a intuição conhece e ilumina a si mesma,
Todas as coisas retornam àquilo que são verdadeiramente,
Sem que exista ida e retorno, nem mesmo percepção,
Nem contemplação nem concentração.

As quatro qualidades são desde todo tempo não nascidas,
E os três Corpos sempre existiram de fato.
Mas, se os sentidos respondem aos seis domínios,
As distinções se elevam e ocultam o Conhecimento.

Que o espírito unificado permaneça sem pensamentos vãos,
Para que toda causa subitamente se encontre harmonizada.
A natureza do Espírito é equanimidade;
Residi nos dois sem vos apegar.

Na não-produção, concedei-vos às coisas,
E depositai em todo lugar um suave repouso apaziguado,
Pois a fonte do despertar é uma falta de despertar,
Mas, uma vez desperto, não existe despertar.

A obtenção e a perda são duas extremidades;
Quem então discorre assim sobre o bem e o mal?
Todas as criações, todos os comportamentos,
São fundamentalmente vazios de criação.

Sabendo que os pensamentos não são esse espírito,
A doença não existe mais, nem necessidade de remédio.
Quando se está extraviado, procura-se desprender-se,
Mas, uma vez desperto, isso não é diferente.

Desde a origem não existe nada a adquirir;
Que deveria então abandonar-se e deixar-se para trás?

E declarar que o ser é um demônio próspero
É dar uma forma àquilo que não a possui.

Não é necessário cortar as paixões ordinárias;
Aprendei somente a dissolver a intenção,
Pois o espírito se desvanece na ausência de intenção
E as práticas se esgotam na ausência de pensamentos.

Inútil atestar qualquer vacuidade
Que está em toda parte difundida e sempre espontânea.
Quando nascimento e morte estão para sempre cortados,
Esse espírito unificado acede ao Absoluto.

Quando os olhos estão abertos, veem-se as aparências;
O espírito diferencia os diferentes objetos.
Se vosso espírito permanece na ausência de objeto,
Os objetos permanecerão na ausência de espírito.

Apoderar-se do espírito para abolir o objeto
Cria uma interferência entre espírito e objeto.
O espírito é extinção, o objeto apaziguamento;
Assim, nenhum abandono, menos ainda obtenção.

O objeto com o espírito extingue-se e desaparece,
E o espírito desaparece assim que o objeto não mais existe.
Quando espírito e objeto enfim não são produzidos,
Nesse apaziguamento, o Vazio resplandece.

A sombra da Bodhi é semelhante a um tênue reflexo
Na pura transparência desse espírito límpido.

A natureza eficiente vos torna semelhante a um idiota
Que já não distingue o amigo do estrangeiro.

Permanecei indiferentes à honra ou à censura;
Não escolhais então o menor ponto de apoio,
Para que toda causa subitamente se dissolva inteiramente
E toda lembrança voe para sempre.

Que a eterna noite seja inteiramente como o dia
E o dia eterno inteiramente como a noite.

Sendo em aparência obtuso e obstinado,
Permanecei no fundo de vosso espírito modesto e reto,
Sempre inabalável pelos objetos dos sentidos,
Semelhante ao grande homem sempre pleno de vigor.

Permanecei sem ponto de vista, nem mesmo o de ser homem;
Essa ausência de noção estando sempre presente,
O espírito penetra então por toda parte e em toda coisa,
E sabei que jamais foi diferente.

Somente as reflexões obscurecem o espírito
E semeiam a confusão nos espíritos vitais.
Deseja-se então deter o movimento do espírito,
O qual às vezes se detém, depois retoma o galope.

Sabei que toda coisa é sem qualquer apego;
É necessário considerar essa única realidade.
Não existe saída, não existe mergulho;
Não existe calma, menos ainda ruído.

Despertos solitários e vós, Ouvintes,
Não saberíeis falar desse Conhecimento,

Pois em realidade não existe objeto algum;
Subsiste somente o sublime Conhecimento.

Ó Vazio jorrando dessa realidade,
Cujos recursos o espírito jamais saberia esgotar.
Quando o despertar está aí, não existe despertar,
E a não-vacuidade é vacuidade real.

Todos os Budas passados, presentes e vindouros
Tomam por veículo esse único ensinamento,
Do qual a menor parte da ponta de um pelo
Abraça inteiramente os inumeráveis mundos.

Nada existe verdadeiramente do qual seja preciso informar-se,
Como não existe lugar algum onde apaziguar o espírito.
Quando não existe lugar algum onde apaziguar o espírito,
O Vazio luminoso põe-se a resplandecer.

Na suave quietude dessa não-produção,
Nas vastas extensões dessa libertação,
Onde todo ato está enfim sem qualquer estagnação,
Ir ou permanecer são iguais.

A sapiência é então um sol apaziguado
Na clara luz da concentração,
Iluminando o jardim do Vazio de aparências
E a cidade divina da grande extinção.

Toda causa é esquecida e desagregada;
A Verdade divina apaga todas as dúvidas.
Sem vos levantardes do assento sobre o qual pregais,
Na sala vazia, doravante, em paz repousais.

Provai dessa Via as delícias e a alegria,
Tudo vagando na Realidade,
Sem jamais nada ter a fazer, nem nada a obter,
E deixando tudo surgir sobre esse fundo de não-ser.

As seis paramitas, as quatro igualdades,
São um mesmo veículo e um mesmo caminho.
Se tendes a ideia de interpretá-las,
Todas as coisas permanecem sempre na indiferença.

Sabendo doravante que nascimento é não-nascimento,
Aqui e agora aparece a permanência,
E o Sábio enfim possui esse último Conhecimento,
Que apreendeu sem expressão verbal.

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