User Tools

Site Tools


budismo:chan-zen:termos

TERMOS

LE TCH’AN (ZEN). RACINES ET FLORAISONS. Paris: Les Deux Océans, 1985

  • Para se aproximar do Chan — seja ou não sinólogo —, é necessário familiarizar-se com alguns termos tão essenciais para a experiência quanto para a doutrina e que a tradução não pode senão trair, sendo sin certamente um desses termos — verdadeira pedra de tropeço das traduções para as línguas ocidentais, sobretudo o francês.
    • Sin designa o coração, ao mesmo tempo como órgão e como sede do pensamento e dos sentimentos — em francês, dizer “coeur” exclui o “pensamento” e vice-versa; a palavra “consciência”, quando se aplica ao conjunto das faculdades psíquicas, tem uma acepção mais ampla e é a mais justa, mas de emprego às vezes difícil.
    • Sin pode ter uma dimensão de infinito — a maioria dos tradutores retém “esprit”, enquanto o tradutor de Hui-neng escolheu “coeur”; nenhuma tradução é satisfatória.
    • Sin é um termo-chave do Chan — esse coração do ser, fundamento de toda a pessoa com suas particularidades, seu condicionamento e seus limites, é contudo o dos Budas, infinito e imaculado, quando a ignorância desapareceu.
  • Nesse ponto articula-se todo o Chan — é preciso obter wou sin, a não-existência dessa consciência de ignorante, do espírito ordinário, do pensamento dualizante, do coração carregado de apegos; obtido o wou sin, o que resta é justamente sin em seu sentido de infinito.
    • A inversão no nível da linguagem responde a uma inversão na experiência vivida, no nível da consciência profunda — a escola indiana do Vijnanavada descreve esse processo como um “reviramento do suporte” que abre para o Despertar.
    • Daí em diante reina o acitta — palavra sânscrita morfologicamente análoga a wou sin —, consciência liberada da consciência ordinária, empírica e dualizante.
    • D.T. Suzuki traduz wou-sin e wou-nien por “No-mind” ou por “the Unconscious” — mas o inconsciente, mesmo com maiúscula, presta-se a todas as confusões.
    • Quando Hui-neng, após evocar a Grande Sapiência que pede a seus discípulos que interiorizem em seu coração, lança a palavra sânscrita “maha” — “grande” — e a aplica ao coração, é esse reviramento, essa metamorfose que espera vê-los obter.
  • Os mestres Chan empregam ainda com mais frequência wou nien — cujo caractere chinês comporta dois grafemas: o de sin e outro que sugere o atual, o presente —, designando o que se passa na consciência no instante mesmo, o pensamento ou a emoção do momento, geralmente ligado ao surgimento dos eventos.
    • Quando o coração e o espírito não são mais perturbados pelo mundo objetivo, wou nien — designado em desespero de causa como “o não-pensamento” — está presente e a libertação é obtida.
    • O não-pensamento não exclui senão o pensamento do ignorante — o pensamento funciona, mas de outro modo: não mais esvoaça nem se agarra, não faz mais mal, não pesa mais, revela-se suavemente no fundo desse coração não-coração e logo se vai.
    • O mesmo vale para a ação — wou wei, o não-agir, é de fato a atividade livre, espontânea e perfeita.
  • Quanto ao termo Tao — que o leitor ocidental tende a interpretar como testemunho de influência taoísta —, confucionistas, taoístas e budistas o empregam todos, revestindo-o de sentidos numerosos e profundos que nenhum equivalente francês — seja “a Via”, “o Absoluto” ou “a Realidade última” — consegue abarcar.
    • Demiéville observa que “a China só tomou da Índia o que lhe convinha, o que sentia poder assimilar utilmente” e prossegue: “o absoluto escapa a toda causalidade como a toda lógica, e portanto a toda expressão discursiva — pertence ao silêncio e não é acessível senão à única experiência mística. Ora, esse gênero de absoluto concebido como uma realidade indefinível, inexprimível, subtraída às modalidades relativas e às oposições lógicas do pensamento profano, era também o que a filosofia taoísta, bem antes da chegada do Budismo à China, havia aprendido a reverenciar sob o nome de Tao. O que a China reteve da mensagem budista foi portanto essencialmente a doutrina do Grande Veículo, essa dialética do absoluto que despertava harmônicos no pensamento chinês.”
    • A inefabilidade do Tao — proclamada desde as primeiras linhas do Tao-tô king — pode ser aproximada da recusa de nomear que os budistas manifestam ao dizer apenas “Assim-dade” — tathata —, fórmula igualmente traída pelas traduções.
    • Conclui-se por uma afinidade, não por uma influência — sem pretender encerrar o dossiê.
budismo/chan-zen/termos.txt · Last modified: by 127.0.0.1