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PRAJNA (SAPIÊNCIA)

LE TCH’AN (ZEN). RACINES ET FLORAISONS. Paris: Les Deux Océans, 1985

O Mestre dirigiu-se à assembleia nestes termos: “Que cada um de vós purifique seu coração e com atenção repita: Mahaprajnaparamita [grande perfeição da Sapiência].” Depois prosseguiu:

“Amigos esclarecidos, essa Sapiência do Despertar, os mundanos a possuem no fundo de si mesmos, mas seu coração extraviado não pode realizá-la. É necessário que recorram a grandes amigos de bem que lhes revelem a visão de sua natureza e os conduzam até ela. Deveis saber que a natureza de Buda dos ignorantes e a dos despertos é fundamentalmente a mesma. A única diferença é que uns estão extraviados, enquanto os outros estão despertos.

Hoje vou expor o dharma da Mahaprajnaparamita a fim de que todos vós possais alcançar a sapiência. Que vosso coração se volte para um exame atento daquilo que ides ouvir.

Digo-vos, amigos esclarecidos: os mundanos repetem a palavra prajna com a boca até o anoitecer, mas nem por isso conhecem a sapiência de sua natureza própria. Falar de comer não nutre, e limitar-se a falar do vazio, ainda que durante séculos, não conduz à visão da natureza fundamental. Em definitivo, isso não trará nada.

Amigos esclarecidos, Mahaprajnaparamita é uma palavra sânscrita que significa: ‘grande sapiência que permite alcançar a outra margem’. Isso deve ser realizado no coração e não simplesmente repetido com a boca. A repetição verbal sem prática no coração é como um passe de magia, uma fantasmagoria, o orvalho ou o relâmpago. Mas se à palavra se junta a prática do coração, então coração e boca estão ambos em uníssono.

A natureza fundamental é o Buda e, fora dessa natureza, não existe outro Buda.

Que significa maha? Maha quer dizer ‘grande’. Grande e vasta, semelhante ao vazio do espaço, é a capacidade do coração. Ele não possui bordas nem lados; não é quadrado nem redondo, nem grande nem pequeno, nem azul nem amarelo nem vermelho nem branco, tampouco alto nem baixo, nem longo nem curto, sem cólera nem alegria, nem bom nem mau, sem amizade nem ódio, sem começo nem fim.

Todos os campos de Buda são absolutamente idênticos ao vazio.

A natureza maravilhosa dos mundanos é fundamentalmente vazia e não contém nenhum dharma que possa ser obtido. O mesmo ocorre com a natureza própria, que é verdadeiramente vacuidade.

Amigos esclarecidos, quando me ouvis falar do vazio, não vos agarreis ao vazio. O mais importante é não vos apegardes ao vazio. Se permaneceis sentados imóveis com o coração vazio, agarrais o vazio sem distinção.

Amigos esclarecidos, o vazio do universo pode conter as dez mil variedades de formas e aparências, o sol, a lua, as estrelas, as constelações, as montanhas e os rios, a terra inteira, as fontes e as nascentes, as torrentes e as corredeiras, as ervas, as árvores, os bosques e as florestas, os bons e os maus, os dharma bons e maus, os céus e os infernos, todos os oceanos, todos os montes Sumeru: tudo isso está no interior do vazio.

A vacuidade da natureza dos mundanos é idêntica.

Amigos esclarecidos, a natureza própria pode conter todas as coisas; tal é sua grandeza. Como todas as coisas estão contidas na natureza própria, percebam-se o bem e o mal em todos os seres sem repulsa nem apego, sem contaminação, e o coração, semelhante ao espaço, é dito ‘grande’; é por isso que o chamam maha.

Amigos esclarecidos, os ignorantes possuem a palavra na boca, mas os sábios praticam com o coração. Há também ignorantes que, sentados em meditação com o coração vazio, nada pensam e se pretendem ‘grandes’. É inútil discutir com essa espécie por causa de suas visões heréticas.

Amigos esclarecidos, o coração possui uma capacidade grande e vasta e penetra completamente o Domínio absoluto. Quando se recorre a ele, tudo é imediatamente claro e nítido no menor detalhe; tal é sua ação. Ele conhece tudo. Tudo é imediatamente um. Um é imediatamente tudo. Ele vai e vem espontaneamente. Sua essência está livre de toda obstrução. A prajna é isso.

Amigos esclarecidos, toda a sabedoria da prajna provém e nasce inteiramente de nossa natureza própria, e não do exterior. Não vos enganeis quanto a isso. Chama-se isso o próprio ato da verdadeira natureza. Uma verdade é toda a verdade. A capacidade do coração concerne à grande questão e não a práticas menores. Não faleis do vazio até o pôr do sol se o coração não se entrega igualmente a ele. Isso seria comportar-se como plebeus que se qualificam reis e jamais o serão. Tais pessoas não são meus discípulos.

Amigos esclarecidos, que se chama prajna? Prajna quer dizer ‘sapiência’ em nossa língua. Que em todo lugar e a todo instante, pensamento após pensamento, não haja nenhuma tolice no espírito e se pratique constantemente a sapiência: isso é a sapiência em ato. Um pensamento tolo e imediatamente ocorre o corte da prajna. Um pensamento sábio e imediatamente nasce a prajna. Os mundanos, extraviados por sua tolice, não veem a prajna. Sua boca fala dela, mas no meio de seu coração existe uma constante tolice. Dizem sem cessar que praticam a prajna; pensamento após pensamento falam do vazio, mas não conhecem o vazio verdadeiro. A prajna não possui forma nem sinal distintivo; o coração sábio é imediatamente ela. Tal é a explicação dessa expressão: a sabedoria de prajna.

Que significa ‘paramita’? É uma palavra do País do Oeste significando ‘alcançar a outra margem’. Desde que se compreenda seu sentido, fica-se afastado do nascimento e da morte. Quando se permanece apegado aos objetos, nascimento e morte se elevam assim como vagas e ondas se elevam na água: isso é o que se chama ‘esta margem’. Quando se está desprendido dos objetos, não há mais nascimento nem morte; a água escoa uniformemente: isso é chamado ‘a outra margem’. Daí esse termo paramita.

Amigos esclarecidos, os ignorantes possuem a palavra na boca e, durante todo o tempo de sua recitação, permanecem no erro e nos pensamentos extraviados. Se, ao contrário, se pratica a Mahaprajnaparamita pensamento após pensamento, isso se chama a natureza verdadeira. Despertar para esse dharma é penetrar no dharma da Sapiência. Entregar-se a essa prática é pôr em prática a sapiência. Aquele que não pratica é o homem comum. Se se pratica assim durante o tempo de um único pensamento, em seu próprio corpo torna-se igual ao Buda.

Amigos esclarecidos, o homem comum é Buda; as paixões são bodhi. Aquele pensamento anterior era ignorância? Eis o homem comum. O pensamento seguinte é Despertar? Eis o Buda. O pensamento anterior encontrava-se apegado aos objetos? Eis as paixões. O pensamento seguinte está desprendido deles? Eis bodhi.

Amigos esclarecidos, a Mahaprajnaparamita é aquilo que existe de mais místico, de mais elevado; ela é eminente. Ela não permanece, não vai, não vem. Todos os Budas do passado, do presente e do futuro provêm dela. É necessário utilizar essa grande sapiência para destruir as paixões causadas pelos cinco agregados. Tal prática conduz seguramente ao cumprimento da Via do Buda.

Assim os três venenos são transmutados em disciplina, em dhyana e em prajna.

Amigos esclarecidos, segundo minha Porta do Dharma, a prajna única engendra oitenta e quatro mil sabedorias. Por quê? Porque os mundanos possuem oitenta e quatro mil paixões. Na ausência dessas paixões, a prajna se manifesta e não se está afastado da natureza própria.

O despertar para essa doutrina é a realização imediata da não-pensamento. O sem-recordação, o sem-apego, o não-surgimento de engano e dissimulação, a ação da natureza própria em sua ainseidade para contemplar os dharma à luz da sapiência, a não-apropriação e o não-rejeição destes: tudo isso é a visão da natureza própria e o cumprimento da Via do Buda.

[Houei-neng aconselha em seguida a leitura do Sutra do Diamante, do qual sua própria doutrina não se afasta. Essa Porta do Dharma pertence ao Veículo supremo e dirige-se às pessoas de ‘raiz superior’; as outras permanecem atrás de suas visões errôneas e de suas paixões, assim como o sol permanece atrás das nuvens.

O Patriarca fala em seguida das Escrituras — cujo objetivo é apenas responder às diversas necessidades dos homens —, de seu próprio despertar instantâneo, da possibilidade de despertar sozinho e, se isso não for possível, da necessidade de recorrer a alguém grandemente esclarecido.

Ele vai agora expor o acabamento da prática da Grande perfeição da Sapiência.]

Amigos esclarecidos, o olhar da sapiência penetra e ilumina o interior e o exterior, assegura o conhecimento completo do coração fundamental. Conhecer o coração fundamental é a libertação fundamental. Obter a libertação é alcançar o samadhi-de-sapiência, que é não-pensamento. Que se chama não-pensamento? É ver a totalidade dos dharma permanecendo o coração sem contaminação nem apego. O não-pensamento em ação estende-se por toda parte sem se apegar a nenhuma morada. Se se purifica o coração para que as seis consciências saiam pelas seis portas dos sentidos sem haver mácula nem contaminação pelas seis percepções, de modo que se possa ir e vir sem obstrução, isso é a libertação pelo samadhi-de-sapiência. É isso que se chama a prática do não-pensamento.

Nada pensar, interromper sempre o pensamento do momento, é encadear-se aos dharma e constitui uma visão extrema.

Amigos esclarecidos, o despertar para o Dharma do não-pensamento faz penetrar os dez mil dharma. O despertar para o Dharma do não-pensamento vê todos os campos de Buda; o despertar para o Dharma do não-pensamento alcança o estágio último de Buda.”

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