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INTER-SER

OUTRA MARGEM

  • Se há uma nuvem flutuando nesta folha de papel, é porque sem nuvem não há chuva, sem chuva as árvores não crescem e sem árvores não se faz papel — a nuvem é essencial para que o papel exista, e por isso se pode dizer que a nuvem e o papel inter-são.
    • “Interser” é uma palavra que ainda não existe nos dicionários, mas que surge da combinação do prefixo “inter-” com o verbo “ser”, formando um novo verbo.
  • A palavra interser nasceu durante um retiro conduzido por Thich Nhat Hanh no Tassajara Zen Center, nas montanhas da Califórnia, nos anos 1980, quando ele ensinava sobre a vacuidade sem ter uma folha de papel à mão e usou uma cadeira de madeira vazia para ilustrar o ponto.
    • Thich Nhat Hanh convidou todos a olhar atentamente para a cadeira e ver nela a presença da floresta, da luz do sol, da chuva e das nuvens, explicando que a cadeira não estava sujeita ao nascimento e à morte nem poderia ser descrita em termos de ser ou não-ser.
    • Ao perguntar se existia uma palavra em francês ou inglês que descrevesse como a cadeira existia junto com todos os outros elementos não-cadeira, e depois de alguém sugerir que “união” soava estranho, propôs a palavra “interser”.
  • A percepção do interser pode ajudar a compreender o Sutra do Coração da Prajnaparamita mais facilmente e os ensinamentos sobre a vacuidade com mais clareza, levando além das noções dualistas de ser e não-ser e ajudando a não temer o não-ser.
    • Quando as pessoas ouvem a palavra “vacuidade”, frequentemente entram em pânico por tenderam a equipará-la com o nada, o não-ser e a inexistência.
    • A filosofia ocidental está preocupada com questões de ser e não-ser, mas o budismo vai além dessas noções dualistas — como Thich Nhat Hanh afirma: “Ser ou não ser — essa não é mais a questão. A questão é a do interser.”
  • Continuando a olhar para a folha de papel, vê-se nela a luz do sol, sem a qual a floresta não pode crescer — nem nós mesmos — e também o lenhador que cortou a árvore e a levou ao moinho para ser transformada em papel, bem como o trigo que se tornou o pão diário do lenhador.
    • O pai e a mãe do lenhador também estão no papel; sem todos esses outros elementos, não haveria folha de papel alguma.
  • Ao olhar ainda mais profundamente, percebe-se que nós mesmos também estamos no papel, pois ao olharmos para ele ele se torna o objeto de nossa percepção — torna-se cada vez mais claro para os neurocientistas que não se pode falar de um mundo objetivo fora de nossas percepções, nem de um mundo puramente subjetivo em que as coisas existem apenas na mente.
    • Tudo — tempo, espaço, terra, chuva, minerais do solo, luz do sol, nuvem, rio, calor e até a consciência — está nessa folha de papel; tudo coexiste com ela.
    • Ser é inter-ser: não se pode simplesmente ser por si mesmo, isoladamente — é preciso inter-ser com todas as outras coisas; esta folha de papel é, porque tudo o mais é.
  • Se se tentasse devolver um dos elementos à sua fonte — a luz do sol ao sol, ou o lenhador à sua mãe — a folha de papel deixaria de ser possível, pois ela é feita inteiramente de “elementos não-papel”, e devolver qualquer um desses elementos à sua origem faria com que não houvesse papel algum.
    • Por mais fina que seja, esta folha de papel contém tudo no universo — o um contém o todo.
    • No entanto, o Sutra do Coração parece dizer o oposto: nele, Avalokitesvara nos diz que as coisas são vazias — e é preciso olhar mais de perto para entender por quê.
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