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TUCCI
GIUSEPPE TUCCI
Giuseppe Tucci. Storia della filosofia indiana.
- O acontecimento maior ao qual se assiste hoje é, sem dúvida, a entrada da Ásia na história como fator de primeiro plano, depois de séculos em que apenas a sofria passivamente.
- A inquietação do Renascimento estimulou os europeus à conquista de novas terras e à exploração de mares desconhecidos.
- O aperfeiçoamento dos meios técnicos e o desenvolvimento da pesquisa científica permitiram ao Ocidente impor seu domínio sobre o Oriente.
- Fundaram-se vastos impérios coloniais, espalharam-se entrepostos prósperos e explorou-se as riquezas e recursos asiáticos.
- Nasceu a ilusão de que a Ásia seria uma terra de ninguém, destinada à tutela permanente do Ocidente — ilusão alimentada pela inexperiência política, pela resignação ou pelo assombro religioso de muitos de seus povos.
- Esquecia-se a solidez política e a força expansiva das dinastias chinesas, dos Maurya, dos Gupta e dos Mongóis na Índia, bem como a vigorosa robustez do Islã e o milenar peso da Ásia sobre a Europa.
- Desde a pré-história, a Ásia despejou sobre o Ocidente migrações frequentes — umas para povoar, outras para devastar — demonstrando a permanente pressão asiática sobre o mundo ocidental.
- Os citas, as invasões bárbaras que inundaram as províncias do Império Romano e a diáspora do Islamismo figuram entre os fluxos migratórios que partiram da Ásia.
- A vitória dos generais chineses e a construção da Grande Muralha fecharam o caminho do Reino do Meio, desviando as vagas migratórias para o Ocidente.
- As correntes de Mongóis representam outro capítulo dessas irrupções asiáticas sobre o mundo europeu.
- Houve um momento em que a Pax Romana esteve prestes a se unir à Pax Sínica, que se estendia por grande parte da Ásia Central — a Pártia, porém, interpôs-se entre os dois impérios, suspeitosa e guerreira.
- Pelos caminhos meridionais cumpria-se o movimento inverso, com a Europa gravitando em direção às ricas terras do Irã e da Índia desde Alexandre Magno, sem que isso resultasse em conquistas políticas duradouras.
- Os pequenos Estados greco-bactrianos, surgidos do esfacelamento do Império dos Selêucidas, foram logo sufocados pelo irromper de outros povos.
- Os intercâmbios comerciais cresceram e, por consequência, multiplicaram-se os inevitáveis contatos e trocas de ideias entre os dois mundos.
- Esses fatos revelam tanto a unidade e a solidariedade histórica do continente euro-asiático quanto a importância da Ásia para os destinos e a configuração da cultura ocidental.
- A Ásia ressurgida confronta o Ocidente, decidida a defender sua autonomia a qualquer custo, mas disposta a colaborar em entendimento amistoso e leal — desde que o Ocidente renuncie a seus privilégios, ambições e ingerências.
- Diante desse quadro, o conhecimento da história, do pensamento e das tradições espirituais do Oriente impõe-se como complemento necessário da cultura ocidental.
- Pesam ainda sobre a Ásia a névoa da lenda, a imprecisão e certa romantização fantasiosa que obscurecem e perturbam sua justa compreensão.
- Há os que denigrem e os que exaltam; os que condenam sumariamente a experiência oriental e os que nela veem a própria salvação.
- Há os que opõem Ocidente e Oriente em antítese irreconciliável e os que anseiam por uma síntese — ou mesmo uma fusão — das duas culturas.
- No Oriente encontra-se a mesma criatura humana — ambígua entre o céu e a terra, ansiosa de serenidades celestes e entorpecida pelo peso da carne e das paixões, agitada pelos mesmos dúvidas e problemas.
- Nenhum bem adviria a qualquer das partes se cada uma renunciasse à própria experiência para acolher a do outro, cortando seus laços com o solo espiritual que a nutriu.
- Tal desenraizamento produziu, na intelligentsia oriental fascinada pela cultura ocidental, um estado de suspensão entre a terra e o céu — um desprezo pela própria tradição.
- Os orientais estudam o pensamento do Ocidente muito mais do que os ocidentais se ocupam do deles — e não existe universidade na Ásia em que não se ensine filosofia europeia.
- O Ocidente começa a apreciar a arte da Ásia e a compreender alguns de seus poetas, mas permanece em geral ignorante de seu pensamento antigo e moderno.
- O pensamento asiático não recebe sequer menção nas histórias mais autorizadas da filosofia, como se o pensar fosse privilégio exclusivo do Ocidente e o Oriente nada mais produzisse que balbúcios ou improvisações.
- Muitos anos antes havia sido publicada uma história da filosofia chinesa — obra esgotada que talvez convenha retomar e completar — e agora se tenta a empreitada mais difícil de uma breve síntese do pensamento indiano, mais próximo do ocidental e, de certo modo, mais variado e preciso.
- Entre as duas tradições filosóficas — a indiana e a chinesa — há muito mais do que uma genérica identidade de temas, pois o pensamento indiano possui interesse especial para o estudioso da Ásia pelo papel do Budismo.
- O Budismo transpôs rapidamente as fronteiras da Índia e difundiu-se por quase todo o continente — do Irã ao arquipélago malaio — espalhando orientações e modos de pensar que conquistaram todo o Oriente.
- Assim como a cultura europeia não se compreende sem a dupla contribuição da experiência clássica e da cristã, nenhum povo do Oriente Médio e Extremo — à exceção do Islã — deixou de sofrer a influência do pensamento indiano e budista.
- O problema de saber se o pensamento indiano e o ocidental alguma vez comunicaram entre si é muito complexo e não comporta ainda resposta precisa.
- É lícito afirmar que na Antiguidade existiram condições históricas que parecem ter permitido uma troca de ideias entre os pensadores do mundo mediterrâneo e os da Índia.
- Ecos da teosofia indiana chegaram certamente à Grécia e a Roma, e estão amplamente documentados; já as notícias no campo indiano são mais imprecisas.
- Sabe-se que a astrologia derivou em grande parte da astrologia helenística; e os influxos do Irã sobre a Índia, bem como a influência da cultura grega sobre o próprio Irã, tornam-se a cada dia mais notáveis.
- Os filósofos eram as pessoas mais inquietas e curiosas da Antiguidade — propensos a empreender peregrinações intermináveis e perigosas por puro amor ao saber, atuando como mediadores entre as diferentes culturas.
- A lentidão das travessias, os acampamentos noturnos e um valor do tempo muito distinto do atual representavam condições favoráveis ao viajar das ideias.
- Os contatos entre o mundo persa e o grego foram notáveis mesmo antes de Alexandre Magno, e o Império iraniano — estendido entre o Mediterrâneo e a Índia — mais do que separar, oferecia ocasião de unir as duas culturas.
- Muitos gregos, sobretudo da Ásia Menor e da Jônia submetidas aos persas, passaram ao serviço dos aquemênidas.
- Por volta de 519 a.C., o rei Dario incumbiu Cílax de Carianda, na Cária, de explorar o curso inferior do Indo.
- Hecateu de Mileto escreveu sobre a Índia já em 500 a.C.
- A conquista persa do noroeste indiano, que durou até 331 a.C. — quando Alexandre sucedeu aos aquemênidas —, tornou necessária a colaboração entre funcionários iranianos e indianos.
- Demócedes de Crotona, médico na corte de Dario, retornou à pátria após uma cura bem-sucedida.
- Apolônides de Cós exerceu a medicina na corte de Artaxerxes e morreu na Pérsia.
- Ctésias de Cnido, médico de Artaxerxes II, foi autor crédulo de uma obra sobre a Pérsia — famosa na Antiguidade.
- O músico Aristodemo de Tarento, do século III a.C., afirmava, segundo Eusébio, que na escola de Sócrates havia também um indiano, o qual objetava ao mestre — empenhado em conhecer o homem — que não é possível compreender o homem sem antes ter notícia de Deus.
- Após as conquistas de Alexandre, os vínculos entre a Hélade e a Índia estreitaram-se naturalmente: o macedônio levou consigo Onésicrito, discípulo de Diógenes, além de Anaxarco e Pirro — este retirado à vida eremítica.
- Da Índia voltou com Alexandre um asceta chamado Calano, que, chegado à Pérsia, lançou-se sobre uma pira ardente diante de uma multidão reunida para assistir ao seu sacrifício voluntário.
- A partir dos livros sobre a Índia escritos por Megástenes — enviado de Seleuco Nicátor à corte de Chandragupta Maurya —, as informações do mundo clássico sobre a Índia foram crescendo progressivamente.
- Floresceu uma vasta literatura sobre as expedições de Alexandre e sobre os Estados indo-gregos no Afeganistão e no noroeste indiano, que serviu de fundamento às obras históricas de Justino e de Trogo.
- Escreveram-se itinerários e descrições geográficas que seriam utilizados por Estrabão, Ptolomeu e Plínio.
- Com o Império Romano, tornando-se ainda mais regulares as trocas por terra e por mar com o Oriente, cresceu a importância dos centros comerciais — de Alexandria a Antioquia — e intensificaram-se os contatos espirituais entre os dois mundos.
- Roma estabeleceu entrepostos na Índia, como os descobertos recentemente nas proximidades de Pondicherry.
- Tornaram-se frequentes as embaixadas entre os príncipes do Oriente e a corte de Roma.
- Um asceta chamado Zarmanochegas — possivelmente samana khema, se o g dos copistas gregos for erro por m — seguindo o exemplo de Calano, fez-se queimar vivo em Atenas.
- Apolônio de Tiana realizou uma viagem à Índia, encontrando sacerdotes e filósofos dos quais colheu notícias sobre o pensamento e as religiões indianas; sua biografia, escrita por Filóstrato, transborda de fantasias e lendas, mas preserva no meio das fábulas muitas informações fidedignas.
- Plotino, no século III, acompanhou Gordiano III na expedição contra os persas movido pelo desejo de aprender diretamente dos mestres orientais as doutrinas religiosas e filosóficas da Índia e do Irã.
- Plotino já havia se inspirado nessas doutrinas por meio das informações colhidas de uma embaixada indiana junto a Antonino Pio.
- Bardessanes — uma das figuras mais interessantes do gnosticismo — serviu de intermediário nessa transmissão de ideias.
- Não surpreende, portanto, que na literatura cristã apareçam notícias cada vez mais precisas sobre o Buda e as lendas que em torno dele se formaram.
- Após percorrer brevemente alguns dos testemunhos mais bem estabelecidos sobre os seculares intercâmbios entre o mundo ocidental e o oriental no período antigo, impõe-se uma conclusão de alcance fundamental.
- Outros testemunhos poderiam ser indicados — como os prováveis influxos da medicina indiana sobre o Timeu e sobre o tratado hipocrático Doenças das mulheres, estudado por Filliozat, ou as analogias entre Platão e Plotino e as doutrinas orientais, apontadas por Bidez e Bréhier.
- Nenhum dos dois pensamentos filosóficos influiu de modo determinante sobre o outro no sentido de criar novas orientações e novos desenvolvimentos.
- Os influxos existentes, como indicam os exemplos citados, pertencem ao episódico e ao particular.
- Cada tradição filosófica desenvolve-se, no conjunto, de modo independente da outra, ligada pelo próprio passado às correntes espirituais e às situações históricas que a geraram ou nutriram.
- No máximo, o conhecimento do outro pensamento estimulou a pesquisa, alargou interesses ou serviu de justificação para o acentuar-se de certas tendências — como ocorreu no período alexandrino, quando a teosofia indiana foi invocada para avalizar as simpatias gnósticas que então comoviam o mundo ocidental.
- No campo das doutrinas científicas, os empréstimos foram mais fáceis — as ciências estando menos ligadas à tradição filosófica e religiosa; que teorias orientais influíram sobre a medicina grega, e que doutrinas astrológicas helenísticas influíram sobre a indiana, está comprovado.
- As duas grandes correntes de pensamento — a europeia e a indiana — são como duas estradas paralelas: germinadas e nutridas pelo mesmo mistério que o ser humano descobre ao seu redor, frequentemente se encontram porque idênticos são os problemas que se apresentam à mente sob qualquer céu.
- O observador atento perceberá, porém, que muitas vezes a semelhança é enganosa e que, na prática, o problema é resolvido pelo Ocidente e pela Índia de maneira distinta.
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