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TAO, TCH'AN E ZEN

MWFZ

«Fui destinado a mergulhar na origem de todas as coisas.» Lao-tse.
  • Grande parte da terminologia hermética do budismo Zen é oriunda do vocabulário taoísta.
    • Identificação do Zen na China pelo nome de Tch’an.
    • Natureza do Zen como uma forma chinesa de budismo em sua origem.
  • O Tch’an caracteriza—se como uma transformação do budismo mahayana e simultaneamente uma extensão do taoísmo.
    • Integração das tradições e mensagens de Buda e Lao—tse.
    • Necessidade de resgate de textos fundamentais como o Tao—te—King e os grandes sutras mahayana.
    • Referência ao Prana—paramita sutra, Lankavatara sutra e Gandaiyuha sutra.
  • O terceiro volume de Ensaios sobre o budismo zen de Suzuki apresenta passagens dos sutras Prana—paramita e Gandavyuha.
    • Questionamento do peregrino Sudhana sobre a morada do Bodhisatva.
    • Definição do Bodhisatva como o homem que busca a iluminação e deseja transmitir a experiência aos demais.
  • A resposta presente nos sutras evoca a Torre Vairochana como a morada de Maitreya e de todos os iluminados.
    • Inclusão de todos os Bodhisatvas do passado, presente e futuro na referida morada.
    • A Torre é a morada onde habitam em meio a delícias aqueles que compreendem a significação do Vazio, do Sem Forma, da Não Vontade; compreendem que todas as coisas se acham além da discriminação, que o Dharmadhatu está desprovido de separatividade, que existe um mundo de seres que não se acham ao nosso alcance, que todas as coisas são não nascidas.
  • A definição de realidades sublimes por meio de conceitos negativos constitui um traço predominante tanto no pensamento de Lao—tse quanto no realismo do Tch’an.
    • Necessidade de evocação da figura histórica e lendária do Velho Filósofo.
  • A biografia de Lao—tse é composta por elementos legendários e registros do Che—Ki, datados do século I antes de Cristo.
    • Identificação do sábio como Li Eul, com nascimento estimado em 570 a.C. e morte em 479 a.C.
    • Contemporaneidade e encontro lendário com Confúcio.
    • Relato de Confúcio que descreve Lao—tse como um dragão ao comparar a sabedoria convencional com a sabedoria paradoxal mística.
  • A tradição atribuiu a Lao—tse o nome Yuen Hoang Ti quase mil anos após sua morte.
    • Significado do título como mestre soberano da escuridão.
    • Significado do nome Lao—tse como velho mestre ou mestre venerável.
  • Os dados biográficos indicam que o sábio exerceu a função de arquivista na corte dos Tcheu antes de seu desaparecimento.
    • Encontro com Confúcio e partida final após ditar sua obra.
  • O surgimento do Tao—te—King vincula—se à viagem de Lao—tse para o Oeste e ao encontro com o guardião Kuan Yin.
    • Exigência do guardião da Grande Muralha para que o mestre registrasse o essencial de seus ensinamentos.
    • Desaparecimento definitivo de Lao—tse após a entrega do texto.
  • O Tao—te—King é composto por oitenta e um capítulos breves divididos entre o Livro do Caminho e o Livro da Virtude.
    • Termo King como equivalente chinês de sutra ou livro sagrado.
    • Significado de Tao como o caminho ou a via.
    • Significado de Te como a virtude ou excelência moral.
  • As traduções da obra variam entre o literal e o espiritual devido à dificuldade de encontrar equivalentes para os ideogramas em línguas europeias.
    • Menção às reflexões de Borges sobre as traduções de Homero e a eficácia da tradução não literal.
    • Referência à edição da coleção Taoísmo dirigida por Jean Herbert.
  • O Velho Filósofo apresenta um autorretrato célebre em sua obra que contrasta sua natureza com a agitação da multidão.
    • Todos os homens estão cheios de ardor, exaltados como para um banquete, semelhantes aos que realizam uma ascensão na primavera. Eu apenas estou sossegado, sem reações, como o recém—nascido que ainda não sorri, errante, sem desígnio, sem objetivo.
    • Os demais homens possuem coisas supérfluas; apenas eu sou um deserdado; meu coração é o de um pobre de espírito, problemático, confuso. O homem saído da multidão está iluminado; eu vivo acorrentado na penumbra. O homem saído da multidão é preciso, perspicaz; apenas eu estou recolhido sobre mim mesmo, em movimento como o mar, flutuando sem descanso. A maioria dos homens é útil; apenas eu sou um inepto, semelhante a um pária.
    • Distingo—me dos demais homens porque venero a Mãe Nutriz (o Tao).
  • A sabedoria não é identificada com o êxito ou a força, mas sim com a obscuridade e a aparente debilidade.
    • Ineficácia da investigação convencional na compreensão da figura do Sábio.
    • Caracterização da perfeição como ineptidão e exílio em oposição à rigidez.
  • A representação tradicional de Lao—tse exibe um ancião de grandes orelhas como símbolo de sabedoria em atitude de desprendimento.
    • A velhice como condição que permite a separação das atitudes convencionais e exemplares.
  • Os mestres do Tch’an adotam posturas semelhantes ao rejeitar a intelectualidade e a busca pela coerência lógica.
    • Desconfiança em relação à estabilidade que a sociedade atribui ao Sábio.
  • O divino e a virtude são considerados realidades que transcendem as possibilidades do discurso e do raciocínio.
    • Uma via que pode ser traçada não é a Via eterna, o Tao. Um nome que pode ser pronunciado não é o Nome eterno.
  • O conceito de Tao é integrado ao reino das coisas inconcebíveis descritas nos sutras mahayana.
    • Reconhecimento da natureza inefável da realidade absoluta.
  • A filosofia do Tao fundamenta—se em princípios negativos como o vazio e a ausência de desejo e ação.
    • Exaltação do não lutar, do não saber e do não agir.
  • O Tao designa a origem impensável de todas as coisas sem estar separado dos entes que suscita.
    • É um ser indeterminado em sua Perfeição, que existia antes do céu e da terra, impassível, imaterial. Subsiste único, imutável, onipresente, imperecível. Pode—se considerá—lo como a Mãe do Universo. Ao desconhecer seu nome, designo—o com a palavra Tao. Esforçando—se por qualificá—lo, pode—se dizer que é grande, que sendo grande foge, que ao fugir se afasta e que ao se afastar, retorna.
  • A essência do Tao reside no Wu—Wei ou princípio do não agir entendido como a perfeição da ação espontânea.
    • Inexistência de separação entre o agente e a ação no ato absoluto.
    • Produção do universo de maneira inconsciente e sem esforço deliberado.
  • O Sábio aspira a uma forma de inconsciência que representa a consciência suprema e imediata do real.
    • Distinção entre a percepção direta e a consciência mediada pela separação subjetiva.
  • A recuperação da frescura da infância é uma virtude fundamental que permite a percepção sem a interferência da vontade.
    • O Sábio como a própria atenção pura em vez de um indivíduo que presta atenção.
  • Os Sábios da antiguidade são descritos por meio de metáforas que ressaltam sua natureza misteriosa e profunda.
    • Os Sábios perfeitos da Antiguidade eram inalcançáveis, sobrenaturais, misteriosos, penetrantes, e tão profundos, que não se chegava a conhecê—los. Como não se podia conhecê—los, era preciso contentar—se em descrevê—los.
    • Eram precavidos como quem atravessa um rio no inverno; prudentes como quem teme seus vizinhos; reservados como quem recebe hospedagem; eclipsados como o gelo fundido; simples como a madeira sem polir; vazios como um vale; agitados como a água lamacenta.
  • O Tao reconcilia os opostos e nega a validade dos esquemas dualistas do pensamento.
    • Para o Tao, o luminoso é como o obscuro; avançar é como retroceder; o estranho é igual ao familiar. Para a suprema Virtude, a elevação é similar ao abatimento, o candor é igual à vergonha, a generosidade é como a parcimônia, a virtude provada se parece com a perversidade, a honradez com a improbidade e a veracidade simples com a duplicidade de intenções.
    • Como um grande quadrado sem ângulos, um grande vaso inacabado, uma brilhante melodia silenciosa ou uma enorme imagem sem contornos, o Tao está oculto e carece de nome, apesar do que sua Virtude sustenta e proporciona sua culminação a tudo.
  • O mestre do Tch’an e do Zen atua segundo sua própria natureza sem se conformar a imagens ideais pré—estabelecidas.
    • Afirmação de que o Dharma—dhatu carece de separatividade.
  • A atitude mahayana coincide com o taoísmo na desconfiança da inteligência conceitual e na exaltação do Dharma.
    • Ali está a morada daqueles que pregam o Dharma, que só se encontra raramente; daqueles que desfrutam do Dharma, que resulta difícil de compreender, profundo, não dualista, sem forma, sem oposição a nada, além do que se pode obter; daqueles que vivem na bem—aventurança enquanto sua compaixão abrange todos os seres; daqueles que não se refugiaram no reino de todos os Shravakas e dos Pratyekas—budas, onde se reúnem todas as virtudes Paramita, onde todos os Budas gozam de seus confortáveis aposentos.
  • A Torre Vairochana simboliza o lugar místico e real onde ocorre a reconciliação absoluta dos opostos.
    • Referência à multiplicidade de ornamentos na Torre descrita como Vairochana—vjyuha—alankara—gharba.
  • Os discípulos de Buda vivem no mundo mantendo a consciência da natureza ilusória da realidade comum.
    • Renúncia aos prazeres do Nirvana em favor da salvação universal de todos os seres.
    • Reconhecimento do tempo como um momento simultâneo de um presente infinito.
    • Prática de virtudes como domínio de si, caridade e paciência aliada ao domínio do prana e da sabedoria transcendental.
  • A realidade para os mahayanistas é identificada como o vazio que exalta Lao—tse em contraste com o nada absoluto.
    • Os vasos são feitos de argila, mas graças ao seu vazio são úteis. Uma casa é perfurada por portas e janelas e é seu vazio que a torna habitável.
    • O ser produz o útil, mas é o não ser que o torna eficaz.
  • O Vazio justifica condutas fundamentais como o não lutar e o ensinar sem a utilização de palavras.
    • O Homem Santo produz sem se apropriar de nada, trabalha sem esperar nada e realiza obras meritórias sem atribuí—las a si mesmo.
  • A noção de vazio é desenvolvida no Tch’an por meio do u—hsin de Bodhidharma e do u—nien de Huei—neng.
    • Menção à visão do Sereno e do Abissal em Tao—Sin conforme Suzuki.
    • Significados do termo hsin como espírito, coração ou princípio regulador.
    • Significado de nien como pensar ou recordar.
  • Obter o inconsciente ou u—nien implica na percepção das coisas como elas são sem vínculos de apego subjetivo.
    • Significa ver todas as coisas tal como são e não se sentir ligado a nenhuma delas; estar presente em todas as partes e não se estabelecer em nenhuma; permanecer continuamente na pureza da própria natureza; deixar que os seis sentidos ladrões fujam pelas portas dos seis sentidos ao mundo dos objetos dos seis sentidos sem se contagiar em absoluto, mas também sem fugir dali; em definitiva, significa conservar a total liberdade de ir e vir. Significa conseguir o Prana—samadhi, adquirir o domínio de si, alcançar a emancipação, e isto equivale a viver o Inconsciente. Quem compreende a lição do Inconsciente possui um conhecimento acabado de todas as coisas. Quem compreende a lição do Inconsciente abre os olhos ao reino do Buda total. Quem compreende os ensinamentos abruptos do Inconsciente alcança o estado de Buda.
  • Termos negativos indicam que o conceito é compreendido em seu grau máximo de perfeição e desapego.
    • O não pensamento e o não agir representam as formas exemplares de cognição e conduta.
  • As tradições búdica e taoísta fundem—se nos ensinamentos de Huei—neng embora nenhum pensamento se reduza a seus antecedentes.
    • Advertência sobre a traição inerente a qualquer tentativa de glosa didática.
  • A meditação de Wei Wu Wei ressalta a natureza invulnerável e intangível do eu em oposição à objetividade.
    • Por muito que acreditemos que o que somos é objetivo. Por muito que pensemos que poderia haver em nós algo de objetivo. Por muito que não nos pareça ridícula a ideia de que poderia haver algo de objetivo no que somos. Por muito que pronunciemos a palavra Eu com a ideia de que poderia ter algum tipo de entidade. Por muito que não seja o Invulnerável Eu, o Eu Intangível, o Eu Inominável, o Eu Inconcebível quem atua diretamente. Estamos limitados.
  • O redescobrimento do rosto original é vinculado à libertação das finitudes abomináveis contra as quais Buda se rebelou.
    • O rosto original é independente da forma e do nome e precede o nascimento biológico.
  • A servidão humana decorre da crença em uma existência pessoal objetiva e separada da totalidade do real.
    • Exigência de rompimento com moldes de pensamento usuais para a percepção em liberdade absoluta.
  • O Prana—paramita—hridaya—sutra descreve o diálogo sobre a indissociabilidade entre aparência e não ser no Monte dos Abutres.
    • Interação entre o Triunfador da Ilusão e o Bodhisatva Avalokiteshvara sob o testemunho de Shariputra.
    • Tal é a visão do Bodhisatva: Os cinco agregados serão conhecidos como não ser. Aparecer será conhecido como não ser, e não ser será conhecido como Aparência. Aparecer será conhecido como não separado de não ser, e não ser, como não separado da Aparência. Perceber será conhecido como não ser, e não ser será conhecido como Percepção. Perceber será conhecido como não separado de não ser, e não ser, como não separado da Percepção. Do mesmo modo também: Conceber, Conhecer, ser consciente, serão conhecidos de maneira que cada um seja percebido como não ser, e não ser, percebido como cada um. Oh, Shariputra, a visão do não ser é incriada, indestrutível, nem simples nem composta, nem limitada nem ilimitada.
    • Negação da realidade de órgãos sensoriais, sofrimento, morte ou saber interpretativo na visão transcendental.
  • Prana é definido como sabedoria transcendental e conhecimento interior que fundamenta todas as realidades e pensamentos.
    • Prana é Sambhodi, prana é Sarvajnata, prana é Nirvana, prana é Tathata, prana é Chitta, prana é Buddhata; considerado em si mesmo, prana é o Inacessível por excelência e o Impensável por excelência. E tanto o Inacessível quanto o Impensável estão na base de todas as realidades e pensamentos.
  • Os discursos de Huei—neng sobre o Prana confirmam a interconexão das visões taoísta e mahayana no seio do Tch’an.
    • Crítica à curiosidade ocidental que privilegia as formas externas do Zen em detrimento de sua tradição fundante.
  • A essência do Zen reside na preservação e estudo dos textos fundamentais da grande tradição oriental.
    • Citação do Tao—te—King e dos sutras Lankavatara, Gandavyuha e Prana—paramita—hridaja como fontes do espírito do Zen.
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