esoterismo:borges:emerson
EMERSON
ROWLANDSON, William. Borges, Swedenborg and Mysticism. Oxford: Peter Lang AG, Internationaler Verlag der Wissenschaften, 2013.
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Emerson figura como presença constante e decisiva na obra de Borges, sendo referenciado em ensaios, entrevistas, contos e poemas, com destaque para a tradução de Representative Men e para a centralidade do conceito emersoniano do Um Livro em que todos os livros estão escritos.
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Borges dedicou um soneto a Emerson e o incluiu no poema Elogio de la sombra como um de seus tesouros.
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A noção do livro único é citada por Borges em La Flor de Coleridge, onde reproduz Emerson: uma só pessoa teria redigido todos os livros do mundo.
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La Flor de Coleridge pode ser lida como edição condensada do ensaio emersoniano Nominalist and Realist.
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Nota 1: as referências a Emerson em Borges incluem afirmações sobre linguagem como poesia fóssil, sobre bibliotecas como gabinetes mágicos, sobre a inutilidade dos argumentos para persuadir, e sobre a recomendação de ler livros em vez de jornais.
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Nota 2: no ensaio que Borges cita, Emerson descreve a literatura como obra de um único cavalheiro onisciente, com igualdade de julgamento e ponto de vista entre todos os livros.
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A admiração de Borges por Emerson era explícita e entusiástica, definindo-o como cavalheiro e clássico, como o único poeta intelectual com ideias genuínas, e situando-o entre os escritores sem os quais a literatura não seria o que é.
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Borges declarou a Barnstone: gosto de ser devedor de Emerson, um dos meus heróis.
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Emerson é colocado ao lado de Poe, Whitman, Melville, Thoreau, Longfellow, Hawthorne, Emily Dickinson, William e Henry James como autores capitais.
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Emily Dickinson é descrita por Borges como possivelmente a maior poetisa e o maior poeta que a América produziu.
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Nota 3: Mark Twain, oriundo do Missouri, também é mencionado nesse conjunto.
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O Transcendentalismo, movimento que tinha Emerson como figura central, é descrito por Borges como síntese de panteísmo hindu, neoplatonismo, misticismo persa, teologia visionária de Swedenborg, idealismo alemão e escritos de Coleridge e Carlyle, com a imanência de Deus no universo como doutrina central.
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Edwards ensinava que Deus pode infundir luz sobrenatural na alma dos eleitos; Swedenborg e os cabalistas, que o mundo externo é espelho do espiritual.
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Para Emerson, não há ser que não seja um microcosmo; a alma individual se identifica com a alma do mundo; as leis físicas se mesclam às morais.
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Se Deus está em cada alma, toda autoridade externa desaparece e cada homem necessita apenas de sua própria divindade profunda e secreta.
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Emerson e Thoreau são os nomes mais proeminentes do movimento, que também influenciou Longfellow, Melville e Whitman.
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A afinidade de Borges com o Transcendentalismo foi tão profunda que sua não pertença ao movimento só pode ser explicada por razões de tempo e geografia, conforme a avaliação do próprio estudioso Holditch, que, paradoxalmente, julgava fútil qualquer tentativa de fazer de Borges um transcendentalista no sentido emersoniano.
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Holditch reconhece em Borges admiração e afinidade pelo tall gentleman de Concord.
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A relação entre os dois seria a de dois amanuenses do único grande Espírito que conecta toda a literatura.
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Nota 4: Holditch considera fútil e tola qualquer tentativa de fazer de Borges um transcendentalista no sentido emersoniano.
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Barnstone identifica em Borges uma dimensão de transcendência emersoniana, denominando-o místico secular, figura reconciliada com as limitações humanas e com um mundo sem Deus que eternamente sugere e disfarça seu mistério.
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O Borges de Barnstone é ao mesmo tempo matemático do tempo, mestre cerebral, homem calmo e sábio, e o homem que aguarda no gueto de sua cegueira terrena.
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Nota 5: Borges atribui a Emerson seu hábito de nunca ler jornais, seguindo o conselho emersoniano de ler livros, não periódicos.
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As semelhanças entre Borges e Emerson são visíveis no gosto literário, no estilo, na poética, na religiosidade secular, na afinidade com o misticismo e numa visão filosófica colorida pelo estoicismo, pelo idealismo, pelo puritanismo e pelo americanismo, sendo a dívida estilística demonstrável pela comparação entre o ensaio The Transcendentalist e o ensaio de Borges sobre Keats.
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Emerson divide a humanidade entre materialistas e idealistas: os primeiros partem dos dados dos sentidos; os segundos percebem que os sentidos não são finais.
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Borges divide a humanidade entre aristotélicos e platônicos, seguindo Coleridge: os platônicos sabem que o universo é um cosmos; para os aristotélicos, essa ordem pode ser um erro.
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A série de opostos em Borges inclui Parmênides, Platão, Spinoza, Kant e Bradley de um lado; Heráclito, Aristóteles, Locke, Hume e William James do outro.
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Nota 6: o original espanhol do trecho de Borges é reproduzido em rodapé para comparação.
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Borges relatou que conheceu Swedenborg por meio de Emerson, especificamente pelo ensaio sobre Swedenborg em Representative Men, lido em Genebra por volta de 1914 ou 1915, e que depois ordenou da Inglaterra as quatro obras de Swedenborg publicadas em colaboração com a Swedenborg Society de Londres.
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O pai de Borges tinha um exemplar de Heaven and Hell na edição da Everyman's Library.
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Swedenborg foi à Inglaterra para conhecer Newton, mas nunca conseguiu encontrá-lo.
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Borges discutiu Swedenborg com o pintor e místico argentino Xul Solar, na casa deste na Calle Laprida 1214, onde também liam Blake, poetas alemães e Swinburne.
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McNeilly reconhece que Borges, cinquenta anos depois de Emerson, utilizou a premissa do ensaio emersoniano como contraponto para seu próprio ensaio sobre Swedenborg, denominado Testigo de lo invisible, cujas linhas de abertura prestam respeito explícito à conferência de Emerson de 1845.
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Borges referiu-se ao ensaio de Emerson como aquela esplêndida conferência que Emerson deu.
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Tanto Emerson quanto Borges basearam seus princípios gerais sobre misticismo e místicos na leitura de Swedenborg, de modo que a influência de Emerson se torna fator determinante na compreensão borgesiana do misticismo.
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O impacto de Swedenborg sobre Emerson e seus contemporâneos é explicado por Colin Wilson como resposta ao vazio emocional de homens religiosos, como Carlyle, Tennyson, Emerson e Melville, totalmente incapazes de aceitar o cristianismo tradicional após os novos críticos alemães insistirem que a Bíblia era ficção imaginativa.
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Os comentários de Wilson evocam descrições de Borges: desconfiança da ortodoxia religiosa, política e literária, combinada com intenso respeito pelo numinoso.
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Emerson entregou seu ensaio sobre Swedenborg como série de palestras públicas, submetendo o manuscrito à publicação anos depois; Borges também proferiu séries de conferências sobre Swedenborg, notadamente na Universidade de Belgrano em Buenos Aires.
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Em ambos os casos, os ensaios são esboços biográficos com comentários filosóficos interpolados.
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Emerson e Borges escreveram poemas curtos sobre Swedenborg incluídos junto aos ensaios, com estilo bombástico e não emotivo, o que Borges elogiaria em Emerson como intelectual, sendo as semelhanças entre os versos imediatamente evidentes.
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Emerson: In spirit-worlds he trod alone, / But walked the earth unmarked, unknown; Borges: Taller than the others, this man / Walked among them, at a distance.
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Emerson: Through snows above, mines underground, / The inks of Erebus he found; Borges: The fierce geometry, the crystal / Labyrinth of God and the sordid / Milling of infernal delights.
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Borges imita Emerson ao equiparar as viagens de Swedenborg ao outro mundo com sua herança viking e o legado das grandes viagens épicas, em passagens paralelas que constroem a mesma figura do explorador intrépido.
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Emerson: Swedenborg trabalhou com o coração e a força do mais rude Viking que a áspera Suécia jamais enviou à batalha.
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Borges: Ninguém era menos parecido com um monge do que aquele sanguíneo escandinavo que foi muito mais longe do que Erik, o Vermelho.
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Emerson: esse homem, que parecia a seus contemporâneos um visionário, sem dúvida levava a vida mais real de qualquer homem então no mundo.
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Borges: ninguém aceitou a vida com maior plenitude, ninguém a investigou com igual paixão, com idêntico amor intelectual.
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Nota 7: o original espanhol das passagens de Borges é reproduzido em rodapé.
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Nota 8: Borges repete a frase de Emerson na conferência Emanuel Swedenborg.
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Nota 9: o original espanhol completo da passagem de Borges é reproduzido em rodapé.
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Emerson e Borges reconheceram a Doutrina das Correspondências como núcleo da teologia mística de Swedenborg, mas nenhum dos dois se mostrou confortável com a complexidade do sistema nem com a redução da existência humana a módulos funcionais de uma matriz divina.
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Emerson criticou a doutrina como arbitrária, determinista e incompatível com a fluidez inerente da natureza: cada cavalo significa compreensão carnal, cada árvore percepção, cada lua fé.
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Eugene Taylor observa que Emerson rejeitou como absoluto o dicionário swedenborgiano de correspondências, que exigia do leitor aceitar como evangelho o significado espiritual exato que Swedenborg atribuía a cada objeto.
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Emerson: a natureza se vinga rapidamente do pedantismo que quer acorrentar suas ondas; o dicionário de símbolos ainda está por ser escrito.
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Nota 10: o original espanhol da passagem de Borges sobre os dois livros, a Bíblia e o universo, é reproduzido em rodapé.
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Borges descreve o vasto sistema de significações ocultas de Swedenborg com a mesma tonalidade de absurdo taxonômico de El idioma analítico de John Wilkins, extraindo do conceito de correspondência a inquietante noção de predeterminação, segundo a qual os humanos são cifras de uma criptografia divina cujo sentido verdadeiro ignoram.
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Pedras representam verdades naturais; pedras preciosas, verdades espirituais; astros, conhecimento divino; o cavalo, a reta compreensão da Escritura ou sua distorção por sofismas.
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A suspeita perturbadora de que somos símbolos de uma criptografia divina é encontrada em Léon Bloy e nos cabalistas.
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Nota 11: Kathleen Raine argumenta que a correspondência não equivale necessariamente à predestinação, mas à tradição hermética de interrelação entre céus e terra; Lezama Lima discute metáfora de modo semelhante.
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O conto El muerto é lido como alegoria da predeterminação swedenborgiana: Otálora compreende, antes de morrer, que desde o princípio foi traído, que lhe permitiram amor, mando e triunfo porque já o davam por morto, e que sua liberdade de escolha havia sido ilusão cuidadosamente orquestrada por Bandeira.
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Em La Biblioteca de Babel, caos e ordem são harmonizados de forma perturbadora em uma biblioteca infinita e labiríntica na qual um livro deve conter todos os livros, com escolha infinita mas limitada pela vertiginosa ordem do conjunto.
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Borges observa que na obra de Swedenborg, ao contrário de Dante, a alma conserva o livre-arbítrio após a morte, mas permanece na órbita gravitacional de Deus.
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A heterodoxia de Swedenborg quanto ao livre-arbítrio representava ruptura radical com a crença cristã ortodoxa no julgamento individual e final, sendo uma das acusações que levaram à sua censura e proibição de publicação na Suécia natal, ao lado da rejeição da Trindade, da crença em Cristo como Deus na terra, da crítica a São Paulo e da defesa do acesso direto ao divino sem mediação clerical.
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McDannell e Lang: o espírito, não Deus, decidia em última instância onde passar a eternidade na visão swedenborgiana.
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Bald também é referenciado sobre esse ponto.
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Emerson, como Borges, percebeu em Swedenborg um anseio perturbador de conciliar a experiência de interconexão com tradições doutrinárias, criticando tanto Swedenborg quanto Böhme por se apegarem ao símbolo cristão em vez do sentimento moral.
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Hurth examina como Emerson rejeitou a abordagem excessivamente literal de Swedenborg e Böhme à verdade alegórica, criticando que suas apresentações literárias eram estreitas demais e seus símbolos esquemáticos e rígidos.
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Borges: Swedenborg, como Spinoza ou Francis Bacon, era um pensador por conta própria que cometeu um erro incômodo ao resolver ajustar suas ideias ao marco dos dois Testamentos.
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A referência viking em ambos os autores é impactante: apesar dos longos tomos de hermenêutica escritural, Emerson e Borges consideravam Swedenborg o oposto de um teólogo, um explorador intrépido de outros mundos.
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Borges em entrevista: os místicos tendem a escrever de modo vago; Swedenborg não; sua obra é precisa, como se ele tivesse ido à China ou à Índia e descrevesse o que viu.
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A questão problemática levantada por Emerson e Borges concerne à fronteira entre experiência e reprodução textual, sendo ambíguo se Swedenborg era teologicamente comprometido no próprio momento da experiência mística ou se suas vivências foram depois distorcidas pelo desejo consciente de conformá-las à doutrina no momento da reflexão e da escrita.
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Emerson detecta uma dimensão ficcional nas paisagens angélicas de Swedenborg, baseada na ideia do próprio Swedenborg de que projetamos nossa vontade sobre o reino celestial.
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Emerson critica a incapacidade de Swedenborg de criar personagens interessantes e individuais, juízo que implica suposição firme sobre invenção literária.
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Emerson critica o universo swedenborgiano como sofrendo de um sono magnético que apenas reflete a mente do magnetizador, com todos os tipos significando as mesmas poucas coisas, todas as figuras falando um único discurso e todos os interlocutores swedenborgizando, com céus e infernos monótonos por falta de individualismo.
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Quando Cícero aparece nas visões, Swedenborg hesita levemente em dizer que conversou com Cícero, observando que era alguém que me foi dado crer ser Cícero, mas quando o suposto romano abre a boca, Roma e eloquência desapareceram e só resta a teologia swedenborgiana.
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As implicações ontológicas são profundas: se Emerson detecta uma linguagem distintamente swedenborgiana nos personagens, então o autor das visões não é Deus, mas Swedenborg, e seus anjos habitam o mesmo espaço ficcional dos Morlocks de Wells, do Hamlet de Shakespeare ou dos Hobbits de Tolkien.
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Borges separava os místicos dos não místicos com base precisamente na qualidade não ficcional dos textos dos primeiros, argumentando que Dante não poderia ter experienciado sua visão em verso e que as destinações ultraterrenas de Swedenborg são reais, não ficções.
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Emerson associa Swedenborg a Michelangelo e Dante como criadores que inseriram disputas pessoais e eclesiásticas em suas obras visionárias, tornando mais profunda a equação entre ambição literária e comprometimento teológico.
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As disputas paroquiais da Igreja sueca entre luteranos e melanchthonianos sobre fé e obras penetraram nas especulações de Swedenborg sobre a economia do universo.
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Michelangelo colocou o cardeal que o ofendeu a assar sob uma montanha de demônios; Dante vingou suas ofensas pessoais em melodias vingativas.
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O ensaio de Emerson sobre Swedenborg é significativamente mais longo que o de Borges, e a breve observação borgesiana sobre o erro incômodo de Swedenborg pode ser lida como resposta sintética e concisa à longa diatribe emersoniana contra a determinação teológica que impedia qualquer liberalidade de sabedoria universal.
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Emerson: o vício da mente de Swedenborg é sua determinação teológica; nada tem a liberalidade da sabedoria universal, pois estamos sempre em uma igreja.
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Borges: os incalculáveis céus de Swedenborg estão cheios de amor e teologia.
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Emerson critica o tom apaixonado de Swedenborg, descrevendo-o como homem escolástico, didático, sem paixão e sem sangue, que classifica classes de almas como um botânico e visita infernos como se fossem estratos de giz.
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Nota 12: Yeats comparou Swedenborg a um mineralogista; Garrett descreveu sua precisão como mais própria de engenheiro do que de místico.
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Borges oferece apreciação mais simpática que Emerson ao tom teológico de Swedenborg, sugerindo que ele inevitavelmente teria tido uma visão eclesiástica do outro mundo porque essa também era sua visão da realidade mundana, criado que foi em ambiente pietista por um pai bispo evangélico luterano.
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Emerson, por sua vez, foi mais perturbado pela tradução das visões de Swedenborg em doutrina: essas imagens evanescentes do pensamento, verdadeiras em transição, tornam-se falsas quando fixadas; quando se convertem em linguagem estereotipada de multidões, são pervertidas.
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Para Emerson e Borges, esse dilema estava no coração de suas relações tensas com a religião ortodoxa: o mistério está no centro da experiência religiosa, mas sua conversão em artigos de fé erige um sistema de crença rígido desprovido do poder transformador do mistério.
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Nota 13: Conan Doyle comentou que Swedenborg sugou teologia com o leite materno.
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Emerson colocava o intelecto em alta estima e ficava entediado com mulheres piedosas que tinham muita luz no coração mas nenhuma igual no entendimento, anseando por aquela união de santidade e gênio em uma única mente que seria a majestade.
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Borges compartilhava esse posicionamento, entusiasmando-se com o elogio de Swedenborg e Blake ao intelecto acima da piedade simples e acrítica.
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Borges: ao requisito de ser justo, Swedenborg acrescenta outro, nunca antes mencionado por nenhum teólogo: o de ser inteligente.
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Quinn conclui que o julgamento emersoniano do misticismo era essencialmente o da magia, associado não ao esforço pela perfeição espiritual, mas à busca do poder que a realidade sobrenatural contém.
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O místico, na análise de Quinn, não cobiça esse poder: busca apenas a união com Deus; é seu instinto adorar o que o mágico usaria.
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Borges descreveu um projeto de livro sobre as três salvações: a de Cristo, de caráter ético; a de Swedenborg, ética e intelectual; a de Blake, discípulo rebelde de Swedenborg, ética, intelectual e estética, baseada nas parábolas de Cristo, que Blake chamava de obras de arte.
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Borges escreveu um prólogo para um livro sobre Swedenborg a pedido do Sr. Spiers, da Fundação Swedenborg.
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A admiração de Borges pelo intelecto de Swedenborg superava, em muitos aspectos, suas visões celestiais: não lhe bastaram as versões latinas; pesquisou os textos originais em hebraico e em grego.
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Lawrence observa que Borges se sentia um espírito afim ao místico sueco.
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Emerson é frequentemente descrito como místico, embora tal rótulo seja ao mesmo tempo comum nos estudos sobre Emerson e raro nos estudos sobre misticismo, sendo o termo aplicado muitas vezes a partir de uma compreensão insuficiente da complexidade do conceito.
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Quinn argumenta que o uso emersoniano do termo misticismo é problemático devido ao emprego casual e contraditório.
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A célebre passagem de Nature, em que Emerson se descreve como olho transparente e parte ou parcela de Deus, parece exigir interpretação como documento místico, mas Quinn questiona se o misticismo de Emerson soa suspeito por sua facilidade quase desenvolta.
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Hurth aponta que o termo Yankee Mystic era empregado pelos contemporâneos de Emerson, permitindo sua ruptura radical com a ortodoxia cristã e sua assimilação dos princípios democráticos de seu país, espírito que mais tarde informou seu afilhado William James em sua descrição do pragmatismo.
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Em 1942, Henry B. Parkes lançou ataque agressivo contra os traços supostamente místicos do pensamento de Emerson, classificando-o como pseudo-místico sem nenhuma experiência mística verdadeira, cujo misticismo se fundava em momentos de exaltação causados por sentimento de harmonia com o mundo exterior, experiência que todos ocasionalmente têm.
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Os críticos contemporâneos de Emerson usavam misticismo como termo de reprovação, equivalente a nebuloso ou oculto.
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A posição de Parkes é análoga à refutação de Zaehner a Huxley, demonstrando a dependência de muitos estudiosos de uma ou outra das categorias definidoras do termo místico.
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Quinn define o verdadeiro místico como aquele que dedicou anos a exercícios espirituais para se unir a Deus; Emerson quereria que esse fenômeno raro ocorresse quase instantaneamente.
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Alan Watts satirizou a divisão entre Beat Zen, caminho fácil ao satori, e Square Zen, caminho difícil.
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Quinn e Hurth avaliam os estudiosos que analisaram Emerson, especialmente a passagem de Nature, concordando que o texto foi inspirado por outros textos, em particular por Böhme, cuja Aurora Emerson leu pouco antes de publicar Nature, podendo ter tomado emprestado o olho físico como símbolo da comunhão entre alma e Deus.
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Emerson definia Böhme como alguém ensinado diretamente por Deus por meio de suas intuições, não pela erudição livresca, um místico no sentido mais exato.
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Hurth admite originalidade de experiência em Emerson posteriormente enquadrada em estilo influenciado por Böhme: a Aurora seria fonte apenas no sentido de ter fornecido vocabulário para as próprias ideias de Emerson.
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Quinn sugere que a linguagem de Emerson pode ter sido tomada de Plotino, o que ilumina a ironia: uma descrição não literária da experiência testificaria a falha da linguagem, portanto a inefabilidade, portanto o aspecto místico genuíno; quanto melhor o poeta, pior o místico.
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Borges é igualmente descrito de forma polêmica como místico, quase-místico e não-místico, sendo interessante notar que tanto Emerson quanto Borges se aproximam de Swedenborg com a suposição de que suas experiências místicas primárias podem ser de algum modo divorciadas de seus escritos eclesiásticos.
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Ambos pressupõem uma experiência fenomenológica anterior às elaborações culturais-religiosas, derivando essa abordagem de suas próprias experiências de consciência mística, que propõem como não mediadas pela doutrina.
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O desconforto com o misticismo vinculado à Igreja também impediu tanto Emerson quanto Borges de uma leitura mais profunda dos textos das tradições místicas canônicas.
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Quinn aponta que Emerson conhecia pouquíssimos místicos, não mencionando Dionísio Areopagita, Meister Eckhart, João de Ruysbroek, Santa Teresa de Ávila, São João da Cruz ou Catarina de Siena.
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Borges investe em Swedenborg com o mesmo zelo de Emerson e raramente discute outros místicos canônicos, além de breves menções a Angelus Silesius e Jakob Böhme, e descarta Pascal e os espanhóis como não sendo sequer místicos.
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A conclusão analítica da trajetória de influências mostra uma linha direta de figuras que liga Borges a Swedenborg passando por William James e seu padrinho Ralph Waldo Emerson, sendo este um elo vital na cadeia.
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Borges era leitor próximo e admirador de William James, cujas obras psicológicas o pai de Borges ensinava.
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Macedônio Fernández, amigo de Jorge Guillermo Borges e mentor do jovem Georgie, correspondeu-se com William James.
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William e Henry James, o romancista, foram profundamente influenciados por seu pai Henry James Sr. e por sua fascinação por Swedenborg.
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James pai era amigo íntimo de J. J. Garth Wilkinson, principal tradutor de Swedenborg e amigo de Carlyle, que primeiro apresentou Emerson às obras de Swedenborg.
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Wilkinson era amigo de C. A. Tulk; Tulk era amigo e correspondente de S. T. Coleridge; Coleridge era amigo de De Quincey, que leu Swedenborg por amizade com John Clowes.
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Nota 14: Borges discute sua amizade com Macedônio Fernández no Ensaio Autobiográfico; Nubiola explora a veracidade da correspondência com William James.
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Nota 15: Clowes era pregador anglicano e swedenborgiano que visitava frequentemente a casa de De Quincey e lhe emprestava obras de Swedenborg; De Quincey traduziu o resumo kantiano do swedenborgianismo; para Kant, as visões místicas de Swedenborg eram uma forma de loucura.
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Tulk encontrou William Blake em uma das primeiras congregações da Nova Igreja de Londres, uma denominação sectária swedenborgiana em Eastcheap, e mais tarde apresentou o idoso Blake a Coleridge, sendo Blake nascido em família profundamente versada em Swedenborg e permanecendo leitor próximo e frequentemente antagonista do místico sueco durante toda a vida.
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A lenda do jovem Blake encontrando o idoso Swedenborg aparece em verso em H. N. Morris, Flaxman, Blake, Coleridge, and other men of genius influenced by Swedenborg, mas é refutada coerentemente por David V. Erdman.
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A mãe de Blake, Catherine, interessou-se por Swedenborg por meio da congregação Morávia de Fetter Lane, que ela e seus dois maridos, Thomas Armitage e James Blake, frequentavam, e onde Swedenborg foi por algum tempo membro registrado.
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Existe, portanto, possibilidade de contato pessoal entre a mãe de Blake e Swedenborg.
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Nota 16: em 1789 Blake compareceu à Primeira Conferência Geral da Nova Igreja em Eastcheap, onde pode ter ocorrido o primeiro encontro com Tulk.
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Nota 17: Crabb Robinson situa o encontro de Blake e Coleridge, mediado por Tulk, em 1825 ou início de 1826.
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Nota 18: o pai de Blake era dissidente interessado em Swedenborg; o irmão Robert estava ativamente associado a uma comunidade swedenborgiana.
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Nota 19: Swedenborg hospedou-se com seu amigo morávia John Paul Brockmer e considerou filiação formal à capela de Fetter Lane; Ankarsjö sugere que Catherine Blake era membro devota da congregação Morávia durante o período de maior atividade de Swedenborg nela.
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Se Catherine Blake e Swedenborg não se encontraram pessoalmente, pode ser traçado um caminho de Blake a Robert Hindmarsh, fundador original do swedenborgianismo, amigo do pai de Tulk, John Augustus Tulk, em cujos encontros Blake participava com seu amigo e apoiador John Flaxman; o pai de Hindmarsh, James Hindmarsh, era pregador de John Wesley, que correspondeu com Swedenborg em 1772 convidando-o a visitá-lo em Londres, e os irmãos John e Charles Wesley foram membros da Igreja Morávia de Fetter Lane ao mesmo tempo que Swedenborg.
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Existe, portanto, contato pessoa a pessoa direto que liga Swedenborg a Borges por meio de Emerson, com qualquer número de trajetórias variantes e figuras alternativas.
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Nota 20: alerta ao estudioso sobre a confusão possível entre três nomes semelhantes: Toksvig, Sigstedt e Synnestvedt, este último autor da edição em espanhol à qual Borges foi convidado a contribuir.
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Borges adotou uma postura curiosamente contraditória na avaliação de Swedenborg, e é marcante observar que Emerson apresenta uma abordagem igualmente problemática e às vezes inconsistente ao avaliar Swedenborg e Böhme, tornando a forte afinidade entre Borges e Emerson um fator determinante nesse estudo.
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Emerson e Borges dedicaram atenção especial à magnitude do intelecto de Swedenborg, fazendo da dimensão intelectual um elo central entre os dois ensaístas.
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A ênfase na dinâmica intelectual de Swedenborg reflete o foco crítico particular de Emerson e Borges sobre a relação curiosa entre experiência mística espontânea e inconsciente e a abordagem analítica e cética que acompanha o intelecto.
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Hurth traça a relação evolutiva de Emerson com Böhme e Swedenborg, observando que, com a idade, Emerson passou a ver o aparato crítico como impedimento à intuição mística genuína e a considerar as experiências de Böhme cada vez mais inalcançáveis, enquanto as de Swedenborg representavam harmonia única e desafiadora entre fé e razão.
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A conclusão do capítulo sintetiza a visão compartilhada de Emerson e Borges como místicos seculares, no sentido de que o que os fascinava em Swedenborg era precisamente a qualidade secular, perene, universal e arcaica de suas experiências registradas, pertencente a uma linhagem nobre que remonta a épocas pré-cristãs.
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O tropeço de ambos na leitura de Swedenborg está em sua adesão às Escrituras e na adaptação de suas ideias ao marco dos dois Testamentos.
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Essa leitura pode não ser adequada, pois o projeto teológico-místico de Swedenborg era profundamente religioso.
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O que está no coração do acerto de contas de Emerson e Borges não é tanto a qualidade secular, mas a relação entre religião institucional e transcendência pessoal.
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A descrição de Barnstone, o Borges da transcendência emersoniana, o místico secular, é inteiramente apropriada para descrever não apenas Emerson e Borges, mas também sua abordagem a Swedenborg.
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A tensão visível em Nature de Emerson e em Sentirse en muerte de Borges é entre a experiência e os poderes cognitivos que tentam apreender, conceituar e recontar essa experiência.
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