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THEOSOPHIA

Antoine Faivre — Acesso ao Esoterismo Ocidental II

A corrente teosófica (final do século XVI até século XX): tentativa de periodização

  • Ao se falar de teosophia, é sempre necessário precisar de qual se trata ou em que sentido se emprega esse termo de longa história, cujo uso remonta à Antiguidade tardia e à Idade Média, conforme demonstram pesquisas de James Santucci e Jean-Louis Siémons publicadas em 1987.
    • Porfírio (234–305) teria sido o primeiro a introduzir o termo theosophia — o theosophos sendo para ele um ser ideal que une em si a qualidade de filósofo, de artista e de sacerdote do mais alto nível
    • Jâmblico (por volta de 250–330) fala da Musa divinamente inspirada — theosophos Mousê em grego
    • Proclo (412–485) emprega theosophia no sentido de doutrina
    • Para Clemente de Alexandria (por volta de 150–215), theosophos significa movido por uma ciência divina
    • No Pseudo-Dionísio é difícil estabelecer diferença entre theologia, theosophia e filosofia divina
    • Para os últimos platônicos, theosophia acaba por designar uma doutrina espiritual ou outra, ou mesmo a teurgia em si mesma
    • Na Idade Média cristã, o termo se torna praticamente sinônimo de theologia — os theosophoi designando por vezes, como na Summa Philosophiae atribuída a Robert Grosseteste (1175–1253), os autores da Escritura sagrada
  • Esses exemplos revelam tanto uma multiplicidade de sentidos quanto uma parentela entre eles, de modo que, sendo sempre em questão a Sabedoria de Deus ou o conhecimento das coisas divinas, a abordagem mais fecunda consiste em partir do dado empírico para identificar grandes conjuntos no panorama ocidental do termo, evitando tanto o atomismo das enumerações quanto a dissolução dos contornos numa uniformidade sem distinções.
    • Acentuar as diferenças semânticas arrisca fazer passar despercebidos os vínculos sutis que unem autores diferentes
    • Apagar as diferenças em nome de denominadores comuns arrisca dissolver os contornos e resultar numa noite em que todos os gatos são cinzas
    • O propósito não é apresentar uma simples enumeração de acepções, o que seria fornecer uma descrição atomizada do panorama
    • Tampouco se trata de reduzir a maioria das acepções a uma única orientação, o que parece ou bem impossível ou bem revelar um parti pris doutrinário
    • A abordagem proposta parte do dado empírico e pergunta se, da multiplicidade de usos do termo no Ocidente, emergem concretamente alguns grandes conjuntos
  • Da multiplicidade de usos do termo teosophia no Ocidente moderno e contemporâneo emergem dois grandes conjuntos distintos: uma corrente esotérica informal de matriz germânica constituída desde o final do século XV, e a Sociedade Teosófica fundada oficialmente em 1875 por Helena Petrovna Blavatsky, as quais, apesar de ressemblâncias evidentes, se distinguem pelo corpus referencial, pelo estilo e pela origem de seus textos fundadores.
    • O primeiro conjunto é uma galáxia informal que começou a se constituir no clima espiritual germânico do final do século XV, floresceu no século XVI e penetrou, com fases de crescimento e declínio, uma parte da cultura ocidental até hoje
    • O segundo conjunto é a Sociedade Teosófica, criada oficialmente em 1875 por Helena Petrovna Blavatsky (1831–1891), dotada desde seu nascimento de direções e objetivos relativamente precisos, a ponto de ser considerada por alguns um novo movimento religioso ou mesmo uma nova religião
    • Ambos ocupam lugar importante no esoterismo ocidental e pretendem se ocupar de sabedoria ou conhecimento das coisas divinas numa perspectiva gnóstica — a gnose, notadamente a dos laços e mediações que unem o homem ao mundo divino, sendo considerada uma via privilegiada de transformação e salvação
    • A distinção entre os dois se justifica porque não dispõem do mesmo corpus referencial e seu estilo é diferente
    • O corpus referencial da primeira corrente é de tipo essencialmente judeu-cristão, com textos fundadores datados do final do século XV e do início do século XVII
    • O corpus da Sociedade Teosófica reveste um aspecto mais universalista, impregnado de elementos orientais, particularmente hindus e budistas
    • Os dois corpus não são estanques — Blavatsky faz cerca de vinte referências a Boehme, conforme recorda Jean-Louis Siémons
    • Siémons reconhece que as ressemblâncias entre os dois correntes não bastam para criar entre eles um fosso intransponível
    • Se a casa esotérica é feita de várias moradias, cada uma deve possuir estilo próprio — e cada uma das duas famílias teosóficas é bastante grande e rica para ocupar uma dessas moradias integralmente, sem que isso a impeça de partilhar com a outra as partes comuns
    • Assim como existe um romantismo europeu sem que seja frutífero colocar sob o mesmo chapéu Novalis e Alfred de Musset, a distinção entre os dois conjuntos teosóficos pertence ao discurso do historiador — não ao do romantismo eterno ou da Tradição primordial, que são objetos de discurso essencialmente subjetivos e doutrinários
  • A corrente teosófica propriamente dita — o primeiro dos dois grandes conjuntos — percorreu quatro períodos distintos que constituem a estrutura de sua história: a criação de um corpus específico do final do século XV ao longo do século XVII, a extensão e recepção historiográfica desse corpus na primeira metade do século XVII, o renovamento nos períodos pré-romântico e romântico, e seu apagamento mas também sua permanência desde meados do século XIX até o presente.
    • O primeiro período, do final do século XV ao longo do século XVII, corresponde à criação de um corpus específico de textos qualificados de teosóficos — constituindo o primeiro período áureo da corrente
    • O segundo período é o da extensão desse corpus e de sua recepção pela historiografia da filosofia, na primeira metade do século XVII
    • O terceiro período é o renovamento da corrente na época pré-romântica e depois romântica — o segundo período áureo
    • O quarto período é o de seu apagamento, mas também de sua permanência, desde meados do século XIX até o presente
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