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MULHER E CASAL

FAIVRE, Antoine. Accès de l’ésotérisme occidental I. Paris: Gallimard, 1986.

  • Baader atribui à mulher um papel fundamental na realização humana e espiritual do casal e da humanidade inteira, concebendo-a como receptáculo privilegiado da música celeste do amor.
    • Em carta de 1839 a Stransky, Baader evoca o grande mistério do amor como música celeste que ressoa de forma mais perceptível no coração das mulheres do que no dos homens – cabendo aos homens esforçar-se para dar às mulheres apenas o texto dessa música.
    • No ensaio sobre os “ensinamentos secretos” de Martines de Pasqually, lembra que a má ação penetrou no elemento ativo (o homem = o fogo) a partir do elemento passivo (a mulher = a água), e que a boa ação reconciliadora deve seguir o mesmo caminho.
    • A mulher serve de “condutor” inconsciente tanto da boa quanto da má ação; ela é uma “base”, assim como o corpo.
    • Weib e Leib (“mulher” e “corpo”) devem ser respeitados e não “estragados” ou sujados, pois encerram uma bênção (Segen), mas também uma maldição, exigindo uma conduta prudente (scheuen).
  • A mulher está acima do homem na medida em que é a portadora inconsciente do desejo masculino de criar, ou a portadora da imagem que está no homem, mas ela mesma só chega à consciência dessa imagem pela força despertadora do homem.
    • Isso vale tanto para o bom quanto para o mau desejo, tanto para a semente da mulher quanto para a do serpente.
    • Cada mulher é ao mesmo tempo uma EVA e uma AVE (Maria), e depende sobretudo da obra do homem que uma ou outra dessas formas se atualize.
    • Voltaire, autor que Baader frequentemente considera “sagaz”, afirma que “a religião e o amor das mulheres são fundados na mesma fraqueza” – podendo de fato haver apenas fraqueza nos dois casos.
    • É muito mais frequentemente culpa do homem do que da mulher quando ela gera demônios em vez de deuses.
  • A mulher é a guardiã e a conservadora do amor, reconhecimento que apenas o cristianismo lhe concedeu plenamente ao proporcionar-lhe liberdade social e honras.
    • No estado normal, no homem não é o amor mas o desejo sensual (Lust) que toma a iniciativa; na mulher, ao contrário, o desejo sexual segue o amor, e não o inverso.
    • A mulher é menos capaz de separar, de “abstrair”, desejo e amor.
    • O que o homem dá conscientemente à mulher é a parte pior, o desejo sensual; a mulher dá primeiro ao homem, e conscientemente, a parte melhor.
    • Uma virgem é uma despertadora inconsciente (não culpada) do desejo do homem, e responde conscientemente a esse desejo dando amor.
  • Baader não dedica à mulher um culto sem reservas, independentemente do fato de que o mal se introduziu na humanidade pelo canal da tintura feminina.
    • Em carta de 1834, explica que a mulher não pode dispensar o Espírito nem os sacramentos porque, particularmente no amor, não consegue ir além da “constelação sidérica” – ou instinto superior –, ao passo que o homem a isso chega.
    • O perigo está em divinizar essa “constelação sidérica”; é sempre necessário recolocá-la e considerá-la na região que lhe é própria.
    • Se o homem pode ir diretamente a Deus, a mulher chega melhor a ele passando pelo homem.
    • Toda união verdadeira pressupõe uma subordinação: o amor difere conforme os dois membros do casal se encontrem um sob o outro ou um diante do outro.
    • São Paulo (Efésios, V) ensina que o homem deve amar a mulher – como a cabeça o corpo, ou o Senhor a comunidade – e que a mulher deve venerar (verehren) o homem: cabe primeiro ao homem amar a mulher, “descendo” em direção a ela para que por essa descida ela seja “elevada”.
    • Um homem não pode amar uma mulher que se recusa a essa elevação; uma mulher não pode venerar um homem que não se inclina sobre ela com amor.
    • “A mulher só se apreende em e pelo homem; o homem só pode se desenvolver na mulher.”
    • Em carta a Stransky de 1840, Baader lamenta o “declínio do coração e o monstruoso desenvolvimento da inteligência”, fazendo as mulheres perderem cada vez mais seu poder legítimo sobre os homens – por culpa deles –, restando-lhes apenas a má arma de uma sensualidade sem coração, ou a semelhança com fantasmas de seres híbridos desprovidos de feminilidade.
  • A tentativa de união verdadeira repousa sobre a dialética do dar e do receber, na qual cada amante se nega e “põe” o outro.
    • Amar alguém é dar-se junto com o presente que se oferece; receber o amor de alguém é receber a si mesmo junto com o presente.
    • Quem sabe dar sem orgulho pode também receber sem rebaixamento; quem recebe rebaixando-se só pode dar com orgulho.
    • Num curso sobre Jacob Boehme, Baader precisa: quando amo alguém, nego-me e “ponho” o outro; quando alguém me ama, nega-se e me põe.
    • Se nego o outro, encontro-me negado – por isso o ódio é improdutivo.
    • Daí a verdade da fórmula “Um por todos e todos por um.”
    • A criatura é uma consoante separada da vogal divina, mas possuindo o poder de se exprimir pronunciando essa vogal; Mestre Eckhart diz que o homem é um advérbio (Beiwort).
  • Só o amor torna verdadeiramente liberal, pois só quem sabe amar não separa o direito do dever, o reinar do servir, o possuir do ser possuído.
    • O amor permite compreender por analogia grandes mistérios: se alguém recusa nosso amor e sofremos por isso, imaginamos melhor o sofrimento que Deus experimenta pela mesma razão.
    • Um dos “quarenta aforismos” alerta contra o “tantalismo da filaúcia” (amor-próprio): não se pode amar a si mesmo assim como não se pode abraçar a si mesmo.
    • Quem busca amar-se ou admirar-se procura no fundo refutar, pelos testemunhos alheios, suas dúvidas sobre sua própria dignidade de ser amado; não consegue e se esvazia cada vez mais.
    • A filaúcia denota um vazio profundo – é uma potência tantálica resultante da recusa de admirar e amar o que merecia sê-lo.
  • O perdão e a reconciliação aprofundam o amor e solidificam o vínculo com o outro, constituindo o cimento de toda amizade e amor duráveis.
    • Perdoar é fazer uso criador do desejo e da imaginação, entrando de algum modo no interior da pessoa que se arrepende, renovando-a e ligando-se a ela mais profundamente.
    • Só o sangue do coração, que por ocasião de uma falta passa a correr como sangue sacrificial, é capaz de fornecer o cimento que sela uma amizade e um amor duráveis – pode-se falar aqui de consanguinidade no sentido mais profundo.
    • Quem percorreu esse processo de reconciliação não está longe do reino de Deus.
    • Só o amor é verdadeiramente gentil (artig) e polido, havendo nele sempre algo de distinto, enquanto a falta de amor é grosseira mesmo quando quer aparentar polidez e gentileza.
    • Em resposta ao Dr. Weinhold, que em 1829 propôs métodos de contracepção, Baader argumenta que permitir ao Estado influenciar nesse domínio seria conceder-lhe poderes que não lhe cabem; a proposta de Weinhold aproxima-se da moral kantiana, que vê o casamento como contrato de locação e não como sacramento.
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