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esoterismo:faivre:androginia-filosofias

ANDROGINIA E FILOSOFIAS

FAIVRE, Antoine. Accès de l’ésotérisme occidental I. Paris: Gallimard, 1986.

  • A originalidade de Baader manifesta-se na associação entre a quaternidade andrógina do ser humano e a da filosofia, sendo a filosofia verdadeira uma teosofia que ajuda a recompor a dupla tintura na imagem do Filho.
    • L. P. Xella tentou uma aproximação entre as duas noções, que embora raramente explícita nos escritos do teósofo é sugestiva.
    • A palavra philosophia deveria incitar a meditar sobre a quaternidade divina para dela nos aproximar, representando o amor de e por Sophia e tornando-se caminho de retorno da humanidade a Deus.
    • A verdadeira filosofia se opõe à afirmação de um Si falso e egoísta ou à abstração unilateral de uma única tintura.
    • Nas filosofias irreligiosas, a tintura masculina, ao absolutizar-se, nega o vínculo quaternário entre Deus e o homem (eritis sicut Dei), nega a feminilidade matricial, fecha-se à ação divina, permanece vazia e expropria a natureza exterior, organizando seu saque devastador.
    • Ao rapport industrial com a natureza corresponde o niilismo das especulações filosóficas que buscam apenas refletir a si mesmas e auto-fundar-se no ego, como as de Descartes.
  • O saber tem sua origem na admiração, e é no jogo entre “espelhar-se” e “admirar” que se efetua a verdadeira especulação.
    • Baader cita Platão e inspira-se em Saint-Martin, o Filósofo Desconhecido, para quem o espírito do homem só pode viver de admiração e o coração só de adoração e amor.
    • Admitir uma alteridade implica o justo rapport entre sujeito e objeto – unidade na distinção, relação entre inferior e superior mediada pelo “espelho” e pelo “milagre”.
    • O superior, como tintura masculina, admira-se no inferior onde encontra sua imagem e se apreende em sua feminilidade-passividade, suscitando nesse espelho, tintura feminina, um aspecto masculino – sua própria imagem de superior, que por isso é um milagre (mirare).
    • O superior eleva em si o inferior que o admira e une-se a ele sem por isso negar-se; reencontra-se assim o quaternário ontológico andrógino.
    • Daí o sentido da fórmula que Baader repete voluntariamente: Cogitor a Deo, ergo sum – eu, objeto de saber, reconheço-me objeto do saber de Deus.
  • A filosofia pós-cartesiana é um produto bastardo do tempo, absolutização típica da tintura masculina acompanhada de impotência, esterilidade e niilismo.
    • Falta-lhe a feminilidade, razão pela qual recusa admitir sua própria inferioridade e receptividade em relação a Deus.
    • Essa tendência foi assinalada por C. G. Jung e por L. P. Xella.
    • A filosofia de Baader é essencialmente erótica: não é do nada nem da matéria, mas do desejo das duas tinturas que surge todo processo de produção e criação.
    • Toda determinação, figura ou corpo verdadeiro (Bild) só pode ser entendido como preenchimento e continente ao mesmo tempo.
    • Spinoza negou a passividade da filosofia – o panteísmo é nesse sentido uma caricatura hermafrodita, pois a substância espinoziana não é nem Deus nem o cosmos, querendo ser ambos, assim como o hermafrodita não supera o masculino e o feminino mas exaspera seu dualismo, sem um quarto termo.
  • A hostilidade de Baader em relação à filosofia de Schelling explica-se porque esta também pode ser qualificada de hermafrodita, recaindo numa estática polaridade sem valência quaternária.
    • À queda adâmica na matéria correspondem os sistemas de Spinoza e de Schelling, que representam uma culpável disponibilidade para se deixar impor qualquer vínculo com a natureza inferior.
    • À soberba “espiritualista” de Lúcifer corresponde o aspecto “despótico” encontrado no sistema de Fichte e sobretudo no de Hegel.
    • Em Fichte, o Eu posta sua auto-afirmação, nega Deus (que identifica ao Si) e a natureza (que identifica ao Não-Eu), negando assim a tintura feminina dentro e fora de si.
    • Esse Eu não pode gerar nem para cima deixando-se fecundar pelo Verbo divino, nem para baixo fecundando a natureza; em sua necessidade sempre insatisfeita de preencher-se, choca-se continuamente com uma matriz estéril.
    • Como ensina Tauler, Deus busca a criatura para nela gerar seu próprio filho; o Eu fichteano persegue sem trégua a natureza, permanecendo filho do tempo, acorrentado a uma roda de Ixião.
    • O amor-próprio ou egoísmo (Selbstsucht) aparece com a perda da verdadeira Selbstheit; os políticos da época sacrificam ao fichteísmo ao “constituir” o Estado de maneira fichteana.
    • Desde Fichte, o conceito de “tomar” suplantou em filosofia o de “receber”, assim como o orgulho suplantou a humildade.
  • A filosofia hegeliana avança até a tríade mas não a supera, caracterizando-se como uma figura da união andrógina que se torna rígida no momento da produção do Verbo.
    • A dialética hegeliana admite a necessidade de uma tintura feminina como órgão de afirmação da tintura masculina, mas a reduz a simples instrumento exterior e estranho à masculina.
    • A Ideia hegeliana busca a natureza apenas para negá-la, como se Deus buscasse o homem não para gerá-lo mas para matá-lo.
    • A determinação (o Filho) é interpretada pelos filósofos com frequência excessiva como negação, e o limite como um mal em si.
    • A tríade hegeliana é um dualismo mascarado no qual pai e filho, masculino e feminino, combatem-se sem trégua.
    • O Pai quer ser tal sem passar pelos estreitos corredores da matriz; aliena-se na natureza, lança para fora de si o órgão feminino, para reencontrá-lo depois diante de si como órgão estranho, como um nada.
  • A filosofia hegeliana que proclama o absoluto do Espírito e o triunfo do orgulho luciferiano só pode realizar-se efetivamente numa forma de baixo materialismo.
    • Ao ver na pessoa física do chefe de Estado a encarnação de um absoluto, essa filosofia condena-se a um produto bastardo no qual a humanidade desce abaixo de seu papel de órgão de Deus.
    • O rei usurpado pelo homem no reino invisível do Espírito perde sua máscara e aparece como corpo grosseiro no reino visível da política.
    • Erros nascidos na especulação acabam por invadir realmente a Igreja e o Estado.
    • A Igreja católica tende a confundir o reino de Deus com a simples visibilidade material – forma de petrificação; os protestantes o confundem com a absoluta invisibilidade – dispersão de uma interioridade sem fundamento.
    • Uma e outra participam da absolutização equívoca das duas tinturas: uma recusa ser posta em movimento, a outra recusa encontrar um lugar onde se fixar.
    • Do mesmo modo, as monarquias absolutas representam o fechamento estéril e a matriz negada, enquanto revoluções como a francesa negam todo princípio formador e acabam por negar-se a si mesmas.
  • O vínculo solidário da cabeça e dos membros, que na sociedade espiritual e civil corresponde ao da monarquia e do federalismo ou republicanismo, não é sempre compreendido.
    • Separam-se radicalmente esses dois princípios, oprimindo ou aniquilando um por meio do outro.
    • A natureza profunda desse vínculo se esclarece ao captar a solidariedade entre superstição e incredulidade, servilismo e liberalismo.
    • Não se deve expulsar um dos dois polos por meio do outro.
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