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esoterismo:faivre:androginia-plano-natural

ANDROGINIA, NO PLANO NATURAL

FAIVRE, Antoine. Accès de l’ésotérisme occidental I. Paris: Gallimard, 1986.

  • A natureza original devia reproduzir o esquema ontológico e divino, sendo também andrógina, feita de uma corporeidade espiritual definida por duas forças, uma expansiva e outra que a continha, e a tintura feminina passiva, suave e úmida se abria espontaneamente à ação da força expansiva para apreendê-la e ao mesmo tempo ser por ela apreendida.
    • Nesse estado paradisíaco a tintura masculina ativa se manifestava como um fogo que aspirava a uma saída de si mesmo, uma busca da interioridade da outra tintura, uma elevação
    • Sair e se elevar precede e condiciona a entrada
    • Como no plano divino, é em termos de imaginação mágica que se deve apreender esse processo
  • A noção de andrógino, segundo Baader, só se compreende se se conhece a significação dada por Paracelso e Boehme a imaginação e a magia, pois para eles a imaginação é a raiz de toda produção, sendo o amor, o apetite e outras forças o primus motor creans.
    • A matriz indiferenciada, ou princípio de natureza, é receptividade passiva e inessencialidade mágica, mas por isso mesmo mãe potencial de todas as diferenciações
    • A Magia, potencialidade de todas as imagens, é aproximada por Baader da noção de magnetismo natural
    • Baader vê a matriz suscetível de infinitas cisões, distinções e divisões no desejo que sente de receber em si o princípio da forma e a realidade de todas as formas possíveis
  • A excitação ativa da imaginação do genitor, o princípio da forma, engravida essa matriz para se fazer conter em sua expansão produtora, a fim de não se dispersar, de se definir e de retornar a si no contorno da perfeição, e ao efetuar esse retorno sobre si mesmo tornou-se genitus, imago, e a magia, a inessencial Maja, tomou figura e tornou-se Sophia ou plenitude das imagens em sua essencialidade.
    • A Sophia, ou a natureza ideal, é o lugar no qual o genitor e o genitus se refletem e se ligam indissoluvelmente conservando sua distinção
  • Para compreender a natureza atual é preciso conhecer não apenas o que ensina o mito judeu-cristão da queda, notadamente a criação do universo pelo fato da queda de Lúcifer, mas também o mecanismo das relações que unem toda natureza a Deus.
    • Os filósofos ao estudar a palavra substância tendem a esquecer seu sentido etimológico de tenir sous, Unter-halt, ou seja, fundar ou fundamento
    • Um produtor só se equilibra com seu produto e se une a ele, sem se confundir com ele, ao entrar, como mãe, profundamente em seu produto, permanecendo ao mesmo tempo acima dele como pai
  • Baader observa, em um ensaio de 1834 sobre a relação solidária das ciências religiosas e das ciências naturais, que Spinoza foi muito valorizado mas que a noção de substância foi interpretada à sua sequência perdendo de vista a função de substanciação, e que o agente que me mantém e me sustenta se sacrifica em seu movimento em direção a mim.
    • Em sua saída de si mesmo, Entäusserung, o agente se coloca por amor abaixo de mim, descida materializante que me dá um suporte e me permite me elevar e existir
    • É preciso distinguir amor cadit e amor descendit
    • Para evitar esse erro é necessário completar a noção hegeliana de Aufhebung der Natur durch die Uebernatur por meio da noção de Erhebung dessa natureza
    • Assim como o artista doma sua matéria-prima para transfigurá-la
  • Em um curso de dogmática especulativa, Baader apresenta uma visão precisa de como concebe as relações entre Natureza e Espírito, cuja integração ou desintegração, entendendo-se por isso a separação, são sucessivas e recíprocas.
    • Toda descida, livre ou não, é desintegração, e toda ascensão é integração
    • O elemento uno, invisível e incriado, desce permanentemente na natureza, decompondo-se em quatro elementos, e ao subir se reintegra
    • A terra é o último patamar dessa descida desintegradora, ao mesmo tempo que o primeiro patamar da subida
    • A descida é uma excentração e a subida uma concentração
  • Há uma união da descida e da subida quando ambas chegam a se pôr graças a um meio mediador positivo, e por isso um ser caído na desintegração só pode dever sua restauração a um ser íntegro que, para descer em direção a ele e se ligar a ele, suspende a forma de sua integridade e se sacrifica a ele.
    • É sob o signo da androginia que se deve colocar a dualidade Natureza-Espírito
  • Em 1838, no curso de dogmática especulativa, Baader expressa essa relação em uma fórmula de estilo inspirado de Schelling mas como que para corrigir a filosofia da identidade: uma vez que a noção de Espírito exprime a de liberdade da Natureza e por isso mesmo significa o contrário da ausência de Natureza, o Espírito absoluto deve ser ao mesmo tempo a Natureza absoluta, e essa noção de identidade absoluta do Espírito e da Natureza em Deus coincide com a de identidade de liberdade e necessidade.
    • Baader não faz notar que em Boehme o Espírito absoluto, Ungrund, não é a Natureza, mesmo absoluta
    • Essa noção de identidade é estranha ao filósofo teutônico
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