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SI, CASAL, NATUREZA

FAIVRE, Antoine. Accès de l’ésotérisme occidental I. Paris: Gallimard, 1986.

  • Conhecer os vínculos que unem os seres uns aos outros e distinguir suas diversas naturezas é tarefa do pensador impregnado das ideias precedentes, pois há tendência a confundir os laços exteriores coercitivos (Bande) com os interiores e livres que aqueles têm por finalidade proteger (Bünde).
    • A natureza humana tem constantemente necessidade de ser libertada de um elemento antinatural que a aflige.
    • Assim como os governantes não devem reprimir nem evitar os movimentos revolucionários, mas fazer servir os elementos “evolucionários” que os acompanham por meio de uma sutil química ou arte da distinção (Scheidung), o mesmo vale para o tratamento do erro.
    • Separar não é suprimir, mas restituir ao justo lugar — tarefa a realizar sobre si mesmo, em relação aos semelhantes e à natureza.
    • O termo Verselbständigung, próximo da ideia junguiana de individuação, corresponde a um processo de identificação e busca constante do Si, que L. P. Xella vê realizar-se através da dialética quaternária.
    • Somente o amor perdoa, e o faz de bom grado porque a humildade e o arrependimento voltados para ele ajudam-no a desenvolver a riqueza e a plenitude de sua ternura.
    • O amor dado imediatamente é o amor “natural” no sentido paulino do primeiro homem criado, do qual o “Homem-Espírito” deve emergir suprimindo essa imediatidade e transformando-a (Aufhebung).
  • O aspecto dramático de todo amor humano é agravado pela significação ontológica da mulher, pois Eva é primeiramente o espaço exterior dado ao homem para que, encontrando um lugar onde se mover, não se precipite no nada da fuga para fora do centro.
    • Uma vez fixada em sua exterioridade, Eva representa o tempo dado ao homem para se regenerar à imagem do Filho de Deus; ela é o tempo da formação de sua semente, do qual ele não pode mais escapar sem se condenar à deformação definitiva e tornar-se presa do demônio.
    • Como parte feminina da separação, Eva representa o próprio lugar do espaço-tempo, o vínculo interior-exterior, partilhando parcialmente a condição demoníaca.
    • Cabe ao homem utilizar essa exterioridade para a salvação de ambos, submetendo-a, ou condenar-se submetendo-se a ela.
    • O amor só é produtivo, na reprodução temporal ou fora do tempo, produzindo energias (Kräfte) e não criaturas.
    • Pela segunda queda adâmica se deu por meio de Eva, e por Eva pode começar a reintegração.
    • A masculinidade e a feminilidade interiores abstratas, que se opõem egoisticamente ao amor, são a cruz que os amantes podem ajudar-se mutuamente a carregar.
    • A literatura poderia ocupar-se mais de descrever a guerra contra o diabo, inimigo do casamento e do amor porque é inimigo do renascimento — o que seria mais profundamente verdadeiro e mais poético do que o que romances e dramas geralmente apresentam.
  • O sacramento do casamento resulta da dimensão eterna da união, pois o que é puramente temporal não necessita de sacramento.
    • Para reconstruir a androginia perdida, o homem deve ajudar a mulher a libertar-se de sua feminilidade como incompletude, e a mulher deve fazer o mesmo pelo homem, para que em ambos renasça a imagem original total da humanidade.
    • O objetivo final é que deixem de ser semi-seres humanos, semi-seres selvagens (Wildheit, estado selvagem, significando o afastamento — Entfremdung — da vida divina), para tornarem-se cristãos, ou seja, seres renascidos que reencontraram a integridade de sua natureza humana.
  • É preciso chegar a que os dois seres constituam um único, de modo que cada um seja a metade do outro, o que exige que cada um se divida, saia de si e penetre no outro com uma metade de seu ser, abandonando a outra metade.
    • Baader representa essa ideia pelo esquema: cada amante sendo uma esfera em duas partes, A/B e a/b, o amor realizado será A/b e a/B, indicando a troca e a compenetração.
    • Como o amor não se realiza em duas unidades diferentes mas em um terceiro termo superior, o esquema do verdadeiro amor será AbaB.
    • A elevação recíproca que conduz ao que Baader aceitaria chamar de ovo alquímico só pode compreender-se como êxtase mediante a elevação comum dos dois amantes em um terceiro princípio superior, que os gregos personificavam em Eros.
    • O asceta que fez voto de castidade deve guardar-se de buscar de má maneira a restituição da imagem divina; mulheres que buscaram um rapport conjugal com Cristo buscaram o noivo celestial, e não o aniquilamento de seu desejo feminino, fazendo desaparecer o terceiro termo.
    • São Paulo (Gálatas III, 28) diz que em Cristo não há sexo masculino nem feminino — o terceiro termo que o casal pode possuir quando os dois parceiros estão ligados no mesmo Cristo.
    • Um homem pode abandonar sua masculinidade para tornar-se pai, uma mulher pode abandonar sua feminilidade para tornar-se mãe (virgo parturiens, Sara); a mulher solitária tem a possibilidade de engendrar mais filhos do que aquela que conheceu o homem.
  • A vida do casal é apenas secundariamente feita de trocas recíprocas; ela deve realizar principalmente uma “integração”, a da androginia, de modo que cada um dos dois parceiros se complete com a ajuda do outro e de um elemento superior, Sophia ou Idea, que fará sua morada em ambos.
    • “O homem como alma busca a imagem da mulher para sua imagem do homem, a mulher como alma busca a imagem do homem para sua imagem da mulher” — o que torna a dimensão sexual apenas secundária.
    • São Paulo diz em I Coríntios 11 que “no Senhor, nem o homem é sem a mulher, nem a mulher sem o homem” — mostrando o Senhor como restaurador e fundador da natureza andrógina perdida.
    • Na ressurreição, não é um homem e uma mulher colados um ao outro que formarão um ser humano completo; Aristófanes, segundo Baader, interpretou mal o andrógino platônico.
    • Daqueles que tiverem sido homens, o Cristo será a noiva, não unindo-se à sua masculinidade animal mas suspendendo-a (aufheben); dos que tiverem sido mulheres, será o noivo, suspendendo (aufheben) sua feminilidade animal.
  • O espaço e o tempo, tais como os percebemos, foram concebidos no espírito do homem a partir da união adúltera mágica com a bissexualidade, e nossa consciência deles resulta de uma formação bastarda que liga as duas tinturas numa conexão forçada.
    • Adão tomou consciência do espaço em sua primeira queda; o casal adâmico tomou consciência do tempo na segunda queda, agravamento da primeira.
    • A dissolução dessa conexão forçada nos devolve a liberdade da androginia e a verdadeira fecundidade, mas se acompanha de sofrimentos em virtude do princípio alquímico dolor ex solutione continui.
    • Toda produção humana no tempo tem o caráter do nascimento e da morte; é Begründung e Entgründung ao mesmo tempo.
    • O prazer do acasalamento, legítimo ou adúltero, só pode provocar um nascimento doloroso porque o genitus deve sempre matar sua possibilidade negativa: se é o Filho deverá matar o bastardo, ou, produto do demônio, tentará matar o Filho.
  • O universo em que estamos mergulhados é fundamentalmente ambíguo, e em suas profundezas ocultas é ainda mais “informe” e “repulsivo”.
    • A misericórdia de Deus dissimula esse aspecto revestindo-o de uma cobertura — a matéria — para que se veja uma aparência suportável.
    • Essa aparência, ou “Maja”, não é por si mesma nem verdade nem mentira.
    • Baader joga com a ideia de que schonen (“poupar”, no sentido de “preservar”) é aparentado a schön (“belo”): a beleza é querida por Deus na natureza para preservar nossos olhos e ocultar o abismo de forças caóticas ou o “carbono radical” por trás de uma face de luz.
    • Sem esse envoltório seríamos tomados de pavor e horror, assim como a epiderme que envolve a forma humana mais bela impede que ela se revele em sua verdade anatômica: “Non impune videbis!”
    • Assim como o amor produz astúcias, produz também a arte — Baader aproxima Lust e List (“desejo” e “astúcia”), Kunst e Gunst (“arte” e “favor”).
    • A natureza deve servir de degrau espiritual; a união de um homem e uma mulher edifica o corpo como andaime no interior do qual a personalidade divina andrógina pode crescer.
    • Do fato de que os braços são apenas o prolongamento das costelas pode-se inferir que a união andrógina se situa na região do peito.
    • A física natural, que carrega em si a marca da criação, nos faz passar sem solução de continuidade a uma física divina, um corpus spirituale à imagem de Deus.
    • Cultur é aproximado de cultus: culto, humanidade e cultura têm uma mesma fonte, como três formas de amor que aparecem e desaparecem ao mesmo tempo.
  • As relações do homem com a natureza são dramáticos porque se inscrevem no cenário do mito teosófico judaico-cristão, e Baader vê o motivo profundo da cultura humana no amor pela natureza — pela “terra-mãe”.
    • Em carta a Constantin von Löwenstein-Wertheim de 1828, Baader menciona que um certo von Schenk quis levar suas ideias sobre o amor ao palco, num drama que trataria sobretudo da “reconciliação”.
    • Baader atribui à mobilização técnica (Mobilisirung) da terra a causa de seu afastamento (Entfremdung) em relação a nós.
    • Ao perder a união indissolúvel com a terra, o homem abandona seu amor por ela e passa a ter com ela a mesma relação “racional” de um homem que se contentasse em ter com sua mulher trocas reduzidas a duas colunas, a do débito e a do crédito.
    • A matéria, dita incompressível, não é impenetrável à ação de uma substância superior; assim como o poder do amor não se expressa rompendo os obstáculos com violência, mas penetrando-os com um spiritus sutil na espera de tempos melhores.
  • A inércia e a gravitação não são senão um equilíbrio precário e uma organização provisória do universo devastado, e não há solução de continuidade entre a ética e a física.
    • A natureza não é simplesmente atravessada, sustentada ou desagregada por forças masculinas e femininas dissociadas; ela é também princípio feminino em relação ao homem — desejo consumante de ser preenchida por ele para carregar em seu seio o “bom filho”.
    • Como bem expôs L. P. Xella, a natureza é para o homem a matriz omnipotencial onde ele pode se expandir para retornar a si, dando-se ao mesmo tempo uma forma e reconciliando a natureza com o princípio divino da forma.
    • Por essa razão ela é profunda e radicalmente ambígua: ao recordar o pecado que a devastou, desperta em nós a nostalgia e a necessidade de uma união sagrada andrógina, mas ao mesmo tempo continua a nos tentar, de modo que hesitamos entre essa união sagrada e o adultério.
    • Ao contrário de Hegel, a natureza não é por si mesma a negatividade ou o mal, nem a queda da Ideia; é o homem que pode escolher gerar por meio dela o mal e o negativo.
    • A industrialização moderna usa a natureza como simples instrumento material, reduzindo-a a pura passividade e obrigando-a a negar sua masculinidade interior; o homem se condena assim à impotência e à procriação de bastardos que não se reconhecem nele e se revoltam contra ele.
    • A natureza violada é comparável a uma matéria refratária à criação artística; o homem acaba por aceitar subordinar-se ao princípio inferior que deveria ter elevado — de violador, condena-se a ser violado.
  • A arte faz parte da empresa de regeneração da natureza e é de origem celeste, devendo fazer aparecer a natureza eterna na natureza temporal.
    • Baader aprecia “a representação artística da transfiguração do corpo terrestre”, pois ela representa um “cessar de pesar e de ser tenebroso”.
    • Daí o erro de Rafael, que colocou sombra em seu quadro da transfiguração, tornando inquietante o personagem suspenso no ar.
    • Daí também o aproximação que se impõe entre Licht (luz) e leicht (leve).
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