CIÊNCIAS OCULTAS
FESTUGIÈRE, A. J. Hermétisme et mystique païenne. Paris: Aubier-Montaigne, 1967
Eis portanto os fatos. Por um lado, uma série de obras que se referem às ciências ocultas cujas primeiras (os escritos astrológicos) podem remontar até o século III a.C. Por outro lado, uma série de obras que se referem à filosofia e à teologia, que se pode datar, no conjunto, dos séculos II e III de nossa era.
Qual é o ponto comum entre estas diferentes sortes de textos? Ou, para dizer a coisa de outra forma, o que é portanto o hermetismo?
Pode-se tomar a palavra hermetismo em três sentidos bastante diversos cuja extensão e a compreensão progridem em sentido contrário.
Se, por hermetismo, se quer entender uma doutrina mais ou menos coerente, no caso uma doutrina de salvação, a palavra deve se aplicar apenas a um pequeno número das obras da segunda série: os tratados I, IV, VII e XIII do Corpus Hermeticum. É esta doutrina que eu exporei na próxima conferência.
Se, por hermetismo, se entende somente uma certa atitude de piedade, um certo jeito de espírito que consiste em desviar toda pesquisa filosófica no sentido da piedade e do conhecimento de Deus, a palavra pode se aplicar, de fato, à quase totalidade das obras da segunda série: que se trate do Corpus Hermeticum, do Asclepius, ou dos extratos de Stobeo, vê-se por toda parte uma mesma indiferença em relação aos problemas como tais — problema do tempo, do lugar, do vazio e do pleno, da sensação e da intelecção, da diferença entre a razão humana e o instinto dos animais, etc. — e, em contrapartida, uma mesma preocupação de fazer o debate culminar, qualquer que ele seja, em uma elevação moral e espiritual, em uma oração.
Se enfim se busca uma definição do hermetismo que se estenda a toda a literatura hermética, popular e erudita, neste caso não restam senão dois traços comuns: o fato de que toda esta literatura é uma literatura revelada, e revelada por Hermes Trismegisto. São estes últimos pontos que eu gostaria de estudar agora e cuja plena significação eu gostaria de mostrar.
Aqui ainda, além disso, é conveniente distinguir entre os dois hermetismos, o popular e o erudito, pois o próprio fato da revelação não tem um valor idêntico nos dois casos: no primeiro caso, trata-se de uma certa noção da ciência que se distingue radicalmente da noção da ciência tal como a tinha concebido o aristotelismo e mais geralmente o racionalismo grego; no segundo caso, trata-se de uma certa noção da religião ou, para melhor dizer, do conhecimento de Deus, que se o considere em si mesmo ou em suas relações com o mundo e o homem. Um traço todavia é comum ao próprio fato da revelação aqui e lá: que, de agora em diante, seja para compreender e ordenar os fenômenos, seja para conhecer e abordar Deus, se faça apelo não mais às démarches do único pensamento, ao único esforço da reflexão pessoal, mas a um oráculo divino, a uma revelação que se espera e que se obtém da divindade; que, em uma palavra, tanto para a ciência quanto para a vida espiritual, se tenha passado do plano da razão para o da crença, da fé, é um grande sinal da profunda revolução que se cumpriu nos espíritos e nas almas no fim da época helenística. E é isso que vale sobretudo a pena colocar em luz.
