esoterismo:festugiere:rht:rht3:alma-encarnada

André-Jean Festugière – Hermes Livro 3 Festugiere – Alma Encarnada

FESTUGIÈRE, A. J. La Révélation d'Hermès Trismégiste III. Livre III Les Doctrines de l'Âme. Livre IV Le Dieu Inconnu et la Gnose. Paris: Les Belles Lettres, 1990.

Estrutura e Tradição dos Manuais Helenísticos sobre a Alma
  • A análise da seção sobre a sorte da alma encarnada revela uma continuidade surpreendente na estrutura dos tratados antigos, onde a divisão temática encontrada no De Anima de Tertuliano, que aborda a escolha de vida na puberdade e posteriormente a morte e o sono, reflete uma tradição contínua presente também em Aecio e no tratado sobre a alma de Jamblico.
  • Esta mesma ordenação reaparece no Poimandres, o primeiro tratado do Corpus Hermeticum, onde, logo após a criação do homem, Deus profere a ordem de crescer e multiplicar, adicionando que aquele que possui intelecto deve reconhecer-se como imortal, estabelecendo assim uma divisão fundamental entre os seres humanos baseada no autoconhecimento e no amor pelo corpo ou pela imortalidade.
  • O texto hermético segue a ordem dos manuais helenísticos ao tratar primeiramente o que ocorre com a alma encarnada e sua escolha de vida, deixando para um momento posterior a discussão sobre a ascensão da alma após a morte, alinhando-se assim com a estrutura observada nos escritos de Aecio, Tertuliano e Jamblico, embora adapte estes temas à perspectiva dualista e gnostica onde a escolha de vida define o destino da alma.
A Escolha de Vida e a Distinção entre Moral Clássica e Gnose
  • O tema da escolha de vida, comum na literatura grega desde o mito de Hercules na encruzilhada relatado por Xenofonte até a via pitagórica e a Didache, serve como ponto de distinção crucial para diferenciar as morais clássicas das doutrinas de salvação, especificamente o cristianismo e a gnose.
  • As morais da antiguidade, representadas por Platão, Aristoteles, Epicuro e os Estoicos, têm como objetivo o viver bem (eu zen) e a felicidade, buscando realizar a excelência da natureza humana na terra, onde a imortalidade pessoal desempenha um papel secundario ou meramente consolidador de verdades validas para a vida presente.
  • Em contraste absoluto, as doutrinas de salvação, como ilustrado por Santo Agostinho, consideram que o viver bem é inútil se não conduzir ao viver sempre (semper vivere), deslocando o foco da realização terrena para a vida eterna com Deus; para o gnostico e o cristão, o problema único não é o fim ético neste mundo, mas compreender a razão da existência e o retorno à origem divina.
  • A diferença fundamental entre o cristianismo e a gnose é elucidada pela comparação entre a porta de salvação mencionada no Evangelho de João e nos escritos herméticos: para Agostinho e a tradição cristã, Jesus é a própria Porta e a salvação exige a passagem através dele, enquanto para o hermetista, o salvador é apenas um guia que conduz às portas da gnose, sendo a salvação alcançada pelo próprio conhecimento adquirido.
A Polêmica de Tertuliano sobre o Pecado e a Natureza da Alma
  • Tertuliano utiliza o tema tradicional da puberdade, situado por volta dos quatorze anos segundo Aecio e a tradição romana, para introduzir uma discussão teológica sobre o pecado, baseando-se na narrativa bíblica de Adão e Eva para associar o discernimento do bem e do mal ao surgimento do pudor e da concupiscência.
  • Ao atacar as heresias dualistas, Tertuliano argumenta que o corpo, sendo uma coisa inanimada e um mero utensílio como um copo, não pode ser culpado pelo pecado; ele insiste que a alma é a única responsável, pois é ela que utiliza o corpo como instrumento para realizar seus desejos, contrariando a visão gnostica de que a alma é pura e o corpo é a fonte do mal.
  • A interpretação de Waszink sobre a frase de Tertuliano de que não há propriedade humana no homem terreno (choicus) confirma que o autor cristão está combatendo a antropologia valentiniana das três classes de homens, reafirmando que o pecado é um ato da alma, que não é totalmente divina, mas criada e passível de erro, e não uma consequência inevitável da matéria.
  • Para os dualistas platônicos e gnosticos, o pecado reside essencialmente na matéria e na união do Anthropos divino com a natureza física, o que implica que a alma só se contamina por sua associação com o corpo; no entanto, a gnose liberta o homem dessa condição, pois o iniciado, ao reconhecer sua origem divina, sabe que seu verdadeiro eu não peca, atribuindo as falhas aparentes apenas ao corpo material do qual já se distanciou espiritualmente.
A Revelação Hermética e a Ignorância Fundamental
  • A doutrina hermética postula que a humanidade vive em um estado de embriaguez e ignorância de Deus, sendo esta ignorância (agnoia) considerada o vício capital e a mãe de todos os outros vícios, pois impede a alma de reconhecer sua própria divindade e a faz escrava de corpos estranhos e hostis.
  • A ignorância provoca um erro de julgamento fatal, levando os homens a considerarem o mal como bem e a se comprazerem em sua condição miserável, acreditando que a luz tenebrosa em que vivem é a verdadeira luz, o que exige uma conversão radical (metanoia) e a recepção de uma revelação para que possam retornar ao Pai.
  • A revelação é apresentada como uma graça divina, pois Deus deseja ser conhecido e se mostra visível aos seus, como indicado no tratado Asclepius e no Poimandres, onde a vontade de Deus em se revelar complementa a necessidade humana de iluminação para superar a corrupção fundamental da existência ignorante.
A Dinâmica da Escolha, a Fé e a Potência da Alma
  • A pregação da gnose divide a humanidade entre aqueles que zombam da mensagem e aqueles que se lançam aos pés do mestre buscando instrução, um tema literário que Norden associa tanto aos relatos evangelicos e aos Atos dos Apostolos quanto aos Oráculos Sibilinos, refletindo possivelmente reações históricas reais diante de pregações religiosas.
  • A dignidade (axios) necessária para receber a palavra não implica necessariamente uma predestinação fatalista, mas refere-se a uma disposição moral e à capacidade de ouvir; ser digno equivale a ser capaz (dynamene), o que envolve o exercício da vontade e a posse do intelecto.
  • A fé (pistis) no hermetismo é compreendida como um ato de inteligência superior e um exercício de poder espiritual, pois acreditar nas realidades invisíveis e divinas exige que a alma ative seu intelecto latente (nous), superando a descrença natural causada pelo apego às coisas visíveis; quem tem inteligência acredita, enquanto a incredulidade é sinal de falta de intelecto.
  • O ato de fé desencadeia um processo de fortalecimento divino, onde o iniciado recebe uma potência (dynamis) que o capacita a testemunhar a verdade, a pregar aos outros e a louvar a Deus; esta força é progressiva, culminando na regeneração completa onde o homem se torna divino e capaz de perceber a si mesmo no Intelecto supremo.
Consequências da Escolha: Proteção Divina versus Demônio Vingador
  • Para aquele que escolhe o caminho da piedade, o Intelecto (nous) atua como um bom demônio e um médico ou cirurgião da alma, guardando suas portas contra pensamentos malignos e amputando os prazeres que causam doenças espirituais, garantindo assim a saúde moral e a conexão contínua com Deus através de hinos e bênçãos.
  • Em oposição, o homem que rejeita o intelecto e permanece na ignorância é abandonado por Deus e entregue a um demônio vingador (timoros daimon), que não é apenas uma metáfora para os vícios internos, mas é descrito como uma força que tortura a alma com o fogo da concupiscência, incitando-a a cometer mais crimes para que sofra castigos ainda maiores, tanto na terra quanto após a morte.
  • A análise de textos como o tratado XII e o X do Corpus Hermeticum demonstra que o intelecto pode assumir funções opostas dependendo da disposição da alma: ele guia e protege os piedosos, mas coopera com as paixões dos impios, transformando-se em um instrumento de punição divina que flagela a alma através de seus próprios desejos insaciáveis.
esoterismo/festugiere/rht/rht3/alma-encarnada.txt · Last modified: by 127.0.0.1