esoterismo:festugiere:rht:rht4:hermetismo-existencia-essencia

André-Jean Festugière – Hermes Livro 4 Festugiere – Existência e Essência

FESTUGIÈRE, A. J. La Révélation d'Hermès Trismégiste III. Livre III Les Doctrines de l'Âme. Livre IV Le Dieu Inconnu et la Gnose. Paris: Les Belles Lettres, 1990.

Conceitos de existência e essência no Hermetismo e na filosofia helenística

  • A oposição entre hyparxis e ousia não se encontra estabelecida nos textos do hermetismo, onde o termo ousia designa frequentemente a Essência por excelência, o Deus ou o Intelecto proveniente de Deus, enquanto o adjetivo ousiodes caracteriza a parte intelectual e essencial do homem em contraste com a parte material e terrestre.
  • Nos tratados herméticos, a palavra hyparxis aparece com o sentido de substância ou realidade, chegando a designar a substância essencial e quase a forma das coisas, de modo que não há contradição em afirmar que o Bem se estende tanto quanto a realidade dos seres, ou que o Sol demiurgo envia a substância para baixo enquanto eleva a matéria.
  • A distinção rigorosa entre existência e essência desempenha, por outro lado, um papel central no pensamento de Filon de Alexandria, para quem Deus é cognoscível em sua existência, mas incognoscível em sua essência, uma doutrina fundamentada na limitação do intelecto humano que, incapaz de conhecer a própria alma, não pode pretender escrutar a Essência divina.
  • Filon interpreta a narrativa bíblica de Moisés entrando na nuvem e pedindo para ver a face de Deus como uma alegoria da busca filosófica pela Essência invisível e incorpórea, concluindo que ao homem é concedido apenas ver o que vem após o Ser, isto é, os corpos e objetos criados que provam a existência do Criador, mas não a sua natureza intrínseca.
  • O historiador Flavio Josefo apresenta um acordo doutrinário com Filon ao afirmar que Moisés revelou Deus como uno e imutável, cognoscível para nós através de seu poder ou dynamis, mas desconhecido quanto à sua natureza essencial ou ousia, sugerindo ainda que filósofos gregos como Pitágoras, Anaxágoras, Platão e os estoicos compartilhavam dessa mesma concepção.
  • A distinção entre conhecer a existência e ignorar a essência não é um empréstimo dos Setenta, mas um traço característico da filosofia helenística, encontrando paralelos em Cícero, que relata a divisão estoica da teologia em partes que tratam da existência dos deuses e de suas qualidades, embora o próprio Cícero e outros autores como Epicteto e Salustio defendam que tanto a existência quanto a natureza dos deuses são passíveis de conhecimento e aprendizado racional.
  • Existe uma vertente filosófica, representada pelo Pseudo-Xenofonte e comentada por Sexto Empírico, que sustenta que embora o consenso universal e as obras divinas atestem que os deuses existem, sua forma e essência permanecem ocultas aos homens, comparando a divindade ao Sol que, embora visível e brilhante, cega a visão daquele que tenta contemplá-lo com impudência.
  • A investigação filológica do termo hyparxis indica que seu uso com o significado estrito de existência ou realidade aparece tardiamente, sendo registrado em Filodemo, embora os adjetivos hyparktos e anuparktos, denotando o existente e o inexistente, já fossem empregados na terminologia filosófica de Epicuro e de Crisipo na Stoa, o que pressupõe o conceito muito antes de sua fixação textual definitiva.
  • A origem teórica da distinção remonta aos Segundos Analíticos de Aristóteles, que diferencia as questões sobre o fato e o porquê das questões sobre se a coisa é, o ei esti, e o que a coisa é, o ti esti, utilizando os exemplos do Centauro e de Deus para ilustrar a passagem do conhecimento da existência para a indagação da essência.
  • A antítese entre a existência manifesta e a essência oculta deriva provavelmente de problemas escolares debatidos em Atenas desde o século V, sendo formulada por Xenofonte nos Memoráveis através da imagem de um Deus que ordena o mundo de forma invisível, tal como a alma humana rege o corpo sem ser vista.
  • A aparente contradição entre as tradições que afirmam a invisibilidade de Deus e aquelas que defendem sua visibilidade resolve-se na compreensão de que Deus é invisível em sua eternidade e essência, mas torna-se o mais manifesto de todos os seres através de sua atividade criadora, sendo contemplado pelo intelecto na medida em que se revela através de todas as coisas.
  • Damascius, no contexto do neoplatonismo, refinaria posteriormente essa terminologia ao considerar a hyparxis como a infraestrutura simples ou a aparição no ser, enquanto a ousia representaria a confirmação no ser e a realidade perfeita na existência.
esoterismo/festugiere/rht/rht4/hermetismo-existencia-essencia.txt · Last modified: by 127.0.0.1