Festugiere Transcendencia Divino
FESTUGIÈRE, A. J. La Révélation d'Hermès Trismégiste III. Livre III Les Doctrines de l'Âme. Livre IV Le Dieu Inconnu et la Gnose. Paris: Les Belles Lettres, 1990.
André-Jean Festugière – Hermes Livro 4 Festugiere – Transcendência Divina
- A difusão da doutrina da transcendência no platonismo do século II
- É possível demonstrar que a doutrina de um Primeiro Princípio inefável, já presente em Platão, não era ignorada no século II da nossa era, sendo acessível tanto pela leitura direta de obras como O Banquete, O Parmenides e as Cartas, quanto através de antologias e do ensino oral da Escola platônica da época.
- O testemunho de Origenes, em sua obra contra Celso, confirma que, embora Platão fosse lido predominantemente por círculos cultos e letrados, ao contrário dos estoicos que atingiam o vulgo, a teologia cristã não derivava de uma interpretação errônea das Cartas de Platão, evidenciando que textos fundamentais como a Carta VII eram conhecidos e utilizados em debates teológicos.
- A leitura de diálogos como O Banquete era incentivada pelo gosto da época pela erótica e pelo gênero literário do simpósio, enquanto O Parmenides era estudado nas escolas como exercício dialético, e a figura de Socrates despertava interesse tanto em platônicos quanto em estoicos, facilitando a disseminação de conceitos sobre a divindade e os daimons.
- A teologia de Albinus e as vias de conhecimento de Deus
- No Didaskalikos, Albinus discorre sobre o terceiro princípio, que Platão quase considera inefável, e propõe que o conhecimento de Deus pode ser alcançado por três vias metódicas: a indução ou via de eminência, a via de analogia e a via de abstração ou negação.
- A via de eminência argumenta que, se existem inteligíveis, deve haver Inteligíveis Primeiros absolutos, e que acima do intelecto em potência e do intelecto em ato deve existir uma Causa superior, o Primeiro Deus, que move o intelecto do céu permanecendo imóvel, tal como o objeto de desejo move o desejo.
- Albinus atribui a Deus epítetos de perfeição, definindo-o como eterno, inefável, autossuficiente e completo, identificando-o simultaneamente como o Bem, o Belo e a Verdade; contudo, pela via negativa, Deus é descrito como sem gênero, sem espécie, sem diferença, sem acidentes, incorpóreo e sem partes, pois qualquer composição implicaria anterioridade e imperfeição.
- A concordância doutrinária em Apuleius
- Apuleius de Madaura, em obras como a Apologia, De Deo Socratis e De Platone, apresenta uma doutrina teológica consistente e alinhada à tradição escolar, descrevendo Deus como o Rei supremo, causa e razão da natureza, livre de qualquer encargo ou paixão, e cuja majestade excede a capacidade da linguagem humana, tornando-o inefável e inominável.
A análise comparativa dos textos de Apuleius revela uma estrutura comum onde Deus é apresentado primeiramente como criador e preservador do mundo, operando sem fadiga ou contato direto, e secundariamente como um ser que escapa a todas as limitações de tempo, espaço e função, sendo caracterizado por termos negativos como incircunscrito ou aperimetros*.
- Ainda que Apuleius utilize retórica variada dependendo do gênero literário, a essência de sua teologia reafirma o dogma da incompreensibilidade divina, derivado de passagens clássicas como o Timeu, e sugere que a doutrina de Deus como pai do intelecto já era familiar na escola platônica daquele período.
- A ascensão ao divino segundo Maximos de Tiro
- Maximos de Tiro articula a existência de um Deus único, Rei e Pai, coadjuvado por deuses secundários, fundamentando-se no consenso universal e na observação da ordem cósmica, que leva a alma a intuir a existência de um Artífice divino.
- A natureza de Deus é difícil de rastrear, exigindo que o raciocínio se eleve acima da alma até uma atalaia espiritual; Maximos utiliza a via de eminência para hierarquizar os seres, do inanimado ao animado e do racional ao intelectual, situando Deus no cume como um Intelecto que pensa todas as coisas simultaneamente e reside numa estabilidade imutável.
- Para alcançar a visão de Deus, Maximos prescreve um fechamento total aos sentidos e uma ascensão através do logos puro e do amor robusto, ultrapassando os céus até o lugar da verdade, onde Deus não é identificado com nenhuma beleza particular, mas reconhecido como a fonte eterna de onde emana toda a beleza, exigindo um despojamento de todas as roupagens materiais e conceituais.
- O platonismo ortodoxo de Celso e as três vias metodológicas
- Em seu Discurso Verdadeiro, Celso expõe uma teologia platônica rigorosa onde Deus não participa de forma, cor, movimento ou substância, e não pode ser atingido pela linguagem ou nomeado, estando acima de qualquer acidente e essência.
- Celso descreve o acesso a Deus através de três métodos que os sábios encontraram: a síntese, que corresponde à via de eminência ao unificar opostos sob uma noção superior; a análise, que corresponde à via negativa ou de separação; e a analogia, exemplificada pela comparação entre o sol no mundo visível e Deus no mundo inteligível.
- Contrariando a interpretação de Origenes, que via nessas vias apenas operações matemáticas, a síntese de Celso refere-se à ascensão dialética que compõe os elementos para chegar ao Uno que a tudo domina, enquanto a análise opera o despojamento necessário para conceber o Primeiro Princípio.
- A distinção radical entre o Primeiro e o Segundo Deus em Numenios
- Numenios de Apameia, na obra Sobre o Bem, estabelece uma distinção clara entre o Primeiro Deus, que é o Bem em si, o Ser puro e o Intelecto estático, e o Segundo Deus, o Demiurgo, que é responsável pela geração e que se move através da matéria.
O Primeiro Deus é caracterizado pela simplicidade, indivisibilidade e estabilidade (estos), sendo inativo (argos) em relação às obras da criação, função que recai sobre o Demiurgo; essa teologia resulta de uma fusão entre elementos platônicos e aristotélicos, onde o Primeiro Deus é assimilado ao Ser e ao Bem, mas descrito com atributos intelectuais.
- Apesar de ser descrito como totalmente desconhecido para a maioria, o Primeiro Deus pode ser alcançado por uma intuição súbita e rara, comparável a avistar um pequeno barco solitário no oceano; Numenios rejeita a ideia de que tal conhecimento venha de revelações orientais, insistindo numa metodologia estritamente platônica de afastamento dos sentidos e purificação matemática para contemplar o Uno em sua solidão inefável.
- A intuição mística nos Oráculos Caldeus
- Os Oráculos Caldeus, em concordância com Numenios, apresentam o Primeiro Deus como um inteligível que deve ser captado não pelo intelecto discursivo, mas pela flor da mente, uma faculdade intuitiva que transcende a razão comum.
- A teologia dos Oráculos distingue entre o conhecimento que tenta definir Deus como uma essência determinada, o que é impossível e ineficaz, e o conhecimento por esvaziamento, onde o intelecto se torna vácuo para se unir ao inefável, superando a dualidade sujeito-objeto.
- Comentadores como Proclus e Damascius utilizam os Oráculos para defender que a verdadeira gnose de Deus não o circunscreve nem o limita, mas exige que a alma se revista da luz divina e se abstenha de projetar formas finitas sobre o Infinito.
- Síntese das correntes teológicas do século II
- O panorama do platonismo do século II revela a coexistência de duas concepções teológicas fundamentais: uma que vê Deus como Causa e Excelência, cognoscível por analogia e eminência (via racional), e outra que o define como inefável, inominável e acessível apenas pela via negativa e pela união supraracional.
A aparente contradição entre um Deus inteligível (noeton) e um Deus incognoscível resolve-se na ambiguidade do termo nous* na tradição platônica, que designa tanto o intelecto discursivo quanto a faculdade de intuição mística necessária para tocar o divino que está além da razão e da essência.
- A insistência na via negativa e na transcendência absoluta, encontrada em Numenios e nos Oráculos, não deve ser atribuída a influências orientais exógenas, mas compreendida como o desenvolvimento de potencialidades místicas inerentes ao próprio platonismo, acentuadas num período de declínio do racionalismo clássico.
