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André-Jean Festugière – Hermes Livro 4 Festugiere – Dossier Hermetica
FESTUGIÈRE, A. J. La Révélation d'Hermès Trismégiste III. Livre III Les Doctrines de l'Âme. Livre IV Le Dieu Inconnu et la Gnose. Paris: Les Belles Lettres, 1990.
A Cognoscibilidade e a Vontade Divina
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A premissa fundamental estabelece que Deus é santo, conhecível e deseja ser conhecido, sendo percebido pelos seus caracteres próprios, ou seja, concebido através dos efeitos de sua potência e operação, embora sua essência permaneça desconhecida, conforme corroboram as interpretações de Josefo e os textos herméticos que descrevem o nous instruindo o discípulo sobre a natureza suprema.
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Apesar de Deus se revelar e querer ser conhecido, existe um paradoxo onde Ele é simultaneamente cognoscível e indizível, o que implica que o conhecimento adquirido sobre o divino opera em um modo distinto da razão normal, exigindo auxílio e graça divina para que o homem não seja frustrado na parte do conhecimento que cabe à sua essência, o que denota um caráter suprarracional dessa gnose.
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Identificam-se duas correntes no hermetismo sobre a via de acesso ao conhecimento divino: a doutrina do Deus cósmico, na qual a visão do mundo e da ordem criada permite deduzir facilmente a existência de uma Causa Eficiente que é o Bem e o Pai; e a doutrina dualista, na qual o conhecimento é árduo, pois o corpo é considerado mau e o Deus Suprêmo não possui imagem no mundo sensível, exigindo uma iluminação interior ou revelação para ser alcançado.
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Na perspectiva dualista, defendida por Reitzenstein como gnostica, a ignorância é expulsa pela chegada da Gnosis de Deus, uma regeneração onde os vícios da matéria são substituídos pelas Potências divinas, permitindo que o intelecto humano se conheça a si mesmo e ao Pai comum através de uma luz intelectual concedida pela graça.
A Invisibilidade e a Manifestação do Divino
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Postula-se como lugar-comum filosófico que Deus, sendo incorporeal, é invisível, mas essa invisibilidade bifurca-se em duas concepções: a do Deus demiurgo que, embora invisível em si mesmo, torna-se visível na criação, e a do Deus Inteligível que permanece totalmente invisível e irrepresentável pela criação.
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No contexto do Deus demiurgo, afirma-se que a criação é o corpo de Deus, não tangível ou mensurável, e que Ele criou todas as coisas precisamente para se fazer ver através delas, estabelecendo o paradoxo de que o Ser mais invisível é também o mais manifesto, pois enquanto o intelecto humano é percebido no ato de pensar, Deus é percebido no ato de criar.
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Em contraste, a corrente do Deus Inteligível ou hipercosmico sustenta que o Bem é invisível aos olhos físicos e não possui forma ou figura, sendo dessemelhante de tudo o que é corpóreo; portanto, só pode ser contemplado pelo nous e pelo coração, exigindo que o indivíduo se afaste das conversas fúteis do mundo e se eleve pelo pensamento para captar o incorpóreo.
As Denominações e a Natureza do Bem
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Considerando que Deus possui uma natureza ou essência passível de noção, Ele é suscetível de apelações como Deus, Pai e Criador, formando uma trilogia essencial onde Ele é Pai devido à sua operação criadora e Deus devido à sua potência, sendo que o título de Pai está intrinsecamente ligado à sua função de gerar e ordenar o cosmos.
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A designação de Bem é atribuída exclusivamente a Deus por natureza, enquanto aos outros seres, incluindo deuses imortais, o termo é aplicado apenas como marca de honra, estabelecendo-se um dualismo onde o Bem absoluto não encontra lugar no mundo engendrado e material, salvo por uma participação secundária na função de produzir.
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Nota-se uma tensão doutrinária onde, por vezes, afirma-se que apenas Deus é bom, e em outros momentos sugere-se que a amplitude do Bem é coextensiva à realidade de todos os seres; contudo, a doutrina corrige-se ao especificar que a bondade do mundo é apenas uma participação derivada da função criadora, diferindo do Bem que é a própria substância e vontade de Deus.
A Pantonímia e a Anonímia Divina
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A polionímia ou pantonímia de Deus justifica-se pelo fato de Ele ser o Todo e a origem de tudo, o que leva à conclusão de que Ele possui todos os nomes visto que todas as coisas provêm desse Pai único, uma ideia presente tanto no hermetismo quanto em estoicos como Sêneca, que identifica Deus com a totalidade visível e invisível.
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Dialeticamente, o fato de possuir todos os nomes implica que Deus não possui nome algum (anonymos), pois sendo o Pai de tudo e a totalidade, nenhuma denominação específica pode defini-lo ou limitá-lo, o que o coloca acima de qualquer nome, conforme observado também por Lactancio.
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As fórmulas litúrgicas e hínicas analisadas por Norden, e comparadas com textos de Zosimo, do Kerygma Petrou, de Gregorio de Nazianzo e de Sinesio, demonstram o uso frequente de antíteses rítmicas para expressar essa natureza paradoxal de Deus que é simultaneamente Um e Tudo, visível e oculto, contendo todas as coisas sem ser contido por elas.
A Incompreensibilidade e a Infinitude
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Deus é qualificado como anousiastos, termo que, diferentemente do sentido privativo de inexistência usado pelos neoplatônicos como Proclo e Siriano, indica no contexto hermético que Deus está além da substância definida, transcendendo a categoria de essência determinada.
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A incompreensibilidade (akatalepsia) de Deus decorre de sua natureza infinita e ilimitada; Ele não é circunscrito por nada, mas circunscreve e abraça todas as coisas, uma noção de Limite ilimitado que remonta à análise do tempo e do movimento no De Caelo de Aristóteles e que é aplicada teologicamente para descrever o Intelecto divino que contém o universo.
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A metáfora do círculo sem começo nem fim e a velocidade do pensamento servem para ilustrar a onipresença e a onipotência do Intelecto divino, que é mais rápido e poderoso que qualquer elemento material, permeando e sustentando a totalidade do real.
A Inefabilidade e a Via da Negação
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Sendo infinito e incompreensível, Deus é consequentemente inefável (arretos), não podendo ser expresso pela linguagem humana, uma tradição que remonta a Platão e é confirmada por Clemente de Alexandria ao citar Teodoto sobre o silêncio da Mãe diante do Inefável; o verdadeiro conhecimento de Deus culmina, portanto, no silêncio místico e na inibição dos sentidos.
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A transcendência absoluta de Deus é expressa através do conceito de hyperoche, indicando que Ele está acima de toda potência, preeminência e louvor, uma terminologia que antecipa o rigor técnico de Proclo sobre a transcendência unitiva e imiscível do divino.
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A teologia negativa apresenta-se como o método final para abordar o divino, definindo Deus não pelo que Ele é, mas pelo que Ele não é (não é intelecto, mas causa do intelecto; não é luz, mas causa da luz), afirmando-o como o princípio causal que transcende todas as categorias ontológicas que dele emanam.
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