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André-Jean Festugière – Hermes Livro 4 Festugiere – A TRANSCENDÊNCIA DO UNO-BEM-BELO EM PLATÃO

FESTUGIÈRE, A. J. La Révélation d'Hermès Trismégiste III. Livre III Les Doctrines de l'Âme. Livre IV Le Dieu Inconnu et la Gnose. Paris: Les Belles Lettres, 1990.

A Transcendência e a Incognoscibilidade do Princípio Supremo

  • A teologia presente nos Hermetica estabelece que o Deus hipercósmico é invisível, incompreensível por ser infinito e, consequentemente, indefinível e indizível, situando-se acima da ousia e sendo absolutamente transcendente, de modo que só pode ser alcançado pela via da negação ou através de uma intuição suprarracional no silêncio e recolhimento.
    • Esta doutrina pode ser sistematizada em quatro pontos fundamentais: Deus está subtraído ao conhecimento sensível; Deus está subtraído ao conhecimento racional que opera por definição de essência e denominação; Deus não é cognoscível positivamente, permitindo apenas dizer o que ele não é; e, finalmente, Deus é suscetível apenas de um conhecimento místico.
  • Ao confrontar estas proposições com a filosofia de Platão, especificamente no Banquete, observa-se que o acesso à Beleza suprema exige uma ascensão gradual através dos belos objetos até que, no termo da ciência amorosa, se vislumbra subitamente uma Beleza de natureza maravilhosa, eterna, que não nasce nem perece, não cresce nem decresce, e que não é relativa a perspectivas, tempos ou lugares, existindo em si mesma e por si mesma como forma única. Esta Beleza absoluta distingue-se por não se apresentar sob formas corpóreas como rosto ou mãos, não residir em qualquer outro sujeito, seja na terra ou no céu, e fundamentalmente não admitir definição ou ciência discursiva, o que implica, através do método de negação, que este Primeiro Princípio não está reduzido a uma ousia particular, visto que em Platão existe uma relação intrínseca entre essência, definição (logos) e nome.

  • A correlação necessária entre ousia, logos e onoma é evidenciada em diálogos como o Sofista e as Leis, onde Platão argumenta que a compreensão verdadeira de um objeto não se satisfaz com o simples acordo sobre o nome, mas exige a apreensão da definição da essência, sendo que para cada ente deve-se considerar a essência, a definição desta essência e o nome, como ilustrado pelo exemplo do número par ou da alma definida como movimento capaz de mover-se a si mesmo. Na Carta VII*, esta epistemologia é expandida para cinco elementos necessários ao conhecimento: o nome, a definição composta de substantivos e verbos, a imagem desenhada ou fabricada, a ciência (ou inteligência e opinião verdadeira) e, por fim, o objeto em si mesmo cognoscível e real, sendo impossível obter a ciência perfeita do quinto termo sem dominar os quatro anteriores.

  • A tradição escolar greco-romana e platônica consolidou a noção de que aquilo que não é circunscrito em uma essência particular, nem determinado por um logos, nem suscetível de um onoma, é consequentemente desconhecido (agnostos), lógica que Cícero admite como evidente e que o platônico Numenio aplica tecnicamente à matéria e, por extensão teológica, a Deus: se é infinito, é indeterminado; se é indeterminado, é irracional (sem logos); e se é sem logos, é incognoscível.
  • O Parmenides de Platão radicaliza esta teologia negativa ao demonstrar, na hipótese sobre a existência do Um, que se o Um é absolutamente simples e sem partes, ele é ilimitado, sem figura, sem lugar e sem movimento, não participando da ousia e, por conseguinte, não possuindo nome, definição, ciência, sensação ou opinião, reforçando as negações do Banquete ao excluir explicitamente qualquer forma de conhecimento, seja demonstrativo, conjectural ou sensível. A sequência lógica estabelecida no Parmenides* confirma que a ausência de existência e essência no Um acarreta a impossibilidade de definição e denominação, o que o torna algo que escapa a qualquer espécie de cognição, estabelecendo uma concordância doutrinária com a via negativa descrita nos textos herméticos.

  • A inefabilidade do objeto supremo é dramaticamente afirmada por Platão na Carta VII, onde o filósofo declara que não há nem nunca haverá escrito seu sobre a matéria de seu esforço máximo, pois ela não é exprimível por palavras como as outras ciências, mas surge na alma subitamente, como uma luz que se acende de uma centelha, após um longo convívio e vida em comum com o objeto. A debilidade dos quatro fatores do conhecimento (nome, definição, imagem, ciência) reside no fato de que eles expressam tanto a essência quanto as qualidades acidentais, sendo os nomes instáveis e as definições compostas por nomes igualmente instáveis, enquanto as imagens sensíveis, como um círculo desenhado, estão contaminadas por naturezas opostas, como a linha reta, o que torna a linguagem inadequada para manifestar o ser verdadeiro (to on) sem equívocos.

  • A afirmação de Platão de que nada escreveu sobre o objeto de seus esforços deve ser interpretada não como ironia, mas como a constatação de um contemplativo de que o Princípio Supremo — seja denominado Bem, Belo ou Um — está além da essência (epekeina tes ousias) e, portanto, transcende qualquer sistema de conceitos lógicos definíveis e comunicáveis, sendo acessível apenas por uma intuição mística após o esgotamento dos meios discursivos.
  • Existe um paralelo histórico e espiritual notável entre a atitude final de Platão e a de Tomas de Aquino, pois ambos, após uma vida inteira dedicada ao ensino e à escrita, confrontaram-se com a inefabilidade do divino; Tomas, após uma experiência de êxtase em San Severino, suspendeu sua escrita teológica declarando que tudo o que havia escrito lhe parecia insignificante diante do que lhe fora revelado, confirmando a tese de que Deus é, em última instância, inefável (arrhetos), irracional (alogos) e desconhecido (agnostos).
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