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2.2 Como brinca com o pião

História do Diabo

  • Nossas considerações iniciais ultrapassaram a situação inicial do nascimento do Diabo, que já começou sua queda em direção ao primeiro pecado, identificado como a luxúria e, consequentemente, a vida, sendo a cosmogonia moderna um relato, talvez inconsciente de seu caráter diabólico, sobre o caminho desta queda, que sugere que o Céu e a Terra não surgiram juntos, mas que a Terra se condensou a partir dos céus.
  • A existencialização das abstrações matemáticas da cosmogonia moderna, traduzidas para a linguagem deste livro, propõe a imagem de que, “no princípio,” “os céus” serviram de pião ao Diabo durante sua queda, possuindo dimensão zero e peso infinito, tendo o Diabo chicoteado este pião para fazê-lo girar intensamente, o que provocou sua desintegração em milhões de pedaços de dimensões gigantescas, mas de peso limitado.
  • A corrida desgovernada destes pedaços desintegrados continua até o presente, fugindo furiosamente uns dos outros e de seu centro abandonado, desintegrando-se em sub-peões, sendo a Mãe Terra apenas um pequeno fragmento deste pião original.
  • A rotação diabólica causada pelo chicote inicial mantém-se em um impulso constante, animando todos os pedaços em sua fuga, onde as peças maiores (as nebulosas espirais) continuam a girar e a se afastar umas das outras e de seu centro, em direção ao vazio, correndo de zero a zero, como um brinquedo apropriado ao Diabo.
  • Durante esta corrida do nada para o nada, as peças transformam massa em energia, tornando-se cada vez “maiores” e “mais leves”, de modo que o universo inteiro se expande e perde peso, progredindo de um estado de céus infinitamente pequenos e infinitamente pesados no começo da explosão para céus infinitamente grandes e infinitamente leves no seu final, com o estágio intermediário atual sendo um mundo de dimensões e peso infinitos, mas apreensíveis.
  • O mito da cosmogonia moderna, quando interpretado da perspectiva do exército celestial e de outros “seres como tais,” é visto como ilusório e sem relação com a realidade, pois o mundo fenomênico não é real, sendo suas fases aparentes também irreais, e o estágio intermediário a fantasmagoria do Diabo.
  • No entanto, na perspectiva diabólica, este mito é uma história maravilhosa que narra a emergência da realidade, contando como as coisas emergem do nada, onde nebulosas, estrelas, planetas e luas são produtos de uma atividade criativa ex nihilo, ou seja, obras que, sendo do Diabo, manifestam um caráter explosivo e violento.
  • O caráter catastrófico e infernal dos céus é apenas um aspecto da obra de arte de infância do Diabo (o céu estrelado), o qual é compensado pela harmonia da rotação do pião, com os corpos celestes seguindo círculos, elipses e parábolas de beleza cristalina, consequências perfeitas da rotação primordial.
  • Esta obra ilustra a primeira tensão dialética do caráter do Diabo: a brutalidade (catástrofe) que torna possível o esteticismo (a beleza das esferas), demonstrando que uma catástrofe brutal viabiliza a beleza das esferas.
  • Estas esferas, por sua vez, corpos aparentemente bem-comportados, são as condições para uma nova catástrofe: o surgimento violento da vida, confirmando que o Diabo é um criminoso para ser um artista, e é um artista para ser um criminoso, criando leis para quebrá-las e quebrando leis para criar novas.
  • A tradição ocidental louva a harmonia das esferas como obra Divina, o que deve ser atribuído ao Diabo neste argumento, pois o que se admira no céu estrelado não é sua ordem, mas sua duração gigantesca, confundindo-se esta relativa eternidade com o Divino.
  • Esta confusão é um mal-entendido, pois os corpos celestes são fenômenos temporais e imperpetua mobilia (móveis não perpétuos), comparáveis às máquinas produzidas pela tecnologia humana, sendo o céu estrelado, se reduzido a dimensões e duração, um exemplo semelhante aos aparatos tecnológicos, com a ressalva de que as máquinas humanas geralmente operam com maior precisão (fato verificado por astrônomos com um leve sorriso).
  • Seria blasfêmia atribuir esta máquina imperfeita ao Criador Divino, tal como se poderia atribuir a Ele as máquinas humanas destinadas a produzir instrumentos e mortes, concluindo-se que a gigantesca máquina de corpos celestes é obra do Diabo, e o parque industrial humano é sua prole tardia.
  • Os aparatos humanos são cópias aperfeiçoadas do padrão diabólico que aparece no céu, sendo cópias mais refinadas por serem produto do esforço criativo de um Diabo mais maduro.
  • Newton, o descobridor provisório da estrutura da máquina celeste (expressável em proposições matemáticas simples), atribuiu a autonomia da máquina a Deus, ao declarar “Deus é um matemático”.
  • O autor da máquina celeste é um matemático talentoso, mas imperfeito, no qual se reconhece o jovem Diabo brincando com seu pião.
  • A descoberta de uma estrutura matemática nos fenômenos astronômicos recompensa o espírito de pesquisa humano, permitindo o reconhecimento nas estrelas de um espírito similar ao nosso: o pequeno Diabo que inspira as mentes pesquisadoras, tornando a contemplação do céu estrelado um tipo de autorreconhecimento.
  • A atração exercida pelas estrelas se explica também pelo fato de que o esboço newtoniano da estrutura celeste está sendo superado, e a humanidade começa a se convencer da capacidade de construir uma máquina celeste mais perfeita.
  • As tentativas humanas neste sentido (satélites artificiais e mísseis guiados) são os primeiros sintomas de que o pequeno Diabo no interior humano cresceu e busca, através dos humanos, retificar os atos cometidos em sua infância.
  • Há uma diferença fundamental entre a máquina celeste e os aparatos humanos: as máquinas humanas são produtos da vida, com um propósito, deveres a cumprir e tarefas a executar (caráter intencional e entelequial), o que será tratado no tema da luxúria.
  • O mundo inorgânico é inconsciente de propósitos, e o termo “propósito” soa falso nele, sendo chamado “inorgânico” por falta de propósito, por ser completamente inútil.
  • Enquanto no reino da vida os órgãos e seres têm utilidade mútua (o fígado serve para manter o corpo vivo, a mosca para manter a aranha viva, e todos os animais e plantas servem para manter o homem vivo), Marte é inútil para o sol ou para Vênus, não servindo para nada.
  • A máquina celeste, sendo inteiramente inútil, é um exemplo perfeito de l'art pour l'art, uma obra de “arte abstrata”, e seu criador, o Diabo, é um artista puro.
  • Uma alternativa é considerar a máquina celeste como condição para a vida, um instrumento concebido para produzir vida na Terra, o que a tornaria um “fraldário gigantesco e desnecessariamente complexo” (a famosa montanha que dá à luz a um rato), transformando o Diabo de artista puro no pai da vida, um ponto que será clarificado em argumentos futuros.
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