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Arte da Medicina

Paracelsus. Selected Writings. Ed. Jolande Jacobi. Princeton: Princeton University Press, 1973

  • A medicina deve estar fundamentada na verdade e não em jogos de palavras, sendo o médico um servo da natureza e não seu mestre, cabendo à medicina seguir a vontade da natureza.
  • A origem do médico e de sua experiência é a natureza, pois “apenas aquele que recebe sua experiência da natureza é um médico, e não aquele que escreve, fala e age com sua cabeça e com raciocínios dirigidos contra a natureza e seus caminhos”.
  • A necessidade de o médico basear sua fé na luz racional da natureza e nela trabalhar, pois “Cristo quer que você tire sua fé do conhecimento e não que viva sem conhecimento”, e Deus deu a cada homem a luz que lhe era devida.
  • A aquisição da verdade filosófica proveniente diretamente da natureza, que ensina sem palavras ociosas, pois “assim como Cristo ofereceu sua pessoa aos nossos olhos, assim temos professores pessoais na natureza… Eles nascem através do ver e tocar, e não através do não ver, pois ver e tocar geram a verdade”.
  • O papel do médico como aquele que pode agravar ou melhorar o curso de uma doença, sendo a natureza a melhor professora, pois “a arte de curar vem da natureza, não do médico”, e “em uma única erva há mais virtude e força do que em todos os fólios que são lidos nas altas faculdades”.
  • A importância do conhecimento experiencial, onde “seus pacientes devem ser seu livro, eles nunca o desviarão”, e “aquele que se contenta com meras letras é como um morto”, pois a teoria médica não pode ser aprendida apenas da própria cabeça, mas “apenas daquilo que seus olhos veem e seus dedos tocam”.
  • A indissociabilidade entre teoria e prática, que “deveriam juntas formar uma unidade e permanecer indivisas”, repousando ambas na experiência, pois “a prática não deve ser baseada em teoria especulativa; a teoria deve ser derivada da prática”, e “a experiência é a juíza; se uma coisa resiste ao teste da experiência, deve ser aceita; se não resiste a este teste, deve ser rejeitada”.
  • O uso correto dos experimentos como armas, cada um com sua função específica, requerendo um homem experiente que saiba aplicá-los e dominá-los de acordo com sua natureza.

AS QUALIFICAÇÕES DE UM BOM CIRURGIÃO

  • Quanto ao temperamento inato:
    • A necessidade de uma consciência limpa, desejo de aprender, coração gentil, espírito alegre, vida moral e sobriedade, maior consideração pela honra do que pelo dinheiro, e maior interesse em ser útil ao paciente do que a si mesmo.
    • A lista de proibições, incluindo não ser casado com um fanático, não ser um monge fugitivo, não praticar autoflagelação, não ter barba ruiva, não agir sem julgamento, não aceitar crenças sem entendimento, não zombar das obras do acaso, não se vangloriar de saber algo sem experiência, nunca se gabar ou elogiar a si mesmo e não desprezar ninguém.
  • Quanto ao conhecimento do corpo:
    • A obrigatoriedade de conhecer todas as propriedades da carne, os ossos, os vasos sanguíneos, veias e artérias, o comprimento e a largura de todos os órgãos, as relações entre as diferentes partes do corpo, as articulações da natureza, os ferimentos que podem atingir cada órgão e suas consequências, as necessidades de cada órgão, e onde está a morte e a vida.
  • Quanto à prática de sua arte:
    • O domínio de todas as ervas vulnerárias, remédios formadores de tecidos, essências, o curso de todas as doenças cirúrgicas, a cura de doenças pelo tempo e por acidentes, o que proibir e permitir ao paciente, o efeito de cada remédio, e os preparos para feridas.

MISSÃO DA MEDICINA

  • O fundamento da medicina na experiência e não na especulação, pois “o médico é cego de nascença, e o conhecimento livresco nunca fez um único médico”, cabendo a ele agir por Deus e para o próximo, pois “a medicina não serve à presunção do homem, mas às suas necessidades prementes”.
  • A rejeição da sofística e a valorização dos olhos como mestres, pois “suas próprias fantasias e especulações não podem avançá-lo tão longe a ponto de você poder se vangloriar de ser um médico”.
  • A natureza da arte médica, que “não pode ser herdada, nem pode ser copiada de livros; deve ser digerida muitas vezes e muitas vezes cuspida; deve-se sempre mastigá-la novamente e amassá-la completamente”, exigindo escrita concisa e grande inteligência, pois “a natureza não clama por receitas longas”.
  • A humildade perante as anomalias que contradizem os livros e a experiência, exigindo estudo contínuo, observação diligente e aprendizado com os mais experientes, incluindo “velhas mulheres, ciganos, magos, viajantes e todo tipo de gente simples e aleatória”.
  • A necessidade de buscar a arte ativamente pelo mundo, pois “as artes não estão todas confinadas dentro do país de um homem; elas estão distribuídas por todo o mundo… Artes não perseguem ninguém, devem antes ser perseguidas”.
  • A importância de o médico considerar a região do paciente, seus costumes e natureza peculiar, devendo ser um cosmógrafo e geográfo bem versado, conhecimento que não se adquire “sempre sentado à lareira”, mas viajando, pois “aquele que deseja explorar a natureza deve pisar em seus livros com os pés”.
  • A medicina assente sobre quatro pilares — filosofia, astronomia, alquimia e ética —, cada um contribuindo com um conhecimento essencial sobre os elementos, o cosmos, suas transformações e as virtudes do médico.
  • A indispensável união entre medicina e alquimia, pois “se a arte da medicina fosse encontrada entre aqueles que são apenas alquimistas, eles não a entenderiam, e se fosse encontrada entre aqueles que são apenas médicos, eles não seriam capazes de fazer uso dela, pois não seguram em suas mãos a chave para os mistérios”.
  • A completude do médico que deve abranger os quatro aspectos do arcanum (correspondentes aos quatro elementos e ventos), unindo o filósofo da terra e o astrônomo do céu, pois “um aspecto ainda não faz um médico inteiro, nem dois, nem três; todos os quatro são necessários”.

DOENÇA E SAÚDE

  • A necessidade de ensinar medicina de forma clara na língua materna, e a compreensão das doenças através do macrocosmo, onde “a condição da urina deve ser lida do mundo exterior, o pulso deve ser entendido em relação ao firmamento, a fisiognomonia às estrelas, a quiromancia aos minerais, o sopro aos ventos leste e oeste, a febre aos terremotos, etc.”.
  • A exigência de que o médico tenha “uma ideia clara do homem e de toda a sua natureza” antes de examinar seu interior, pois “seria ousado e presunçoso abordar o estudo do homem sem tal conhecimento”.
  • O conhecimento do homem como um reflexo exato no “espelho dos quatro elementos”, tal como o sol e a lua estão intangivelmente impressos nele.
  • A verdadeira medicina como o conhecimento do invisível, imaterial e inominado, porém eficaz, que está além dos sintomas visíveis.

O MÉDICO MISERICORDIOSO

  • A vocação médica como inata, classificando os médicos em três tipos: os nascidos da natureza através de constelações celestes, os ensinados por homens e os dados por Deus, sendo que todos, em seu trabalho, se dirigem ao mesmo fim, mas “quem quer que ensine de outra fonte está imerso em erro”.
  • O médico como criação de Deus, cujo dever é imitar o “Médico Mais Alto”, agindo como um “deus do Pequeno Mundo” designado por Deus para afastar as doenças.
  • A centralidade de Deus como o primeiro e mais alto médico, para os cristãos, contrastando com heathens e infiéis que buscam o homem para ajuda.
  • A analogia entre fé e obras, e médico e medicina, como pares inseparáveis ordenados por Deus, pois “ai daquele que está sozinho! Pois se ele cair, não há ninguém para levantá-lo!”.
  • A busca da medicina em sua fonte, seguindo a luz da natureza, e o papel do médico em revelar as obras miraculosas de Deus para curar doenças.
  • A distinção entre os médicos que trabalham por amor e os que trabalham por lucro, sendo os primeiros conhecidos por seu amor inabalável pelo próximo, e os últimos pela transgressão do mandamento do amor, movidos por inveja, ódio, orgulho e presunção.
  • A medicina como expressão da misericórdia de Deus, que precede Sua severidade, tendo criado o médico e as virtudes curativas nas ervas para proteger o tempo de vida do homem contra a ira da morte.
  • A gravidade do ofício médico, que deve ser aplicado com grande assiduidade, experiência e temor a Deus, pois a frivolidade e a ignorância do próprio ofício equivalem a roubo e assassinato.
  • A essência compassiva do ofício do médico, que “não consiste em nada além da compaixão pelos outros”, e cuja eficácia não emana dele, mas de Deus.
  • A união indispensável entre palavras e ações na medicina, tal como Cristo ensinou e agiu, pois “a verdade reside apenas no feito e não na conversa ociosa”, e “o médico deve assentar seus fundamentos no espírito, pois sem ele ele não é nada além de um pseudomédico”.
  • A medicina como uma arte enraizada no coração, onde “se seu coração é falso, você também será um médico falso; se seu coração é justo, você também será um médico verdadeiro”, exigindo pureza, castidade e amor supremo pelo próximo em perigo.
  • A crença inabalável de que “não há doença que seja inevitavelmente mortal” e que “todas as doenças podem ser curadas, sem exceção”, cabendo ao médico nunca desanimar ou desesperar.
  • A terapêutica como a mais nobre pérola e tesouro supremo da medicina, sendo a descoberta das virtudes curativas um ato de amor ao próximo, imediatamente subsequente ao amor a Deus.
  • A analogia entre a união do homem e da mulher para formar um todo e a união da doença com o remédio correto, que deve ser ajustado a ela para formar um todo harmonioso.
  • A importância da mão do médico como o objeto mais precioso, cujo conhecimento pleno exige o entendimento do mundo, dos elementos e do firmamento.

NATUREZA DA DOENÇA

  • A doença como aquilo que fere o corpo, “a casa do Eterno”.
  • A existência de dois reinos para as doenças: o material (o corpo) e o espiritual (o ens spirituale), o princípio ativo espiritual do corpo.
  • A classificação das cinco entidades (entia) ou influências que governam e podem adoecer o corpo: ens astrorum (a força dos astros), ens veneni (a influência do veneno), ens naturale (a constituição natural), ens spirituale (a entidade espiritual) e ens Dei (a entidade de Deus).
  • A potencialidade inata de todas as doenças no homem, mesmo no ventre, e a existência de um “médico interno” ou preservador inato que trabalha contra o destruidor, ambos com suas ferramentas no corpo.
  • A necessidade de conhecer o inimigo (a doença) para se proteger, tal como se conhece o diabo para entender Deus, havendo sempre um remédio criado por Deus para cada doença.
  • A importância de descobrir a natureza e a força de uma doença por sua causa e não por seus sintomas, pois “não devemos apenas extinguir a fumaça do fogo, mas o fogo em si”.
  • A origem de todo auxílio, mesmo dos inimigos como o cardo, sendo sempre de Deus, que até mesmo o diabo, se dissesse, revelaria virtudes medicinais.
  • A relação simbiótica entre saúde e doença, que “devem crescer da mesma raiz”.
  • A analogia entre a separação e o ciclo do sol e da lua e a relação entre saúde e doença no “firmamento interior” do corpo.
  • A influência do céu e do tempo na geração de doenças, sendo o tempo “um vento ligeiro, pois a cada hora traz algo novo”, um mestre sobre o qual o médico não deve se considerar importante.
  • A divisão das doenças entre as que surgem naturalmente e as que são flagelos de Deus, como punição ou aviso.
  • A doença como uma espécie de purgatório, cujo tempo de recuperação e eficácia dos remédios está unicamente nas mãos de Deus, que envia o paciente ao médico apenas quando a hora predestinada chega.
  • A superioridade dAquele que cura a alma sobre o remédio que cura o corpo.
  • A submissão do homem a Deus, que decreta fortuna e infortúnio, administrando castigos em vida e após a morte.
  • A postura do paciente cristão, que deve depositar sua esperança em Deus e não no medicamento.

OS REMÉDIOS DO MÉDICO

  • A certeza de que “nenhuma doença é tão grande que Deus não tenha criado um remédio contra ela”.
  • A distinção entre a medicina celestial, que opera pela palavra de Deus e dispensa ervas e estrelas, atuando no “novo corpo” do homem, e a medicina mundana, sujeita à ordem e forças da natureza.
  • A importância da alquimia para o médico, como a arte de preparar os magnalia, mysteria e arcana, separando o puro do impuro para obter um remédio perfeito e de eficácia certa, pois “não é desígnio de Deus que os remédios existam para nós prontos, cozidos e salgados, mas que nós mesmos os cozinhemos”.
  • A hierarquia dos livros da medicina: o primeiro e mais alto livro é a Sapientia, que é o próprio Deus, fonte de toda sabedoria e conhecimento das causas primais, pois “o primeiro ensino é – e toda investigação deve começar com ele – que devemos acima de tudo buscar o reino de Deus”.
  • O segundo livro da medicina é o firmamento, que deve ser estudado após o primeiro, sendo um livro onde “todas as virtudes e proposições” estão contidas, e que o médico deve soletrar como uma carta para conhecer suas conclusões.
  • O livro da medicina como a própria natureza, na qual o médico deve redescobrir todas as suas ciências “com exatamente a mesma certeza e com tão pouca ilusão quanto quando você se vê em um espelho”.
  • A natureza maravilhosa e oculta das virtudes nos remédios, os arcana, que só podem ser descobertos por um grande artista através da experiência das mãos, e não apenas por conhecimento livresco.
  • A divisão dos remédios em espécies masculina e feminina, correspondendo às diferenças entre os mundos do homem e da mulher e suas enfermidades.
  • A analogia entre o remédio nas mãos do médico e uma semente na terra, onde a arte do médico é como a terra que desenvolve a semente (o remédio) em seu fruto destinado.

REGRAS PARA OS SAUDÁVEIS

  • A compreensão da diversidade da saúde, onde “existem mais de cem, na verdade mais de mil, tipos de estômago” e fígado, exigindo prescrições dietéticas individualizadas não apenas para a recuperação, mas para a preservação da saúde.
  • A observância da ordem natural para dormir e acordar, seguindo o ciclo do sol, pois “se um homem não observa esta regra… a ordem da natureza é violada”.
  • A necessidade de todas as coisas permanecerem em sua ordem, “de acordo com o número, peso, medida e revolução”, sem exceder a medida, aplicando-se isso à alimentação, trabalho e lazer, para evitar desequilíbrios na balança da natureza.

DIETA E DOSAGEM

  • A obrigação do médico de distribuir, prescrever e pesar todas as coisas para não sobrecarregar a natureza em um lado e pouco no outro.
  • A consideração da dieta não apenas pela idade, mas pelos costumes, peculiaridades e natureza do país do paciente, e pelas estações do ano, adaptando-a aos hábitos de cada estação.
  • A dosagem dos remédios não pelo peso, mas pela sua ação, comparada a uma fagulha de fogo que consome uma floresta, devendo ser administrada “de acordo com a extensão da doença”.
  • A purificação dos remédios pelo fogo, tal como o ouro, para que atinjam uma “nova geração” e se tornem úteis ao homem.
  • A arte de prescrever medicamentos como um ato de extração da virtude homogênea e simples inerente a cada coisa, e não de composição, pois “a natureza é o médico, não você. Dela você deve aprender, não de si mesmo; ela compõe os remédios, não você”.
  • A natureza como uma vasta farmácia, onde “todos os campos e prados, todas as montanhas e colinas são tais lojas”, sendo a farmácia da natureza maior que a do homem.

PREPARAÇÃO DOS REMÉDIOS

  • O valor atemporal de um bom remédio, que não é determinado por sua antiguidade, assim como o joio entre o trigo é tão antigo quanto o trigo, mas não pode ser usado em seu lugar.
  • O respeito, mas não a dependência absoluta, dos remédios dos antepassados.
  • A experiência incompleta com as ervas curativas, cuja eficácia é variável e imprevisível, pois “não as temos em nosso poder”.
  • A existência de todos os remédios na terra, aguardando por ceifeiros que, livres da presunção dos sofistas, os colham e realizem grandes curas.
  • A natureza como criadora de coisas não perfeitas em si mesmas, cabendo ao homem levá-las à perfeição através da alquimia, uma arte negligenciada na medicina, tornando-a “a mais crua e desajeitada de todas as artes”.
  • A alquimia definida como o processo de purificação pelo fogo (Vulcano), que liberta o remédio da escória em que se encontra, tal como se faz com o ferro, pois “o que é realizado pelo fogo é alquimia”.
  • A missão do médico, como delegado do Grande Médico, de lutar contra a transitoriedade, purificando o corpo humano de suas impurezas, tal como o fogo purifica o ouro.
  • As três formas de manifestação do Mercúrio (nascido, em si mesmo e preparado) como base para a cura de doenças.
  • A prática da medicina como uma obra de arte que prova seu mestre e cuja sabedoria é imputada pela própria arte.
  • A existência de mistérios e virtudes curativas abençoadas mesmo nos venenos, que devem ser usados para seu propósito adequado, pois “Deus mesmo é o verdadeiro médico e a verdadeira medicina”.
  • A noção de que “em todas as coisas há um veneno, e não há nada sem um veneno”, dependendo apenas da dosagem que algo seja veneno ou não, cabendo ao médico separar o arcanum e prescrevê-lo na dose certa.
  • A administração do remédio de acordo com a estrela, aplicando “entidade contra entidade”, de modo que cada uma se torne como a esposa ou o marido da outra.
  • A direção de toda cura a partir do poder do coração, expelindo as doenças para fora, e não em direção a ele.
  • A natureza viva e mutável dos remédios, que podem “morrer” com o tempo, sendo abençoado o médico que reconhece sua ação viva e sabe que o céu renova as virtudes para o futuro.
  • A importância de o médico saber julgar a idade das pessoas, das doenças, dos remédios e do mundo, pois a cura se torna mais fácil com o passar do tempo.
  • A eternidade da arte da medicina, que sobreviverá até o Juízo Final, sendo sempre renovada por Aquele que a criou.
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