1.3.10 Íbis
A. J. PERNETY. Fables egyptiennes et grecques.
Sobre o íbis.
Heródoto (Livro 2, capítulo 75, e 76.) relata que há no Egito duas espécies de íbis: uma totalmente preta, que combate as serpentes aladas e as impede de penetrar no país quando, na primavera, elas chegam em bandos da Arábia; a outra é branca e preta. É essa segunda espécie que se utiliza para representar Ísis. Heródoto não afirma ter visto essas serpentes aladas; mas apenas pilhas de esqueletos de serpentes. Ele, portanto, relata que esses répteis são alados apenas com base em relatos de terceiros. É bem possível que o fato não seja real no que diz respeito a essa circunstância; mas, mesmo que fosse, a alegoria seria ainda mais adequada. Eliano, Plutarco, Horápolo, Abenéfio, Platão, Cícero, Pompônio Mela, Diodoro da Sicília e tantos outros autores falam do íbis e descrevem as relações que ele tem com a Lua e Mercúrio, de modo que é desnecessário se dar ao trabalho de prová-las.
Os grandes serviços que essa ave prestava a todo o Egito, seja matando as cobras de que falamos, seja quebrando os ovos dos crocodilos, eram bem suficientes para levar os egípcios a prestar-lhe as mesmas honras que aos outros animais. Mas eles tinham outras razões para deduzir isso a partir de seus hieróglifos. Mercúrio, ao fugir de Tifão, assumiu a forma de íbis; aliás, segundo Abenéfio (De cultu Ægypt.), Hermes, nessa forma, velava pela preservação dos egípcios e os instruía em todas as ciências. Eles também observavam, em sua cor, seu temperamento e suas ações, muitas semelhanças com a Lua; por isso, Ísis era o símbolo. É por isso que atribuíam a essa Deusa uma cabeça de íbis; e por isso ela era, ao mesmo tempo, consagrada a Mercúrio. Pois observa-se entre Ísis e Mercúrio uma analogia tão grande e uma relação tão íntima que quase nunca os separavam; assim, supunha-se que Hermes era o conselheiro desse Príncipe, e que agiam sempre em conjunto: e com razão, já que a Lua e o Mercúrio Filosófico são, em certos casos, a mesma coisa, e os filósofos os chamam indistintamente um pelo outro. “ Quem afirmasse que a Lua dos Filósofos, ou, o que dá no mesmo, seu Mercúrio, é o Mercúrio vulgar, estaria tentando enganar com pleno conhecimento de causa, diz d’Espagnet (Can. 44 e 24), ou estaria se enganando a si mesmo. Aqueles que estabelecem como matéria da pedra o enxofre e o mercúrio referem-se ao ouro e a prata comum pelo enxofre, e pela mercúrio a Lua dos Filósofos.”
Pelas cores preta e branca do íbis, ela vê na Lua a mesma relação que no Touro Ápis, e, por isso, tornava-se o símbolo da matéria da Arte Sacerdotal. O íbis totalmente negro, que combatia e matava as serpentes aladas, indicava a luta que ocorre entre as partes da matéria durante a dissolução; a morte dessas serpentes significava a putrefação, que é uma consequência dessa dissolução, na qual a matéria se torna negra. Flamel supôs, nesse caso, a luta entre dois dragões, um alado e outro sem asas, da qual resulta o mercúrio. Vários outros utilizaram alegorias semelhantes. Após essa putrefação, a matéria torna-se em parte negra, em parte branca, momento em que o mercúrio se forma; essa é a segunda espécie de íbis, da qual Mercúrio tomou emprestada a forma.
Essas são as razões simples e naturais que levaram os sacerdotes egípcios a introduzir os animais em seu culto aparentemente religioso e em seus hieróglifos. Eles inventaram uma série de outras figuras, como as que se vêem nas pirâmides e nos demais monumentos egípcios. Mas todas elas tinham alguma relação, próxima ou distante, com os mistérios da Arte Hermética. Em vão se farão longos comentários para explicar esses hieróglifos em outro sentido que não seja o químico. Se Vulcano e Mercúrio não forem a base de todas essas explicações, encontrar-se-ão a cada passo dificuldades insuperáveis; e, mesmo que, a custo de grande esforço, se procurem explicações plausíveis, à imitação de Plutarco, de Diodoro e outros gregos antigos e modernos, sempre se terá a sensação de que elas são forçadas, de que foram tiradas de longe e, enfim, de que não satisfazem. Teremos sempre diante dos olhos aquele Harpócrates com o dedo na boca, que nos anunciará incessantemente que todo esse culto, essas cerimônias, esses hieróglifos encerravam mistérios, que não era permitido a todos penetrar neles, que era preciso meditar sobre eles em silêncio, que o povo não era instruído a respeito, e que não eram revelados àquelas pessoas que os sacerdotes estavam convencidos de terem vindo ao Egito apenas para satisfazer sua curiosidade. Os historiadores estão entre eles, e não são mais confiáveis, nas interpretações que oferecem, do que o povo do Egito, que prestava honras de culto aos animais, porque lhes haviam dito que os deuses haviam assumido a forma deles.
Huc quoque terrigenam vensse Typhona narrat,
Et se mentitis superos celasse figuris.
Duxque gregis dixit, sit Jupiter, unde recurvis
Nunc quoque formatur Libyci cum cornibusAmmon,
Delius in corvo est, proles Semeeia capro,
Fele soror Phœbus, nivei Saturnia vaccâ,
Pisce Venus laiuit, Cyllenius Ibidis alis.
Ovid. Metam. 1. 5.
