1.3.7 Cinocéfalo
A. J. PERNETY. Fables egyptiennes et grecques.
Sobre o cinocéfalo.
Entre os hieróglifos dos egípcios, nenhum é mais frequente do que o cinocéfalo, pois era propriamente a figura de Anúbis ou de Mercúrio: esse animal tem o corpo quase semelhante ao de um homem e a cabeça à de um cão. São Agostinho (Livro 2 de A Cidade de Deus, cap. 14) faz menção a ele, e Tomás de Valois afirma, no livro 3, capítulos 12 e 16, que São Agostinho se referia a Mercúrio ou ao Hermes egípcio ao falar do cinocéfalo. Isidoro (Livro 8, último capítulo) afirma que Hermes tinha cabeça de cão. Virgílio, Ovídio, Propercio, Prudêncio e Amiano, todos lhe atribuem o epíteto de “latidor”. Os egípcios haviam notado tanta semelhança entre o cinocéfalo e o Sol e a Lua que frequentemente o empregavam como símbolo desses dois astros, se acreditarmos em Horápolo. Esse animal urinava uma vez a cada hora do dia e da noite durante o período dos equinócios (Livro I, cap. 16). Ele ficava triste e melancólico durante os dois ou três primeiros dias da Lua, pois, como ela não aparecia aos nossos olhos, ele a lamentava como se ela nos tivesse sido arrebatada. Os egípcios, supondo também que o cinocéfalo tivesse indicado a Ísis o corpo de Osíris que ela procurava, frequentemente associavam esse animal a esse deus e a essa deusa. Todos esses raciocínios são, na verdade, meramente alegóricos; o que há de verdade nisso tudo é que o cinocéfalo era o hieróglifo de Mercúrio e do mercúrio filosófico, que deve sempre acompanhar Ísis, como seu ministro, pois, como já dissemos nos capítulos sobre esses deuses, sem o mercúrio, Ísis e Osíris não podem fazer nada na obra. Como Hermes ou Mercúrio, o Filósofo, deu motivo, por meio de seu nome, para que fosse confundido com o mercúrio filosófico — do qual se supõe que ele seja o inventor —, não é de se admirar que os egípcios e os autores que não estavam a par do assunto tenham confundido a coisa inventada com seu inventor, já que ambos tinham o mesmo nome; e que, consequentemente, tenham tomado o hieróglifo de um como sendo o hieróglifo do outro. Quando o Cinocéfalo é representado com o caduceu, em alguns vasos, ou com um crescente, ou com a flor de lótus, ou com algo aquático ou volátil, ele é, então, um hieróglifo do mercúrio dos Filósofos; mas quando é visto com uma cana ou um rolo de papel, ele representa Hermes, que se diz ser o inventor da escrita e das ciências, além de secretário e conselheiro de Ísis. A ideia de tomar esse animal como símbolo de Hermes surgiu do fato de que os egípcios acreditavam que o cinocéfalo sabia, por natureza, escrever as letras que estavam em uso em seu país; por isso, quando levavam aos sacerdotes um cinocéfalo para ser alimentado junto com os outros no templo, apresentavam-lhe um pedaço de cana ou junco adequado para formar os caracteres da escrita, com tinta e papel, a fim de saber se ele pertencia à raça daqueles que conheciam a escrita e sabiam escrever. Horápolo menciona esse costume no capítulo 14 do primeiro livro de sua interpretação dos hieróglifos egípcios e afirma que é por essa razão que o cinocéfalo era consagrado a Hermes.
