1.3.9 Águia e gavião
A. J. PERNETY. Fables egyptiennes et grecques.
Da Águia e do Gavião.
Essas duas aves têm bastante em comum por sua natureza; uma e outra são fortes, ousadas, empreendedoras, de temperamento ardente, ígneo, fervoroso; e as razões que, segundo Horus, levaram os egípcios a incluir o gavião em seus hieróglifos, se encaixam perfeitamente com aquelas que levaram os filósofos a tomar emprestado o nome dessa ave para designar sua matéria que atingiu um certo grau de perfeição, no qual adquire uma natureza ígnea que a caracteriza particularmente; quero dizer, quando ela se tornou enxofre filosófico; é nesse estado que Raimundo Lúlio (Lib. Experim. 13.) a chama de nosso gavião, ou a primeira matéria fixa dos dois grandes luminares.
A águia é o rei das aves e consagrada a Júpiter, pois foi um presságio feliz para esse deus quando ele lutou contra seu pai, Saturno, e forneceu armas ao próprio Júpiter quando ele derrotou os titãs, etc. Sua carruagem é puxada por duas águias, e quase nunca se representa esse deus sem colocar essa ave ao seu lado. Mesmo que se tenha lido pouco das obras dos filósofos herméticos, está-se a par da ideia daqueles que inventaram essas ficções. Todos chamam de Águia ao seu mercúrio, ou à parte volátil de sua matéria. Esse é o nome mais comum que lhe deram ao longo dos tempos. Os adeptos de todas as nações concordam quanto a isso. Para eles, o Leão é a parte fixa, e a Águia, a parte volátil. Eles falam apenas das lutas entre esses dois animais. Portanto, é desnecessário citar os textos: presumo estar falando com pessoas que, pelo menos, já os folhearam.
Supôs-se, com razão, que a Águia fosse um bom presságio para Júpiter, uma vez que a matéria se volatiliza no momento em que Júpiter obtém a vitória sobre Saturno, ou seja, quando a cor cinza substitui a preta. Pela mesma razão, ela fornece armas a esse deus contra os titãs, como provaremos no terceiro livro, no capítulo sobre Júpiter, para onde remetemos a explicação desse fato. O mesmo motivo levou a que se dissesse que a carruagem desse deus era puxada por duas águias.
Mas por que representavam Osíris com cabeça de gavião? Aqueles que prestaram atenção ao que dissemos sobre esse deus adivinharão facilmente. O gavião é uma ave que ataca todas as outras, que as devora e as transforma em sua própria natureza, transformando-as em sua própria substância, já que elas lhe servem de alimento. Ósiris é um princípio ígneo e fixo, que fixa as partes voláteis da matéria representadas pelas aves. O texto que citei de Raimundo Lúlio comprova a veracidade da minha interpretação. Também disse que Ósiris era o ouro, o Sol, o enxofre dos filósofos, e o gavião é um símbolo do Sol. Homero (Odisseia) o chama de Mensageiro de Apolo, quando conta que Telêmaco, prestes a retornar a Ítaca, avistou um que devorava uma pomba; daí ele deduziu que teria vantagem sobre seus rivais. Os egípcios justificavam o culto prestado a essa ave dizendo que ela havia vindo de terras desconhecidas para Tebas, onde trouxe aos sacerdotes um livro escrito em letras vermelhas, no qual constavam todas as cerimônias de seu culto religioso.
Não há ninguém que não perceba o quanto tal fato é fabuloso; mas é preciso compreender que ele não foi inventado sem motivos. Dir-se-á, sem dúvida, que os sacerdotes propagavam tal fábula para inspirar mais respeito ao povo, fazendo-o acreditar que algum deus havia enviado essa ave encarregada dessa missão. Mas eles não teriam sido coerentes consigo mesmos, já que afirmavam, ao mesmo tempo, que Hermes e Ísis eram os inventores e os fundadores desse culto, bem como das cerimônias nele observadas. Haveria uma contradição, pelo menos aparente; pois, no fundo, tudo se encaixava perfeitamente. O suposto livro estava escrito em letras vermelhas, porque o magistério filosófico, o elixir perfeito da arte sacerdotal, Osíris — cujo símbolo era o gavião —, ou o Apolo dos filósofos, é vermelho, e de um vermelho de papoula do campo. As cerimônias de seu culto estavam ali escritas, uma vez que eram uma alegoria das operações e de tudo o que ocorre desde o início da obra até sua perfeição, momento em que o gavião se manifesta; por isso dizia-se que essa ave havia trazido esse livro — eis a ficção. Hermes, por outro lado, havia instituído essas cerimônias e nomeado sacerdotes, aos quais confiou seu segredo para que as observassem; eis a verdade. Ísis estava envolvida nessa instituição, pois de fato tinha grande participação nela, sendo o objeto e, como matéria, tendo dado origem a ela. Aqueles que, entre os egípcios, eram encarregados de escrever o que dizia respeito a esse culto, usavam, segundo o relato de Diodoro (L.I.c.4.), um chapéu vermelho com uma asa de gavião, pelas razões acima expostas.
Parece haver outra contradição no que acabei de dizer, embora esteja de acordo com o que afirmavam os egípcios. Osíris e Hórus não eram a mesma pessoa, já que um era o pai e o outro, o filho. Reconhece-se, no entanto, que ambos eram símbolos do Sol, ou de Apolo. Pergunto aos mitólogos como, de acordo com seus diferentes sistemas, poderão resolver essa dificuldade. Duas pessoas diferentes, dois reis que reinaram sucessivamente, de modo que houve até mesmo o reinado intermediário de Ísis, podem ser consideradas uma mesma pessoa? A própria história fabulosa do reinado dos deuses no Egito não nos diz que o Sol tenha reinado duas vezes. Ela nos diz que Osíris morreu pela perfídia e pela artimanha de Tifão; mas não diz que ele ressuscitou. Osíris era, no entanto, o mesmo que o Sol, Hórus o mesmo que Apolo, e o Sol não difere de Apolo. Portanto, não vejo como nossos mitólogos poderiam sair desse labirinto. Mas o que prova claramente a veracidade do meu sistema é que, ao segui-lo, os egípcios não poderiam combinar essa história de outra maneira. Sem se desviar da verdade, quero dizer, sem alterar a ordem dos acontecimentos que se sucedem no desenrolar da obra. De fato, há duas operações, ou, se preferirem, duas obras que se sucedem imediatamente. Na primeira, chamada de Espagnet (Can. 121), cria-se o enxofre, e na segunda, faz-se o elixir; o enxofre e o ouro vivo dos Filósofos, seu Sol ou Osíris. Na segunda obra, é preciso fazer morrer esse Osíris, por meio da dissolução e da putrefação, após o que reina Ísis ou a Lua, ou seja, a cor branca, chamada de Lua pelos Filósofos. Essa cor desaparece para dar lugar à cor amarela-açafrão, e é Ísis que morre e Hórus que reina, ou o Apolo da Arte Hermética; é desnecessário nos alongarmos mais sobre isso, já que o explicamos suficientemente, tanto no tratado dessa Arte quanto nos capítulos deste livro que tratam desses deuses.
