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80 CONCLUSÕES FILOSÓFICAS SEGUNDO MINHA OPINIÃO PESSOAL

PIC DE LA MIRANDOLE, Jean. Neuf cents conclusions philosophiques, cabalistiques et théologiques. Tradução: Bertrand Schefer. 4e éd ed. Paris: Éditions Allia, 2017

Oitenta conclusões filosóficas segundo minha opinião pessoal em desacordo com a filosofia comum, mas que se afastam apenas um pouco do modo comum de filosofar.

  1. De uma espécie existente no sentido exterior, pode-se imediatamente abstrair uma espécie universal.
  2. A intenção segunda é um ser de razão, que se apreende pelo modo da forma qualitativa, e que se dirige para a operação do intelecto à maneira de uma consequência e não de um efeito.
  3. Nem a intenção primeira nem a intenção segunda são subjetivamente em algum lugar.
  4. É possível chegar nos corpos a algo que estabeleça um lugar corporal sem ocupar corporalmente um lugar, e essa coisa é a esfera última. Da mesma forma, é possível chegar nos inteligíveis a algo que estabeleça um lugar inteligível sem ocupar de nenhuma forma um lugar, e essa coisa é Deus.

Corolário: não se deve buscar como a esfera última ocupa um lugar, mas é preciso admitir absolutamente que ela não ocupa nenhum lugar.

  1. O intelecto não pode compreender o singular, nem segundo a verdade, nem mesmo segundo a opinião de Aristóteles, do Comentador e de Tomás.
  2. Embora o intelecto não possa compreender singularmente, depende no entanto dele que o singular seja perfeitamente conhecido.
  3. Cada coisa, seja qual for, estabelecida na pureza de seu ser, é inteligente, inteligência e objeto da inteligência.
  4. A partir da conclusão precedente, saber-se-á por que a matéria é o princípio do que é incognoscível e o intelecto agente o princípio do que é cognoscível.
  5. Chama-se “ação imanente” a ação que não está subjetivamente naquilo que é designado passivamente por ela, e que se distingue nisso da “ação transitiva”.
  6. Todo outro modo que não o indicado na precedente conclusão é insuficiente para se distinguir a ação imanente da ação transitiva.
  7. Quando Averroes afirma que não há outro meio para se provar o abstrato senão a eternidade do movimento, não entende por isso qualquer abstrato, mas o que é abstrato do corpo no último grau da abstração.
  8. O ser corporal não detém sua realidade de alguma forma substancial ou do grau de forma substancial.
  9. Os seis transcendentais admitidos pela doutrina comum foram imaginados pelos Latinos mais recentes: os peripatéticos gregos, e Aristóteles, o primeiro deles, os ignoravam.
  10. Segundo Aristóteles, é necessário que a causa primeira dê o movimento por necessidade.
  11. Segundo Aristóteles, é impossível e totalmente irracional que tudo aconteça necessariamente; e é às causas que se refere essa necessidade.
  12. Os tratados das suposições não se relacionam ao lógico.
  13. O mundo não pôde ser produzido eternamente por Deus por meio da eficiência verdadeira, que é a redução da potência ao ato.
  14. O mundo pôde ser produzido eternamente por Deus, e o foi efetivamente segundo Aristóteles e o Comentador, por meio da eficiência que é um fluxo natural e uma consecução efetiva.
  15. Aquele que nega que o céu seja animado de tal sorte que seu motor não seja sua forma, opõe-se não somente a Aristóteles, mas destrói os fundamentos de toda a filosofia.
  16. Nos atos de nosso intelecto, a sucessão não se produz em razão das potências sensitivas e daquelas que se relacionam a elas, como pensam os modernos, mas porque o intelecto é racional.
  17. Um conhecimento novo produz-se tanto a partir de um conhecimento anterior, quanto a partir de seu ponto de partida, de sua causa efetiva, parcial, formal, diretiva, ou ainda de sua causa material predisponente.
  18. A disposição prática é aquela que regula formalmente cada operação daquele que detém uma tal disposição.
  19. A disposição detém seu ser prático e teórico do objeto relativo ao sujeito no qual se encontra; chama-se o intelecto “prático” ou “teórico” segundo o fim que se propõe aquele que detém uma tal disposição.
  20. A disposição prática distingue-se da disposição teórica por seus fins.
  21. A prática é uma operação que não é formalmente um conhecimento, que pode ser reta e não reta, retificável por uma disposição que produz em parte operações retas, na medida em que aquele que age detém uma tal disposição.
  22. O prático e o teórico são as diferenças acidentais da disposição.
  23. A teologia do viajante, enquanto viajante, deve ser chamada em sentido estrito teologia “prática”.
  24. Que toda medicina seja prática, afirma-se que isso é verdadeiro e que isso se acorda com as palavras e a opinião de Averroes.
  25. A lógica é prática.
  26. O sentido comum não é distinto dos sentidos da vista, da audição, do olfato, do paladar e do tato.
  27. Não há espécies inteligíveis que sejam abstraídas das coisas imaginadas, e sustenta-se que isso é verdadeiro e que é a opinião do Comentador e de Alberto Magno.
  28. Em toda questão cognoscível por demonstração, convém-se conhecer primeiro o porquê do sujeito e da impressão recebida pelo sujeito, compreendendo por “porquê”, não o porquê do nome, como o compreendem os intérpretes, mas o porquê da coisa.
  29. É possível remontar da causa ao efeito sem o intermediário que imagina Burleigh.
  30. Aqueles que admitem a existência das mais pequenas entidades naturais no seio das qualidades, não são por isso constrangidos a negar que o movimento da alteração se produz sucessivamente no tempo.
  31. É necessário admitir, segundo Averroes, que a forma do gênero difere realmente da forma da espécie, e o contrário não se acorda com os princípios de sua doutrina.
  32. A demonstração de Aristóteles, no sétimo livro da Física, segundo a qual “tudo o que é movido é movido por outra coisa”, não prova nada do que compreendem Tomás, Escoto ou Egídio, que seguem por sua vez Jean de Jandun, Graziadio, Burleigh ou os outros que se pôde ler. Ela prova somente o que disse perfeitamente o Comentador, mal compreendido por todos os intérpretes latinos, a saber: “em todo movimento, o motor é diferente do móvel segundo a natureza ou segundo o sujeito”.
  33. A demonstração do sétimo livro da Física prova com evidência que o céu não se move por si mesmo, dados os princípios de Averroes, que são completamente verdadeiros e muito sólidos.
  34. A ordem dos livros da filosofia natural transmitida por Aristóteles é a seguinte: a Física, Do céu e do mundo, Da geração [e da corrupção], os Meteorológicos, os Minerais, Das plantas, Da geração dos animais, Das partes dos animais, Da marcha dos animais, Da alma, depois os livros que se chamam Pequenos tratados de história natural. Corolário: aqueles que chamam o tratado Da alma o sexto livro dos tratados de filosofia natural, contradizem totalmente a mente de Aristóteles.
  35. Todo meio posto em obra para salvar a afirmação de Aristóteles segundo a qual os ventos de leste são mais quentes que os ventos de oeste é frívolo e sem fundamento, exceto se tiver relação com a animação do céu.
  36. Nem em Aristóteles, nem em seus intérpretes, as razões avançadas para se explicar a salinidade do mar são suficientes; acima de todas se sustenta a verdade de Moisés, e não se pode indicar razão mais suficiente que a ação causal da providência universal ela mesma que se descobriu assim sobre a Terra.
  37. Nenhuma parte do céu difere de uma outra segundo o luminoso e o não luminoso, mas segundo o mais ou o menos luminoso.
  38. A maneira pela qual Aristóteles explica como as coisas inferiores tiram seu calor das superiores não parece de forma alguma correta.
  39. Estas duas proposições se sustentam reciprocamente, e acredita-se que são ambas verdadeiras: o argumento de Averroes, no final do comentário do primeiro livro da Física conclui contra Avicena; os argumentos de Avicena para se provar o primeiro princípio são igualmente verdadeiros e eficazes.
  40. Se Tomás tivesse dito que as inteligências estão em um gênero segundo Aristóteles, não teria menos se contradito a si mesmo do que teria contradito Aristóteles.
  41. Se a unidade do gênero vem em parte daquele que concebe, e em parte do que é concebido, segue-se necessariamente que tudo o que está no mesmo gênero lógico está no mesmo gênero físico.
  42. A ciência é realmente relativa, e o cognoscível se relaciona a ela por acidente.
  43. Ao se admitir a opinião comum dos doutores, a saber que o que é predicado de Deus o é formalmente, enunciam-se as duas conclusões seguintes, das quais eis a primeira: Deus só é uma substância que não é de forma alguma não-substância.
  44. E a segunda: Deus não está em um gênero, porque é substancialmente substância.
  45. É ilusório admitir uma diferença entre o camus e o branco, ou entre acidentes semelhantes entre si, sob pretexto de que um é separável e o outro inseparável de um sujeito determinado.
  46. A diferença que aparece entre os acidentes indicados acima é devida apenas ao único fato de se lhes ter imposto voluntariamente um nome.
  47. É necessário afirmar, segundo Averroes, que o próprio da substância é ser a quididade intrínseca do acidente, e é a opinião mais conforme a Aristóteles e à filosofia.
  48. Não é preciso admitir a matéria na definição das substâncias naturais, e é a opinião concordante de Averroes e de Alberto.
  49. Se Tomás tivesse dito que há, segundo Aristóteles, acidentes nas inteligências, não teria somente contradito Aristóteles, mas teria se contradito a si mesmo.
  50. Estas proposições devem ser tidas por verdadeiras em todos os pontos: a matéria primeira é asno, boi e outras coisas semelhantes.
  51. No composto material não entram duas entidades separadas e distintas, mas uma única entidade.
  52. O som não é oriundo do movimento do ar interceptado entre dois corpos que se percutem, como pensam Aristóteles e seus intérpretes, mas afirma-se que tal ou tal som é causado pelo contato de tal corpo com tal outro.
  53. Os argumentos que os peripatéticos avançam para se provar que não se progride ao infinito nas causas ordenadas segundo a essência, não estabelecem de forma convincente a necessária falsidade de uma tal hipótese.
  54. Sustenta-se como verdadeiro e se defende, em acordo com a opinião de Aristóteles e de Platão, que a faculdade sensitiva do sentido comum não difere, no sujeito, isto é, na realidade, nem das faculdades sensitivas dos sentidos exteriores, como se disse na trigésima conclusão, nem das faculdades sensitivas dos sentidos interiores, isto é, a fantasia ou a imaginação, a mente e a memória.
  55. Afirma-se que todas as qualidades dos elementos são os símbolos das diversas espécies.
  56. Se se devesse admitir uma quarta figura de silogismo, seria preciso adotar aquela proposta por Galeno em vez da invenção pueril de Francisco de Meyronnes e Pedro de Mântua; mas é mais correto não admitir nenhuma.
  57. O metafísico trata da matéria como aquilo a partir do que as coisas se produzem por si, e o físico como aquilo a partir do que as coisas se produzem por acidente: é o que se pode dizer ao se seguir a doutrina de Aristóteles.
  58. Uma afirmação exclusiva que se relaciona a um único relativo não exclui o correlativo.
  59. Não se deve admitir que, em uma totalidade quantitativa, a parte seja, de alguma maneira que seja, distinta em ato de sua própria totalidade.
  60. Se a opinião atribuída a Avicena, segundo a qual o um que é conversível com o ser é o um que é princípio do número, e que em consequência cada coisa é uma pela intenção que se acrescenta à sua essência, não é necessariamente verdadeira, é contudo provável e defende-la-á.
  61. Se a potência intelectiva é em nós um acidente, é contudo uma substância nos anjos.
  62. A formalidade é a atualidade capaz de aperfeiçoar por si o intelecto possível.
  63. Se o misto é produzido a partir da reunião dos elementos, seja qual for a forma como se considera que os elementos perduram no misto, o misto será produzido a partir dos elementos, como a partir da matéria distribuída pelo sopro quente do vapor que se eleva dos ditos elementos.
  64. Em tudo o que é inferior a Deus, a matéria é idêntica segundo sua essência e diferente segundo seu ser.
  65. As quididades das naturezas físicas podem ser concebidas sem os acidentes por um conceito adequado apropriado, quer sejam consideradas pelo metafísico ou pelo físico.
  66. O corpo orgânico, que é a matéria da alma, e é admitido por Aristóteles na definição da alma, é “corpo” e é “orgânico” por uma forma essencialmente distinta da alma que o leva à sua perfeição.
  67. Segundo todos os filósofos, é preciso dizer que Deus faz tudo o que faz necessariamente.
  68. Aquele que duvida que a unidade se produza mais verdadeiramente e substancialmente a partir do inteligível e do intelecto do que a partir da matéria e da forma material, esse não é filósofo.
  69. Ao se admitir a opinião do Comentador sobre a alma intelectiva, parece razoável sustentar que essa alma não é o sujeito de nenhum acidente e defender-se-á esta posição como verdadeira, mesmo se não se puder determinar se o Comentador a tinha tido por tal.
  70. Afirma-se, segundo Tomás, que é preciso dizer que nossa beatitude consiste em um ato reflexivo do intelecto.
  71. A definição da natureza compreende as coisas celestes, e pode-se afirmá-la de forma conjuntiva e não disjuntiva.
  72. Do mesmo modo que todo filósofo tem razões para afirmar que as virtudes sensitivas residem no coração, do mesmo modo todo médico tem razões para afirmar que residem no cérebro.
  73. O que se afirma na doutrina comum a todos os filósofos latinos a respeito da primeira operação do intelecto é um erro, porque não há outra operação da parte racional que essas duas, que admitem como a segunda e a terceira operação: a saber a composição e a discursão.
  74. Os acidentes não devem de forma alguma ser chamados “seres”, mas “do ser”.
  75. Os seis princípios são formas absolutas.
  76. Se há uma língua primeira e não casual, numerosas hipóteses mostram que se trata da língua hebraica.
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