esoterismo:pra:alquimia
ALQUIMIA
Enciclopédia Einaudi 18. Natureza — Esotérico/exotérico. Lisboa: IMPRENSA NACIONAL-CASA DA MOEDA, 1990
-
A alquimia designa um conjunto de manipulações, processos práticos e elementos teóricos complexo cujo aspecto mais conspícuo é a transformação dos metais vis em ouro e prata e a preparação do elixir da longa vida — ambos os objetivos presentes na busca da pedra filosofal —, mas essa busca aparece ligada a uma visão global da realidade na qual a matéria está unida ao espírito e o homem ao universo por vínculos profundos, conferindo à alquimia um caráter místico que a põe em contato problemático com a tradição religiosa.
-
A visão alquímica situa-se a um alto nível de especulação garantida por uma longa tradição objetiva, à qual se ascende pelo distanciamento da consideração imediata das coisas e pela recuperação do ensinamento secreto de grupos privilegiados.
-
A alquimia está presente tanto na tradição cultural do Oriente — com o taoísmo a partir do século III e com as disciplinas ocultas do tantrismo na Índia — quanto na do Ocidente, onde tem origens no período alexandrino e na cultura helenística, com contributos do Egito e da cultura árabe, e florescimento máximo na Europa dos séculos XIII ao XVII.
-
Os historiadores distinguem tradicionalmente duas fases na evolução da alquimia — a artesanal e a mística ou simbólica —, mas uma perspectiva criticamente mais inteligente tende hoje a interpretar essa evolução de forma mais unitária, considerando os aspectos simbólicos e místicos da arte como estreitamente conexos com os processos artesanais ao longo de toda a sua evolução.
-
A emergência histórica da alquimia no Ocidente resultou provavelmente do encontro de teorias e técnicas aristotélicas sobre a transmutação dos elementos com as operações sobre metais nobres da casta sacerdotal egípcia, rodeadas de auréola de mistério e sacralidade, num contexto de sincretismo religioso e crescente interesse pelo misticismo que favoreceu a fusão das investigações práticas com a consideração dos metais como componentes da realidade universal.
-
A mutação que o helenismo provocou, marcando a passagem de uma civilização mais racional a uma civilização místico-religiosa, integrou com facilidade o aspecto prático da alquimia no seu aspecto místico-simbólico.
-
Segundo Olimpiodoro, nos primeiros séculos da era cristã generalizou-se a crença de que o ouro correspondia ao Sol, a prata à Lua, o cobre a Vênus, o ferro a Marte, o chumbo a Saturno, o estanho a Júpiter e o mercúrio à estrela do mesmo nome, ligando toda a prática relativa aos metais à consideração do universo inteiro numa perspectiva divina e religiosa.
-
A alquimia alexandrina não se reduz a indicações práticas para a transmutação dos metais: os processos são descritos por expressões herméticas compreensíveis apenas aos iniciados, estreitamente correlatos a uma perspectiva cosmológica e a uma tradição místico-religiosa.
-
O encontro da alquimia com as religiões monoteístas — cristianismo, judaísmo e islamismo — foi relativamente pacífico enquanto suas concepções gerais não foram consideradas antitéticas às temáticas teístas, resultando numa adaptação recíproca em que a alquimia foi revigorada em seus motivos místicos, simbólicos, cosmológicos e soteriológicos, e as religiões monoteístas enriqueceram sua perspectiva sobrenatural com especulações naturalísticas interpretadas segundo ótica mística.
-
O islã se mostrou mais abertamente interessado do que o cristianismo no reconhecimento das várias artes da tradição sapiencial, tornando seu encontro com a alquimia mais fácil e espontâneo.
-
A alquimia, como concepção estritamente naturalista carregada de significação mística, podia assumir atitude de velada oposição à transcendência religiosa, opondo à pureza da revelação uma complexa representação do divino obtida pelo entrelaçamento unitário do universo com a visão panteísta da realidade.
-
Na história da Baixa Idade Média e dos inícios do mundo moderno, os cultores da alquimia reuniam-se em grupos sociais homogêneos compostos por nobres e plebeus, religiosos e leigos, cristãos, hebreus e muçulmanos, homens e mulheres, eruditos e simples artesãos, muitas vezes levando vida de vagabundos que se deslocavam de país em país e mudavam frequentemente de nome, sublinhando ser cidadãos do mundo e dando maior importância às sociedades secretas dos iniciados do que aos vínculos tradicionais dos estados e das religiões.
-
A alquimia podia oferecer a doutrinas mais ou menos heréticas tanto os canais de uma ciência da natureza largamente apreciada quanto os vínculos sociais de uma pesquisa conduzida em ambientes mais livres, permitindo subtrair-se ao controlo da autoridade eclesiástica.
-
A alquimia foi várias vezes condenada ao longo da Idade Média — particularmente pelo papa João XXII, que lançou bula de excomunhão contra todos os seus cultores, sendo a Inquisição unida aos tribunais seculares a agir repetidamente contra os alquimistas —, mas estes se consideravam membros de uma espécie de igreja escondida, eleitos portadores de poderes divinos e depositários de uma tradição sagrada e libertadora.
-
Nos momentos de maior expansão da ortodoxia religiosa, a alquimia assumia papel subordinado de visão naturalista e compêndio das artes sapienciais, mas nos momentos de crise da organização eclesiástica tendia a ressurgir como espiritualidade místico-laica global e como tradição unitária mais original e profunda que as várias confissões religiosas.
-
Com a conquista do Egito pelos Árabes no século VII, iniciou-se a fase da história da alquimia marcada pela transmissão da cultura greco-oriental — conservada pela escola de Alexandria — ao Ocidente, tendo como figura mais famosa o médico e alquimista Geber, que viveu provavelmente nos séculos VIII ou IX e ao qual foram atribuídos numerosos escritos em árabe e em latim, sendo o próprio Averróis considerado um de seus seguidores.
-
O que caracteriza em particular a alquimia árabe é a ligação do processo de transmutação ao significado geral da medicina: a pedra filosofal, o grande elixir ou o magisterium são entendidos como o verdadeiro remédio capaz de transformar os metais vis em nobres, e a medicina da natureza possui valor inclusive como instrumento curativo do homem, enquanto a cura das doenças se vê estreitamente ligada à obtenção da salvação.
-
Daí a celebração do ouro potável feita pela alquimia árabe: manifestando propriedades curativas excepcionais e ocupando o lugar do elixir da longa vida, o ouro potável garante simultaneamente o vínculo da alma com a mais profunda realidade da natureza e institui a passagem que liga ambas ao espírito do mundo, do qual é símbolo o metal incorruptível que é o ouro.
-
A alquimia afirmou-se no Ocidente por mais de meio milênio, do século XI ao XVII, cultivada especialmente no seio das cortes em disputa pela riqueza, mas conservando constantemente seu caráter soteriológico – como atesta a definição falsamente atribuída a Lúlio, que a reconhece simultaneamente como filosofia natural oculta, ciência, obra de purificação espiritual e busca da saúde ótima, a despeito de Rogério Bacon insistir nos aspectos do conhecimento natural que ela privilegia.
-
O alquimista medieval mais célebre foi Arnaldo de Villanova, morto em 1311, cujas Opera omnia foram repetidamente editadas e largamente difundidas no século XVI.
-
Na Renascença a alquimia conheceu grande florescimento, destacando-se a figura misteriosa do frade Basílio Valentim e, sobretudo, Paracelso (1493-1541), cujos escritos o apresentam como médico que cura almas e corpos, conhecedor dos laços secretos que ligam o mundo dos astros à realidade da Terra e mediador ativo entre a natureza, os homens e Deus.
-
Embora o pensamento renascentista em alguns aspectos polêmicos se distanciasse da tradição dogmática para dar relevo à livre investigação da natureza e do homem, não procedeu a uma separação brusca da tradição ontológico-místico-religiosa precedente, conservando o relevo cosmológico e místico do naturalismo e a importância do patrimônio clássico.
-
A tradição aristotélica teve influência predominante na formação do espírito da Renascença, com reapparecimento dos temas do averroísmo e cultivo de uma visão que distingue o âmbito religioso do filosófico; ao mesmo tempo, a tradição platônica transmitiu à cultura renascentista uma tensão unitária capaz de ligar macrocosmos e microcosmos, homem e universo e visão de conjunto do universo à tradição religiosa.
-
Na Renascença, o alquimista se apresenta como personagem de poderes superiores capaz de remontar às origens do mundo e da vida para promover a reconstrução do homem e da natureza decaídos pelo pecado original – uma nova redenção em que participam a igual título o mundo do homem e a realidade da natureza –, sendo a transmutação dos metais em ouro e a descoberta do remédio universal manifestações aparentes de um processo mais vasto em que se afirma a unidade do mundo com Deus e de ambos com o destino do homem.
-
Foi na Renascença e nos decênios que precederam o nascimento da ciência moderna que a alquimia conheceu seu máximo desenvolvimento, mas cessou praticamente de existir com o advento da química científica pela obra de Boyle, Lavoisier e Dalton, sobrevivendo apenas em estruturas isoladas como a École hermétique de Paris e a Société alchimique de France.
-
Na desaparição da alquimia deve ver-se o resultado não apenas da emergência da química moderna, mas também da mentalidade do cientismo e do racionalismo modernos.
-
Não é lícito interpretar, como fez o iluminismo seguido pelo positivismo e pelo cientismo contemporâneo, todo o fenômeno histórico da alquimia como simples antecedente precursor da química moderna – essa interpretação levou muitos estudiosos a investigar nos desenvolvimentos da alquimia apenas os antecedentes remotos das descobertas subsequentes, concedendo significado puramente negativo a todo o contexto do magistério que não podia ser assimilado aos aspectos artesanais.
-
A visão simplista segundo a qual a humanidade teria passado de um longo período de trevas à claridade definitiva da razão levou muitos a explicar a longa presença da alquimia durante mais de um milênio, em civilizações diversas, como simples incidência psicológica de uma ilusão ou resultado de um engano, atribuindo a uma grosseira mentalidade mágica o que servia para encobrir a aspiração concreta ao fabrico do ouro e ao domínio da vida econômica.
-
A psicologia das profundezas, representada por Jung (1944), considerou ter descoberto no mundo das imagens alquímicas uma confirmação da doutrina do inconsciente coletivo, interpretando o alquimista como alguém que, na aspiração de fabricar ouro, daria forma às forças instintivas do inconsciente habitante no seio da coletividade – mas essa interpretação, ao atribuir a um fundo psíquico informe o que o alquimista concebia como expressão mais elevada de sua vida espiritual, converte em instrumentos passivos de impulsos psíquicos inconscientes aqueles que se consideravam operadores responsáveis de uma síntese cultural plenamente explícita e significativa.
-
A perspectiva de Jung ultrapassa justamente as operações práticas imediatas para dar relevo à rica experiência interior que as acompanha e sublinha que essa experiência parece vinculada às profundezas do sujeito ao nível do inconsciente.
-
Só a perspectiva criticamente mais avisada da recente antropologia cultural, ligada a uma compreensão mais adequada da realidade histórica, está à altura de nos indicar, de modo mais completo, o significado da alquimia na história do homem. De um modo geral, a alquimia deu forma a uma visão do universo e da sua relação com a vida humana que a ciência moderna, na sua crescente especialização e na preocupação de aderir, de modo cada vez mais completo, à variedade da experimentação, abandonou e que hoje, a seguir ao recuo crítico das pretensões ao absoluto da própria ciência, o homem contemporâneo volta a considerar, embora em termos profundamente mudados.
-
esoterismo/pra/alquimia.txt · Last modified: by 127.0.0.1
-
-
-
-
-
-
-
-
