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ASTROLOGIA
Enciclopédia Einaudi 18. Natureza — Esotérico/exotérico. Lisboa: IMPRENSA NACIONAL-CASA DA MOEDA, 1990
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A astrologia constitui uma visão unitária da realidade que relaciona o mundo celeste ao mundo humano, orientando-se tanto por um viés explicativo-causal quanto por uma dimensão profética sobre acontecimentos futuros.
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Dois critérios de fundo organizam essa visão: a unidade do cosmos e a convicção de que as grandes vicissitudes históricas obedecem a uma estrutura universal cognoscível.
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Aristóteles afirmou que o mundo inferior está necessariamente ligado ao movimento do mundo superior, e Platão, no Timeu, destacou os vínculos que percorrem todo o universo.
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Essa convicção não era pessoal de Platão nem de Aristóteles, mas traduzia conceitualmente uma herança do pensamento grego derivada da tradição oriental.
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Nas civilizações orientais, gregas e helenísticas, a visão unitária do universo correspondia a uma exigência real de unificação dos conhecimentos e de continuidade na consideração da realidade.
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A aspiração prática da astrologia expressa uma forma embrionária de exigência de racionalidade da história e de participação humana na formação dos grandes acontecimentos.
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A astronomia e a astrologia nasceram simultaneamente, a partir de perspectivas distintas sobre os fenômenos celestes, e o destino histórico da astrologia está ligado à afirmação e à decadência da visão unitária do cosmos.
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A opinião corrente, consolidada com a ciência moderna, de que a astrologia teria precedido a astronomia como etapa superada, não corresponde ao desenvolvimento histórico efetivo.
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Cláudio Ptolomeu foi ao mesmo tempo autor do Almagesto, fundamento da astronomia por quatorze séculos, e do Tetrabiblos, obra que se tornou referência da astrologia para o Islão e os povos latinos.
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A distinção entre as duas disciplinas reside na perspectiva: a astronomia considerou os fenômenos celestes em si mesmos, sob disciplina matemática; a astrologia os considerou na perspectiva da unidade do universo e da ligação com o mundo terrestre.
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Kepler, nos primórdios da ciência moderna, reconheceu o influxo dos astros sobre a Terra como critério geral impossível de ser descartado, ainda que tenha criticado muitas degenerações da astrologia.
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A decadência da astrologia está mais ligada à crise do espírito cosmológico do que ao simples desenvolvimento da astronomia; a relevância desta última se deve à afirmação geral do espírito científico.
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O espírito prático animou a astrologia desde suas origens mesopotâmicas, orientando-a para a previsão de ocorrências humanas — tanto coletivas quanto individuais — a partir da observação dos astros.
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Para os babilônios, a astrologia exerceu funções cronológico-calendárias e topográficas de caráter sagrado, às quais se somou rapidamente a previsão dos acontecimentos humanos.
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Desde suas origens na Mesopotâmia, por volta de 2500 a.C., as mais antigas tábuas caldaicas conhecidas tratam de presságios celestes e do influxo do céu sobre as ocorrências políticas de grande impacto.
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A extensão das previsões astrais dos grandes acontecimentos históricos — como as campanhas de Dario e Alexandre — às ocorrências individuais e a indivíduos de menor importância histórica parece remontar à era helenística, atribuída à cultura grega e babilônica desse período.
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O influxo do pensamento mitológico e religioso sobre a astrologia é indireto e historicamente tardio, pois a convicção da unidade do universo tem raiz cosmológica anterior à conexão da divindade com o mundo celeste.
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A tradição religiosa forneceu à astrologia um consolidamento quando passou a considerar os astros como sede da divindade, produzindo um encontro entre perspectiva teológica e perspectiva cosmológica.
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No âmbito da tradição cristã, esse encontro gerou problemas cuja discussão marcou momentos significativos na história da astrologia.
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O gnosticismo religioso, com seu dualismo radical e a contraposição entre elementos celestes e terrestres, submeteu a dura prova a visão unitária da astrologia, tanto a de origem babilônica quanto a de tradição grega.
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Por uma dialética implícita, a dualidade gnóstica acabou por reativar, com as devidas distinções, o influxo e a ligação que pretendia negar.
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Uma colaboração mais homogênea se estabeleceu entre a astrologia e o misticismo, especialmente na mística dos números de origem pitagórica, na teoria da harmonia celeste e na concepção dos astros como guiados por um princípio animado.
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A astrologia desenvolveu, a partir de uma base astronômica, uma complexa estrutura técnica que articula planetas, signos do zodíaco e casas celestes para fundamentar suas inferências sobre o destino humano e coletivo.
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O horizonte de um lugar divide o céu em dois hemisférios; o meridiano divide cada hemisfério; obtêm-se assim quatro partes, cada uma subdivisível em três, resultando em doze fusos correspondentes às doze casas da astrologia.
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A cintura do zodíaco corta as casas obliquamente, e os círculos que limitam as casas encontram a elíptica em doze cruzamentos chamados pontos.
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O Sol, a Lua e os planetas colocam-se entre dois pontos, numa casa determinada; cada planeta percorre um ponto durante certo tempo enquanto o movimento diurno atravessa diariamente as doze casas.
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Os planetas, na estrutura cosmológica da astrologia, não são corpos celestes abstratos, mas entidades dotadas de atributos físicos, fisiológicos e morais que os conectam ao mundo humano individual e coletivo.
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Os planetas possuem qualidades como calor, frio, seco e úmido, ligando-se a aspectos do mundo físico, fisiológico e mental numa cadeia de continuidade cosmológica.
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A cada planeta é intrinsecamente atribuída uma ação benéfica ou maléfica em relação às ocorrências humanas; Júpiter, a Lua e Vênus não existem no universo como corpos estranhos à história e à vida humana.
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Os signos do zodíaco também são dotados de virtudes específicas determinadas pela ligação com os quatro elementos — ar, água, fogo e terra.
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A ligação entre corpos celestes, signos e indivíduos humanos é mediada pela teoria dos quatro humores — sangue, bílis, bílis negra e fleuma —, em correspondência com os quatro elementos e com a estrutura celeste.
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As doze casas participam do significado dos doze signos com os quais estão em paralelo e são hierarquizadas conforme a posição e os ângulos que formam com a elíptica, sendo associadas a aspectos determinados da vida dos indivíduos e dos povos.
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Da conexão entre macrocosmos e microcosmos resulta uma tipologia humana e uma caracterologia fundada na combinação das quatro qualidades físicas com os quatro elementos e os quatro humores.
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O temperamento sanguíneo, associado ao calor e ao úmido, caracteriza pessoas ativas e cheias de iniciativa.
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O temperamento colérico ou bilioso, associado ao calor e ao seco, inclina para a atividade política e os ofícios das armas.
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O temperamento melancólico ou nervoso, associado ao frio e ao seco, predomina entre pessoas dotadas de imaginação e dedicadas às artes.
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O temperamento linfático ou fleumático, associado ao frio e ao úmido, caracteriza contemplativos, emotivos e homens dedicados à pesquisa científica.
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Essa teoria dos tipos não resulta apenas da observação empírica, mas de uma consideração unitária da realidade, e permite interpretar o comportamento humano à luz de predisposições individuais sedimentadas.
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A astrologia desenvolveu uma medicina de base cosmológica que reconduz as doenças e as características físicas do corpo humano a causas celestes, opondo-se à tradição que ela denomina materialista.
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Paracelso fez remontar essa medicina iniciática às antigas fontes egípcias, relacionando as alterações do organismo com sua causa celeste.
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Com base na medicina astrológica, seria possível identificar uma doença anos antes de seu aparecimento, conhecer sua natureza, o momento de ataque ao organismo e sua evolução.
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A cada planeta é atribuída a capacidade de estimular um aspecto particular de energia biológica: ao Sol, a capacidade vital e energética; à Lua, a nutritiva e expulsiva; a Marte, o poder inflamatório e dilatante; a Saturno, os traços depressivos e atônicos.
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As diversas partes do corpo são distribuídas em correspondência com os signos celestes: Gêmeos presidem aos braços e pulmões, Leão ao coração, Balança aos rins e Escorpião ao aparelho genital.
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Aspectos físicos como estatura, aspecto capilar, cor da pele, formato do rosto, tamanho dos olhos, implantação das orelhas e calvície são reconduzidos a influências de corpos celestes, correspondendo, em âmbito mais restrito, ao que hoje se chama herança genética.
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A astrologia também atentou para aspectos da vida coletiva e histórica: condições gerais do Estado, modo de vida das massas, prosperidade de nações, desenvolvimento da riqueza, atividade dos instrumentos de troca, guerras, cataclismos e ascensão e queda de governos.
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O conflito entre a astrologia e o cristianismo revela, de um lado, a defesa cristã da liberdade humana e da transcendência divina e, de outro, a reivindicação astrológica de uma concepção racional, ordenada e autossuficiente do universo.
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O cristianismo desconfiava da subordinação do homem à potência dos astros por considerar que tal subordinação reduzia dramaticamente a responsabilidade e a liberdade humanas.
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A astrologia, com sua visão naturalista, aspirava a reconduzir todos os acontecimentos do universo a uma regularidade constante e autônoma, afastada de iniciativas extrínsecas.
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O pensamento cristão introduziu na concepção do homem e do universo uma componente misteriosa e sobrenatural — hierarquias angelicais e potências diabólicas — que contradizia toda visão ordenada da realidade.
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A astrologia, confrontada com a tradição religiosa, defendeu uma concepção autossuficiente do universo como realidade concluída e ordenada em si mesma, combatendo em nome da conexão causal e da racionalidade do mundo.
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O horóscopo das religiões, elaborado pela astrologia, expressa o confronto entre uma visão sobrenatural do desenvolvimento histórico e uma concepção que reconduz até os acontecimentos mais elevados a causas inseridas no contexto unitário da realidade.
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A cultura do Renascimento operou uma mediação entre a reivindicação cristã da liberdade humana e o reconhecimento do espírito racional e científico presente na astrologia, transformando o horóscopo em instrumento dinâmico de análise das circunstâncias.
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A astrologia antiga tendia a mostrar em que estrutura já definida o futuro deveria ser inserido, sem possibilidade de desvios; a astrologia renascentista conferiu ao futuro maior autonomia e ao horóscopo uma dimensão aberta.
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Nas mãos dos condottieri, príncipes e chefes, os horóscopos tornaram-se instrumentos de análise das circunstâncias, indicando acontecimentos possíveis e impossíveis para orientar a ação de modo racional e prudente.
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Com a teoria das interrogações e das eleições, a astrologia renascentista ensinou a examinar o estado do céu num determinado momento para compreender as consequências e determinar as circunstâncias mais favoráveis à iniciativa humana.
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A liberdade humana, nesse contexto, não é motivo abstrato, mas iniciativa concreta capaz de se inserir, com continuidade própria, dentro do determinismo cósmico sem romper completamente a cadeia de acontecimentos.
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No Renascimento, a relação entre astrologia e magia revela uma oposição aparente que se resolve numa dependência mútua: a disciplina objetiva da astrologia é condição para o exercício da iniciativa mágica do sujeito.
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A astrologia remete para um universo fechado e determinado; a magia apela à iniciativa operante do sujeito e ao novo e imprevisto.
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A magia renascentista não é apelo à criatividade incondicional nem à ação arbitrária: o homem só pode exercer sua iniciativa sob a condição de penetrar, pelo conhecimento, na estrutura profunda e unitária da realidade universal.
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A disciplina objetiva e naturalista imposta pela astrologia é a condição primordial do desenvolvimento concreto da magia, restabelecendo entre ambas um vínculo de continuidade.
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Apesar dos procedimentos analógicos e qualitativos cientificamente inadequados, a astrologia prefigurou um conjunto singularmente rico de pesquisas e introduziu uma primeira organização cognitiva em domínios que resistiram tenazmente à penetração do saber.
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A astrologia afirmou uma visão unitária do universo à qual a ciência contemporânea tenta retornar por caminhos mais controlados.
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Enfrentou o problema de uma primeira organização cognitiva do homem, de seu ser espiritual, da conexão deste com a realidade corporal, do mundo das atitudes, predisposições e ações, e da ligação de tudo isso com o que Hegel chamaria de espírito objetivo.
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Com o analogismo da astrologia delineou-se uma apreciação unitária da história na qual a base física e material do universo fez valer sua incidência, promovendo a desmistificação inicial do mundo religioso e, por essa via, do mundo histórico.
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A astrologia contemporânea sobrevive como resíduo empobrecido de sua matriz histórica, deslocada dos grandes acontecimentos coletivos para as preocupações individuais e pequeno-burguesas, em conflito absurdo com a ciência oficial.
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Paul Couderc, em L'astrologie (1974), denunciou que a astrologia rouba dos pobres recursos que serviriam à saúde, lança perturbação nos espíritos, inclina ao fatalismo, desmoraliza os fracos e se opõe ao progresso e à razão.
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Psicólogos afirmaram não existir indício de que a astrologia tenha qualquer valor como indicador do passado, do presente ou do futuro, nem razão para crer que acontecimentos sociais possam ser previstos pela astro-adivinhação.
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A astrologia atual tornou-se pequeno-burguesa: suas previsões não dizem mais respeito aos grandes acontecimentos da humanidade, mas ao mundo individual — sorte nos negócios, amores, saúde, encontros e heranças.
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A mentalidade científica contemporânea, no culto do particular, também dá menos importância à visão unitária do universo, deixando essa instância à margem do domínio do conhecimento.
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A sobrevivência da microastrologia contemporânea se explica pelas condições sociais de estratos culturalmente menos integrados ao desenvolvimento científico e capitalista, para os quais ela cumpre função de unificação da experiência e esboço de sentido.
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A American Society of Psychological and Social Studies indicou que a razão principal que leva as pessoas à astrologia é a falta, em sua própria vida, de recursos para resolver graves problemas pessoais.
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Em épocas de crise e de profundas mutações sociais, quando cedem as defesas normais do indivíduo contra a credulidade, a astrologia se impõe com mais facilidade.
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Análises sociológicas mais finas identificaram as bases sociais dos estratos tocados apenas indiretamente pela revolução burguesa e pelo capitalismo, situados numa zona intermediária entre estruturas arcaicas e a nova organização do trabalho.
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Nessas classes amorfas, a microastrologia encontra seu terreno de desenvolvimento, frequentemente como substituto de uma religião que perdeu credibilidade e como visão de mundo de inspiração laica e naturalista.
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Esses estratos mantêm-se unidos aos restos do passado enquanto não encontram formas de organização da vida real mais adequadas e universais; a microastrologia é, assim, índice das incongruências do progresso e da função estrutural de seus atrasos.
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