esoterismo:pra:cabala
CABALA
Enciclopédia Einaudi 18. Natureza — Esotérico/exotérico. Lisboa: IMPRENSA NACIONAL-CASA DA MOEDA, 1990
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O termo qabbalah, que em hebraico significa literalmente tradição, possui uma acepção genérica — que designa todo o desenvolvimento da mística hebraica desde o século I a.C. até o presente — e uma acepção própria mais restrita, que se refere ao período determinado afirmado na França Meridional e na Espanha dos séculos XIII e XIV, com fase clássica nos séculos XIV e XV.
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A mística hebraica apresenta características comuns às de outros movimentos místicos, mas também caracteres próprios devidos aos laços intrínsecos que a ligam à realidade histórica do hebraísmo, sendo a mística em geral definível como a forma de religião fundada numa relação a Deus imediatamente percebida, numa experiência direta e quase tangível da presença divina.
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O objeto da mística pode ser Deus, mas também a realidade metafísica em sua acepção absoluta ou a realidade do universo considerado de modo unitário.
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A experiência mística, em sua forma mais imediata, ocupa-se das formas vividas e sentidas na relação com o objeto, recorrendo à fantasia, à imaginação e à observação, e expressando-se por paradoxos e contradições que a reflexão lógica recusa.
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A experiência mística, como tentativa de instituir uma relação viva entre o finito e o infinito, não pode ocorrer quando há fusão tão compacta que não permita distinção, nem quando a distinção é separação tão rigorosa que torne impossível qualquer ligação.
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Nas grandes religiões monoteístas, a mística situa-se amiúde nos períodos que se seguem às origens e procura corrigir a radical dualidade do finito e do infinito sobre a qual essas religiões se constituem inicialmente, apresentando-se não como ruptura da tradição, mas como esforço de renovação por nova interpretação dos antigos valores religiosos.
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A iniciativa mística comporta, de forma indireta e às vezes subentendida, uma exaltação da individualidade: o místico, ao mesmo tempo que respeita a antiga revelação, considera-a não encerrada e levanta seus véus pela nova experiência mística, arriscando-se a violar as fronteiras do que as instituições codificadas da religião tendem a considerar como revelação histórica única e conclusa.
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A mística hebraica apresenta configuração específica estreitamente relacionada com a complexa realidade histórico-religiosa do hebraísmo, acentuando o motivo da tradição ao caracterizar-se como cabala, mas paradoxalmente infringindo a tradição exatamente quando dela se reclama.
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A mística hebraica acentua o caráter pessoal e íntimo da experiência mística, concebendo-a como algo secreto não apenas quanto aos destinos do homem, mas também por apontar para uma doutrina dirigida apenas a um círculo restrito de adeptos no interior do qual é transmitida.
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Os estudiosos que sublinharam a analogia com os cultos mistéricos da época helenística quiseram destacar que os cabalistas declaram insistentemente querer dirigir-se apenas a grupos muito restritos de pessoas dotadas dos requisitos indispensáveis para ter acesso aos segredos da revelação.
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Paradoxalmente, o secretismo cabalístico, embora acentuando o caráter individual e privado da experiência mística, acaba por dar relevo à via rigorosa necessária para aceder ao patrimônio da sapiência original da humanidade — o saber místico pretende reportar-se ao genuíno saber das origens, ao saber de Adão.
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Os cabalistas pretendem transmitir a revelação original, embora o que é proposto pelas formas da tradição não possa ser identificado com seu conteúdo de origem — chega a parecer que confiam à própria tradição, em sua objetividade, a missão de se desenvolver e modificar a si mesma.
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Outro paradoxo da cabala reside no fato de que, ao mesmo tempo que pretende dirigir-se a grupos restritos, consegue ter incidências profundas na vida de todo o povo hebraico, o que se explica pela correspondência entre o grande desígnio cosmológico da cabala e as vicissitudes históricas do povo.
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A cabala aprofunda o grande desígnio da geração do universo por Deus e do retorno do universo a Deus, com longas analogias com a concepção cíclica do neoplatonismo.
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A correspondência entre o caráter negativo e desanimador da experiência histórica do povo hebraico em suas fases cruciais e a natureza positiva e compensatória da vivência religiosa na profunda obscuridade da intuição mística explica a penetração popular da cabala.
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Sobretudo em momentos críticos de sua vivência histórica, o povo hebraico encontrou na mística cabalística uma correspondência profunda com elementos fundamentais de sua essência ética e com as provas históricas que atravessava.
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Segundo Scholem, o segredo do sucesso da cabala reside no fato de sua relação com a herança espiritual do hebraísmo rabínico ser muito mais profunda e positiva do que a da filosofia, sendo os dois movimentos em muitos aspectos contemporâneos e estando em relação de conflito potencial progressivamente acentuado.
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Enquanto a filosofia propôs, também no âmbito da tradição hebraica, uma visão racional do mundo e dos meios para enfrentar as provas da história, a cabala propôs o recurso à intuição mística e à iluminação religiosa para superar as mesmas dificuldades.
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Na própria evolução da cabala podem distinguir-se uma orientação prevalentemente profética, preocupada com a salvação individual, e uma orientação principalmente teórica, que pede à cabala a determinação de um saber com caráter próprio que a distingue nitidamente do saber filosófico.
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A cabala e seus promotores, ainda que idealmente restringindo o número de adeptos, fizeram apelo a elementos da tradição ética e religiosa mais solidamente radicados na consciência popular — entre eles a halakah, conjunto de prescrições religiosas e práticas místicas que a reflexão filosófica só podia considerar com afastamento, e que a cabala transformava em operações mistéricas repletas de significados místicos, vinculando as ações rituais habituais aos movimentos do mundo interior e transformando a devoção hebraica cotidiana num momento do drama cósmico.
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A cabala conservou também a vitalidade da haggadah ou lenda — conjunto de mitos populares do mundo hebraico — dando nova interpretação a esses mitos sem lhes retirar a vitalidade e alargando-lhes a significação.
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A cabala assumiu atitude muito mais compreensiva do que a reflexão filosófica face à liturgia e à oração, e conservou ligação aberta com os aspectos elementares da fé popular, nunca omitindo o empenho quanto aos sentimentos fundamentais da vida e da morte, da solidão e da angústia no mundo do simples fiel — parte importante de sua vitalidade explica-se pelo esforço de não se isolar da experiência religiosa popular com todas as suas contradições e aspectos irracionais.
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Ao mesmo tempo que mantinha laço íntimo com a experiência religiosa popular, a cabala desenvolvia sua criatividade mística em direção que a aproxima de outras correntes ligadas às capacidades não exclusivamente intelectuais e cognitivas do homem, distinguindo-se porém do gnosticismo, aproximando-se em certos aspectos do neoplatonismo e partilhando com o hermetismo o caráter mistérico da iniciação.
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Houve trocas históricas entre o movimento cabalístico e o movimento gnóstico, mas a cabala apresenta perspectiva menos drástica da queda e da salvação, visão de maior continuidade na relação entre finito e infinito, e evita os traços dualistas mais brutais próprios da tradição gnóstica — a realidade do mundo não é considerada pela cabala com o distanciamento ascético e o sentido de aversão que nela vê a obra de um princípio antitético ao divino.
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A cabala avizinha-se mais do espírito do neoplatonismo por implicar, como este, a concepção de um processo que vai de Deus ao mundo e retorna do mundo a Deus numa perspectiva unitária, com ascensão gradual e contínua até à contemplação do êxtase — diferenciando-se, porém, por não se servir de elementos prevalentemente especulativos e racionais, mas de um simples propósito místico-religioso.
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Com o hermetismo, a cabala possui em comum o caráter mistérico da iniciação e o considerar a revelação original como patrimônio de base de toda a humanidade a ser constantemente restabelecido para além de manipulações subjetivas e arbitrárias — separando-se, contudo, do hermetismo pelo constante e enérgico chamamento ao motivo da revelação divina inicial e pelo nexo particularíssimo que mantém com a vivência histórica do povo hebraico.
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