esoterismo:pra:ciencia-das-letras
CIÊNCIA DAS LETRAS
Enciclopédia Einaudi 18. Natureza — Esotérico/exotérico. Lisboa: IMPRENSA NACIONAL-CASA DA MOEDA, 1990
-
A ciência combinatória das letras, desenvolvida principalmente com a obra de Abu l-'Afiya, reveste-se de dois aspectos distintos: o alcance ontológico das letras como elementos da estrutura das coisas e a prática meditativa abstrata que prescinde do sentido para atrair o pensamento num movimento harmônico puro.
-
A teoria cabalística sustenta que a palavra é a essência do mundo e que todas as coisas existem enquanto participantes do grande nome de Deus, sendo as letras que formam a linguagem espiritual do pensamento divino também elementos da estrutura das coisas — as letras possuem, portanto, alcance ontológico e sentido determinado.
-
Quando o sentido das letras passa a segundo plano, a linguagem capta por si mesma a atenção e a meditação, atraindo o pensamento e a alma num movimento harmônico privado de todo o sensível — entra-se numa combinação abstrata destituída de conteúdo que limitaria seu alcance.
-
Segundo Scholem, a ciência das combinações das letras é uma música do pensamento puro: a série das letras do alfabeto corresponde à escala diatônica da música, e todo o sistema corresponde a princípios musicais aplicados não às notas, mas ao pensamento em meditação, compondo motivos experimentados em todas as suas variações e acordes.
-
A ciência das combinações das letras responde simultaneamente a uma exigência mística e a uma instância lógico-linguística, sendo que não apenas o hebraico mas toda língua falada pode dar lugar ao mesmo exercício, pois todas as línguas são consideradas corrupções da língua hebraica original à qual se mantêm afins.
-
No aspecto lógico-linguístico, a cabala desenvolve uma gramática especulativa do hebraico e, por extensão, de todas as línguas, operando sobre os grafemas por meio de três técnicas principais.
-
O notarikon ou técnica do acróstico consiste em reunir as letras iniciais ou finais de várias palavras para formar uma só palavra, sendo a passagem de sentido considerada rigorosa e objetiva, contida na própria estrutura dos grafemas e solicitada pelo alcance objetivo de seu valor semântico.
-
A guematria ou valoração numérica da palavra é uma das técnicas mais largamente usadas na cabala: por exemplo, as quatro letras da palavra hebraica para o azeite do candelabro têm valores numéricos que correspondem exatamente aos anos em que o candelabro iluminou o primeiro e o segundo templo, demonstrando que a estrutura do grafema não é casual nem arbitrária e que a correspondência entre estrutura gráfica, valor numérico e valores semânticos é necessária.
-
A temurah ou técnica da permutação consiste em transpor as letras de um grafema para obter outro grafema em exata relação de oposição com o primeiro — assim, por exemplo, as palavras prazer e dor escrevem-se em hebraico com as mesmas letras em disposições diversas, disciplinando a estrutura dos termos de modo a referir-se, pela diferente disposição das mesmas letras, à oposição dialética que pulsa entre os dois significados.
-
Da análise linguístico-semântica assim desenvolvida deriva uma complexa construção carregada de específico valor cognitivo, em que operam nexos simbólicos entre letras e números, entre letras e significados e entre números e significados, possibilitando um número indefinido de cálculos e passagens.
-
Para além da gramática especulativa e da combinatória, as letras possuem uma realidade mais profunda que só a exegese cabalística pode descobrir, colocando-se para além de qualquer lógica racional e de qualquer simples mecânica combinatória — e é nessa profundidade que se situa o estágio mais avançado da penetração mística.
-
Na ascese cabalística distinguem-se duas vias: a via dos sefirot, também chamada via rabínica, que tem precedência na meditação, e a via dos nomes ou via profética, que sucede à primeira e representa um estágio mais avançado.
-
A via ordinária tem início com o afastamento da alma de todas as formas naturais e imagens do mundo familiar; a reflexão filosófica pode ajudar nessa direção ao fornecer o conhecimento das várias ciências, mas pode constituir também um impedimento, pois quem se abandona à doçura do saber não encontra portas nem saídas que lhe consintam sair dos conhecimentos já adquiridos, segundo o Sha'areh zedeq citado por Scholem.
-
A cabala indica uma direção contrária à das ciências da natureza: ensina o método da permutação e combinação das letras e a mística dos números, mas ao fim exige apagar também tudo isso, pois é preciso separar-se de toda forma finita, mesmo a do mais alto grau.
-
A via dos nomes em sua mais alta expressão, segundo Scholem, é esta: quanto mais os nomes são incompreensíveis, tanto mais alto é seu nível, até que se chegue a sentir o efeito de uma força que não está sob o domínio do místico, por ser ela própria a ter sob seu domínio o intelecto e o pensamento.
-
esoterismo/pra/ciencia-das-letras.txt · Last modified: by 127.0.0.1
-
-
