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ESCOLAS FILOSÓFICAS
Enciclopédia Einaudi 18. Natureza — Esotérico/exotérico. Lisboa: IMPRENSA NACIONAL-CASA DA MOEDA, 1990
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A distinção entre esotérico e exotérico foi aplicada a algumas escolas filosóficas da Antiguidade, sendo famosa a utilização por Aristóteles da expressão logoi exotertkoi — discursos exotéricos — na Metafísica (1086a, 25), que deu lugar a uma grande questão exegética com múltiplas interpretações.
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Uma primeira interpretação distingue os escritos de juventude de Aristóteles, próximos de Platão e hoje perdidos — os exotéricos —, do corpus aristotelicum das lições acumuladas para o ensino interno — os acroamáticos ou esotéricos.
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Uma segunda interpretação refere uma distinção interna no Liceu entre lições matutinas de Lógica, Física e Metafísica, reservadas aos mais íntimos, e lições vespertinas de Retórica, Política e Dialética, destinadas a público mais vasto — gerando respectivamente escritos esotéricos e exotéricos.
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Uma terceira interpretação, favorecida pela tradição neoplatônica tardia, concebe o Liceu como associação de inspiração religiosa análoga à escola pitagórica, com iniciados a quem eram reservados ensinamentos internos e secretos.
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Uma quarta interpretação, coerente com o método filosófico e científico da escola, considera discursos exotéricos os mais imediatamente externos a um determinado tratamento ou ao contexto dos problemas debatidos na escola por método dialógico e dialético, diferente do método do conhecimento científico.
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A questão do verdadeiro significado da escola aristotélica permanece sem solução definitiva: as escolas filosóficas nunca tiveram caráter puramente intelectual, estando frequentemente ligadas a associações religiosas, mas o raciocínio filosófico é quase institucionalmente dirigido para orientação contrária ao esoterismo, na medida em que reivindica método racional de reconhecimento universal e objetivo, eliminando o segredo e o mistério, e se dirige em princípio a todos os homens, independentemente de pertencerem a grupo restrito ligado por iniciação específica.
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A escola pitagórica exemplifica com clareza a natureza composta das escolas filosóficas antigas como misto de associação religiosa e movimento filosófico, e Aristóteles, no fragmento 15 de Da Filosofia, demonstra ter clara noção tanto da iniciação esotérica quanto de sua diferença em relação ao ensino.
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Segundo o fragmento citado por Colli, Aristóteles afirma que os iniciados não devem aprender algo, mas passar por uma emoção para alcançar um certo estado — o que pertence ao ensino chega pelo ouvido, enquanto o que pertence à iniciação chega quando a capacidade intuitiva passa pelo fulgor, ocasião que Aristóteles chama esotérica e compara às iniciações de Elêusis.
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Heródoto aproxima os ritos órficos dos pitagóricos, atribuindo a ambos práticas relativas às vestes em lugares sagrados e sepulturas (Histórias, 2, 81).
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Segundo Heródoto e Platão, a escola pitagórica não foi apenas instituto científico, mas associação religiosa cujos membros eram iniciados como os seguidores do orfismo, obrigados a seguir regra de vida precisa incluindo abstinência de alimentos animais.
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Jâmblico (Da Vida de Pitágoras, 17, 72) descreve dois grupos distintos de discípulos: os exotéricos ou acusmáticos, no início da iniciação com obrigação rigorosa de silêncio, e os esotéricos, videntes (epóptai) ou cientistas (mathematikoí), mais avançados.
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A distinção se estendia às doutrinas, algumas das quais eram secretas e não podiam ser difundidas entre os profanos.
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A comunidade pitagórica era de tipo aristocrático, mas sua aristocracia não se baseava na polis — tendia antes a negá-la, transferindo o poder político da comunidade dos cidadãos para uma comunidade esotérica de iniciados, readmitindo na comunidade religiosa estamentos e grupos que na sociedade política eram opostos e divididos.
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Nas escolas neoplatônicas da época helenística, a orientação esotérica teve significativa recuperação e importante afirmação, condicionando não apenas as estruturas associativas das escolas filosóficas, mas a própria investigação filosófica em sua organização teórica e construtiva, ao obrigá-la a reduzir as características objetivas e universais da pesquisa a favor de uma acentuação mística de sua temática.
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A predominância das orientações religiosas esotéricas na época helenística e a estreita ligação entre filosofia e religião explicam essa recuperação.
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As instâncias de reorganização dos motivos comunitários invadiram progressivamente as comunidades e escolas filosóficas, que assumiram caráter de comunidades esotéricas — o esoterismo associativo que visa corrigir as deficiências de uma organização social excessivamente dilatada atingiu mesmo os grupos que institucionalmente mais deveriam manter-se distantes de sugestões iniciáticas.
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O motivo esotérico, traduzindo-se pela aspiração à total inversão da visão comum da vida e do mundo, condicionou a investigação intelectual da filosofia, impregnando-a com as perspectivas de libertação e regeneração e com a temática escatológica e soteriológica.
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A atividade intelectual filosófica, antes caracterizada por rigorosa disciplina pública e indeterminada extensão mental, passou a ser interpretada como regra de iniciação a salvaguardar em seu caráter privilegiado, defendendo-a da incompreensão que a rodeia.
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Para além das formas históricas assumidas pela influência do esoterismo religioso sobre as escolas filosóficas na época helenística, pode delinear-se, através dessas circunstâncias, a maturação de um esoterismo de derivação cognitiva — científica ou filosófica —, que corresponde à crise periódica do conhecimento e de sua organização sistemática.
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Essa crise permite ao conhecimento destacar-se de seus produtos mais consumados para fazer valer a instância de um novo recomeço e de um novo princípio, mediante o apelo a motivos de compreensão mais imediata e misteriosa.
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Também esses motivos reúnem com frequência elementos de uma tradição superada e abandonada, mas com intenção de distanciamento crítico, que é igualmente motivo possível de progresso.
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