ESOTÉRICO/EXOTÉRICO
Enciclopédia Einaudi 18. Natureza — Esotérico/exotérico. Lisboa: IMPRENSA NACIONAL-CASA DA MOEDA, 1990
O par de termos ‘esotérico/exotérico’ (directamente derivado das expressões gregas esoterikos e exoterikos) corresponde à oposição entre interno–externo, secreto-público, reservado-profano, privilegiado-popular e semelhantes. A antítese evoca essencialmente o privilégio de alguns e a exclusão de outros, um critério de selecção e de discriminação para com uma massa indiferenciada e a favor de poucos eleitos. Dos dois termos da antítese, o primeiro é o mais significativo precisamente porque acentua o aspecto positivo da relação, isto é, o âmbito propriamente reservado, secreto e privilegiado; é, com efeito, do adjectivo ‘esotérico’ que deriva o substantivo ‘esoterismo’, que abrange todas as formas em que a instância do segredo, do mistério, do silêncio, se exprimiu e determinou. Tais formas são múltiplas; de facto, às vezes, a instância do segredo e de uma correspondente iniciação diz principalmente respeito ao âmbito religioso, e isso quer do ponto de vista da associação onde os homens se reúnem com um objectivo religioso quer do ponto de vista do próprio conteúdo da revelação ou crença religiosa. Em outros casos, pelo contrário, o segredo e a iniciação referem–se mais directamente à estrutura da associação onde os homens se reúnem e à sua organização, independentemente das finalidades religiosas. Mas o âmbito do conhecimento mais geral dá também ocasião a que se forme um conjunto de conhecimentos que são considerados como secretos e reservados, por oposição a outros conhecimentos de aquisição mais imediata. E isso pode acontecer quer no que se refere a escolas filosóficas propriamente ditas quer no que se relaciona com conhecimentos técnicos e artesanais das comunidades profissionais quer ainda em relação ao desenvolvimento da própria investigação científica. Além disso, a instância esotérica do mistério e da iniciação, quer tenha por conteúdo a temática religiosa quer assuma como seu objecto a tentativa cognitiva em geral, associa-se quase sempre à instância esotérica de carácter associativo. Em resumo: quer se queira dar relevo a um novo conteúdo religioso quer se pretenda sublinhar o desenvolvimento de um âmbito particular do conhecimento, propomo-nos conseguir esses resultados também através de um esoterismo associativo, isto é, recorrendo a um tipo de associação em que o mistério e a iniciação têm um papel relevante e decisivo.
Para além das diversas formas que o esoterismo tem vindo historicamente a assumir, parece desde já importante compreender a função mais geral que desempenha nas suas instâncias fundamentais, que são precisamente a instância do secretismo contraposta à do carácter público e adquirido e vulgarizado de certos conteúdos próximos da instância da selecção e da iniciação como disciplina de abordagem àqueles conteúdos, em contraste com o seu domínio comum e originário. Dir-se-ia que, perante a expansão e imposição unitárias e omnicompreensivas de certos aspectos ou sectores da esperiência humana, alguns grupos se tenham proposto reagir, fazendo valer a instância contraposta do mistério e da selecção-iniciação; e assim, perante a imposição de uma organização vasta e unitária da sociedade, são chamados a constituir associações secretas e reservadas aos iniciados; frente à expansão de uma religião que tende a coincidir com o âmbito de toda uma sociedade, são levados a apostar em formas religiosas esotéricas e de iniciação; frente à consolidação de critérios de conhecimento cada vez mais latos e universais, apelam a conhecimentos superiores e reservados. Não é fácil conseguir entender o significado do esoterismo no curso da história, tal como também não é fácil captar o seu sentido unitário sob as múltiplas e díspares manifestações que o caracterizam. Bastará recordar aqui que o esquema de consideração ao qual se apelava habitualmente na idade positivista e do cientismo contemporâneo, aquele que opõe de modo drástico e frontal o âmbito definitivo do conhecimento a qualquer pretensão de pôr em questão o seu carácter absoluto, não parece adequado para captar o significado histórico do esoterismo. Este não pode, portanto, continuar a ser rigidamente considerado como o mero antecedente negativo da ciência moderna. Talvez seja possível, mediante a análise de algumas das formas principais que foi assumido no curso da história, descobrir também uma sua tentativa crítica não completamente esgotada e concluída.
