esoterismo:pra:iniciacao
INICIAÇÃO
Enciclopédia Einaudi 18. Natureza — Esotérico/exotérico. Lisboa: IMPRENSA NACIONAL-CASA DA MOEDA, 1990
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As formas históricas mais avançadas do esoterismo caracterizam-se pela natureza ainda mais acentuadamente composta da instância secreta e iniciática, combinando elementos associativos, religiosos e cognitivos em equilíbrios diversos, com a preeminência variável de um ou outro desses elementos.
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No âmbito da tradição hebraica, o esoterismo da cabala reúne inequivocamente os três elementos constitutivos — associativo, religioso e cognitivo —, desempenhando papel histórico relevante na renovação da originalidade e do caráter imediato da religiosidade e do espírito social hebraicos.
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O elemento associativo manifesta-se na constituição de grupo restrito de iniciados explicitamente vocacionado para não expandir seus próprios conhecimentos.
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O elemento religioso evidencia-se pelo apelo à revelação primitiva, pela convicção de que o princípio originário reside na iniciativa divina e pelo espírito de íntima adesão à tradição religiosa.
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O elemento cognitivo expressa-se na instância de um conhecimento superior e misterioso, com enorme apelo a formas rigorosas de conhecimento cujo significado transcendente nunca é ultrapassado.
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O esoterismo cristão é matéria de difícil tratamento, pois, embora o cristianismo tenha surgido em ambiente largamente dominado pelo espírito esotérico, encaminhou-se progressivamente para a superação das comunidades iniciáticas pela afirmação de uma nova comunidade aberta a todos os homens.
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Os manuscritos de Qumrã, do século I, relacionados com a seita dos Essênios — que se chamavam filhos da luz, definiam sua doutrina como nova aliança, viviam vida cenobita às margens do mar Morto e admitiam hierarquia de afiliados com iniciados no vértice —, foram invocados por alguns estudiosos como provas indiretas de um esoterismo cristão das origens.
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Foi em Alexandria que se deu o encontro do cristianismo com o hermetismo, alimentando a proposta renovada de uma instância esotérica no desenvolvimento da tradição cristã.
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Antes de Constantino, o esoterismo representava para o cristianismo a influência do ambiente helenístico; depois de Constantino e da transformação do cristianismo em religião do império, tornou-se também tentativa de recuperar o espírito de perfeição da nova religião contra os perigos de sua socialização e adaptação à vida comum.
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A experiência dos anacoretas cristãos que, a partir do século IV, se retiraram para eremitérios do Egito e da Capadócia foi interpretada por alguns como manifestação de esoterismo cristão.
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O espírito esotérico afirma-se na história do cristianismo sempre que se sente a necessidade de distanciamento da socialização vulgar da religião, seja na busca de uma experiência comum na raiz de tradições eclesiásticas opostas, seja na promoção de renovação radical na relação entre fiéis e hierarquia e na própria estrutura da Igreja.
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A Ordem dos Templários, fundada em 1119 entre a Primeira e a Segunda Cruzadas, parece ter tido caracterização esotérica, tentando superar, pelo recurso à iniciação cavalheiresca, contrastes religiosos entre cristianismo, hebraísmo e islamismo.
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A fraternidade dos Rosa-Cruz, de grande fama nos séculos XVI e XVII, não assumiu nunca a forma exterior de uma verdadeira associação, designando antes uma condição espiritual que combinava conhecimento cosmológico ligado ao hermetismo cristão, espírito religioso cosmopolita, disponibilidade prática para aliviar as adversidades humanas e esperança numa nova época de compreensão e paz.
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A fraternidade foi historicamente afirmada por manifestos e rica literatura em torno da lenda de seu fundador Christian Rosenkreutz e de suas viagens simbólicas, com escritos devidos principalmente a Valentin Andreae, Heinrich Khunrath, Michael Maier e Robert Fludd.
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Trata-se substancialmente de um movimento de ideias em torno da Reforma protestante que visava recuperar, num período de ásperos conflitos religiosos, uma perspectiva menos dogmática, mais aberta a uma tradição unitária dos conhecimentos e vocacionada para renovação política e espiritual.
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O caráter secreto do movimento tinha função defensiva contra a perseguição da Contra-Reforma, mas no fundo era apelo ao originário esquecimento ao qual só se pode regressar por iniciação que evolua ao contrário do dado histórico dominante.
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Descartes tentou inutilmente entrar em contato com a Rosa-Cruz ou com qualquer de seus adeptos; ao mesmo tempo, o movimento serviu de modelo a alguns grupos renovadores cristãos em pontos nevrálgicos da Europa protestante.
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Paralelamente à fraternidade dos Rosa-Cruz, um esoterismo exegético agiu de modo descontínuo mas relevante nas tradições religiosas do cristianismo e do hebraísmo, tentando superar o significado literal dos textos sagrados — ao qual se prendem os não-iniciados — para penetrar no significado oculto ou esotérico, encontrando sob as várias formulações dogmáticas opostas um contexto doutrinal idêntico que se supõe remontar a uma revelação originária comum.
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O hermetismo e a cabala forneceram a essa exegese esotérica instrumentos preciosos para ultrapassar e ligar entre si as várias separações ortodoxas.
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O esoterismo cosmológico influiu principalmente na organização dos conhecimentos, fazendo valer suas instâncias sobretudo contra a desqualificação da natureza pela cultura científica e contra a consequente geometrização do universo, e encontrou na astrologia e na alquimia seus principais instrumentos.
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A astrologia é a ciência do tempo qualificado e dos ciclos através dos quais se realiza uma transformação contínua da natureza, num processo crescentemente envolvido pelo destino e pelas iniciativas do homem.
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A alquimia propõe ao homem operações que imitam a natureza e lhe conferem seu domínio, considerando um desenvolvimento paralelo na evolução da matéria e nas etapas espirituais da purificação iniciática.
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O encontro entre astrologia e alquimia promove o princípio da unidade cósmica e a visão do universo como organismo regido pelo mesmo princípio da vida.
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O esoterismo cosmológico acompanhou a origem e os primeiros passos da ciência moderna, embora esta tenha evoluído em parte por oposição à orientação qualitativa e organicista daquela concepção do mundo — os estudos mais recentes indicam que tal oposição é mais resultado de evolução complexa do que situação presente no próprio nascimento da ciência moderna.
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O esoterismo cosmológico confia à instância do conhecimento secreto e iniciático o princípio de uma visão unitária e orgânica do universo ligada ao empenho finalista do homem, em contraponto a perspectivas demasiado técnicas e diferenciadas ou a excessiva confiança em instrumentos intelectuais de análise.
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A organização associativa ligada ao exercício de um ofício e de uma técnica gerou uma nova forma característica de esoterismo, com predomínio dos aspectos prático, cognitivo e associativo sobre o religioso, exemplificada nas associações de pedreiros medievais e na arte da arquitetura.
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As lendas que atribuem a origem das artes e ofícios a iniciativa divina e o significado religioso conferido à iniciativa artesanal, considerada em paralelo com a iniciativa divina, mantêm presente o aspecto religioso.
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Os aprendizes ligados à arquitetura, desde a época carolíngia reunidos em associações religiosas, deslocavam-se de um trabalho a outro e eram mais disciplinados pelo seu vínculo associativo particular do que integrados com o resto da população.
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Segundo Benoist, os pedreiros e canteiros das catedrais, isolados em suas cabanas, agrupavam-se em sociedades herméticas que só admitiam membros de uma mesma profissão.
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O caráter secreto dessas associações era inspirado tanto pelo conjunto dos aspectos técnicos do trabalho codificados pela tradição e protegidos como exclusivos do grupo, quanto pelo caráter religioso do vínculo associativo que estabelecia ligação com uma disciplina específica e conduzia a um isolamento em relação à sociedade em geral.
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O esoterismo assume aí o valor de uma resposta às condições muito particulares de vida dos pedreiros, reconstituindo a nível de uma iniciação artesanal toda a estrutura de uma sociedade com perspectivas cosmológicas e temática religiosa.
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A maçonaria, cujo período de máximo esplendor ocorreu no século XVIII e que se define como maçonaria simbólica em contraste com o caráter operativo da arquitetura medieval, realizou o equivalente esotérico do iluminismo, reunindo elites intelectuais a quem atribuía grande missão moral de guia da humanidade e de intervenção na orientação da vida pública.
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A maior difusão da maçonaria no século XVIII deu-se na Inglaterra e na França, a partir de 1717, quando se elaborou novo ritual de inspiração protestante.
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Do ponto de vista religioso, a maçonaria foge às várias confissões e seus limites dogmáticos; do ponto de vista político, tenta superar os limites de todos os aspectos institucionais pela busca de ligações mais abertas e universais; culturalmente, reivindica a superação da unilateralidade e a recuperação da perfeição do homem em perspectiva universal.
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O motivo esotérico ou secreto deriva da aposta em homens capazes de elevar-se acima dos preconceitos da estrutura institucional comum, justificando a iniciativa de poucos iluminados a quem uma severa iniciação confere maior decisão e iniciativa mais radical.
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O aspecto secreto é justificado praticamente pela antítese aos aspectos conservadores da organização política e religiosa, e teoricamente pela convicção de que a luz que deve iluminar todas as consciências só pode partir de um princípio capaz de isolar-se dos cânones do absolutismo político, da cultura cristianizada e da sociedade fechada.
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A maçonaria foi condenada várias vezes pela Igreja no século XVIII e encarada com desconfiança pela autoridade política; o anticlericalismo varia conforme o ambiente cultural, sendo mais presente na área latina do que na anglo-saxônica.
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Nas expressões mais recentes da maçonaria, a componente cultural tem menor incidência em benefício de aspectos mais utilitaristas, e a instância do segredo serve mais à conservação e proteção de interesses constituídos do que ao distanciamento crítico da estrutura dominante — orientação nos antípodas da codificada por Lessing nos Colóquios para Maçons (1778), onde a maçonaria se propunha superar as divisões que a sociedade civil introduz entre os homens, divisões que não devem ser reconhecidas como boas nem sagradas, cabendo a homens acima dos preconceitos da nação a perspectiva superior capaz de não confundir tais preconceitos com a virtude.
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O esoterismo se afirmou também no tradicionalismo romântico vocacionado para a reabilitação da Idade Média e do espírito religioso em contraste com o laicismo iluminista, movimento singularmente vivo na Alemanha mas presente em vários países da Europa.
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Com a reabilitação da Idade Média feita por Herder em 1773, foi ressuscitada a admiração por Boehme; o tradicionalismo recebeu contributos de Swedenborg, Hamann — chamado o mago do Norte —, Jacobi, Baader, Schlegel, Novalis e Schelling.
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Em todos esses pensadores revive a tradição alemã que, de Eckhart a Boehme, reivindica o conceito de totalidade e recorre ao simbolismo expulso pelo racionalismo cartesiano.
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A dimensão religiosa do tradicionalismo une-se à componente política do germanismo para propor a regeneração da humanidade por meio de uma associação oculta de pensadores e iniciados.
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Em 1799, Novalis lançou o manifesto A Europa ou o Cristianismo, acusando o luteranismo de ter empobrecido o cristianismo ao ligá-lo ao sentido literal da Bíblia e de ter dividido a unidade espiritual da Europa — contrapondo à unidade iluminista da razão uma unidade da tradição baseada no sentido do mistério e voltada para a conquista de uma espiritualidade ainda desconhecida.
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A teosofia constitui uma forma de esoterismo que se aproxima mais explicitamente da temática religiosa, reunindo cosmologia, revelação e espírito soteriológico filtrados pelo modelo do esoterismo, e podendo ser dividida em duas fases históricas principais.
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A teosofia designa um saber que tem por objeto Deus, mas que não se aproxima dele pela perspectiva de uma determinada revelação nem pela simples consideração religiosa, fundindo as várias revelações históricas numa perspectiva unitária e unindo inspiração religiosa e cultura científico-naturalista numa dimensão cosmológica única.
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A primeira fase inclui figuras como Paracelso, Jacob Boehme, Agrippa de Nettesheim e Helmont, com elementos cosmológicos comuns aos da Rosa-Cruz, mas com pesquisa mais sistemática em torno dos vários níveis da realidade natural e divina, visando fundir numa inspiração unitária sugestões das diversas tradições religiosas e superar a separação entre conhecimento científico e perspectiva unitária de Deus, universo e homem.
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A segunda fase coincide com a formação, no último quartel do século XIX, da Sociedade Teosófica, que deve ser entendida como reação ao positivismo e ao cientismo e como tentativa de superar a divisão entre a civilização ocidental e o espírito oriental.
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A Sociedade Teosófica pretende referir-se a uma gnose perfeita na raiz de todas as religiões históricas, conhecida desde sempre pelos iniciados de todos os tempos, construída pela reelaboração de teorias indianas brâmanes e budistas com elementos do esoterismo cristão, conferindo relevo especial ao tema da sobrevivência em suas diversas soluções.
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A matriz desta fase mais recente da teosofia encontra-se no espiritualismo americano e no seu encontro com a tradição e a cultura indianas, com destaque para a aproximação entre Cristo e Vishnu, Buda e São Paulo, Moisés e Confúcio, e para a busca de soluções para problemas como o da sobrevivência, que parecem mais eliminados do que resolvidos pelo progresso científico.
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O renascimento oriental que caracteriza grupos e tendências culturais contemporâneas em fase de desenvolvimento insere-se no contexto do esoterismo, manifestando consideração crítica das perspectivas eurocêntricas e tendência para manter viva a imagem de uma tradição comum à humanidade a ser reconquistada pela superação dos limites artificiais impostos pelos interesses e pelo particularismo.
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Não se considera pacífica a evolução da área ocidental, nem em sua dimensão científica nem em suas estruturas econômico-sociais.
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A atenção é atraída para a superação de todas as barreiras convencionais e para a captação do sentido das antigas tradições e culturas, da indiana à chinesa.
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As aproximações e analogias entre as diversas civilizações não são frequentemente fruto de análises pontuais e investigações rigorosas, mantendo-se sob essas perspectivas uma espécie de fé iluminada e secreta no destino último da vida humana e em seu possível significado.
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O aspecto do esoterismo que contrasta com a orientação espiritual da ciência moderna — cujo instrumento de investigação é de natureza tal que cada homem pode examiná-lo e submetê-lo a confronto, configurando uma mentalidade tendencialmente aberta à universalidade, não fideísta e não autoritária — coexiste com outro aspecto que não se reduz a essa oposição: o do distanciamento crítico radical perante uma situação estrutural definida e afirmada, possível pelo apelo à intimidade e ao vínculo secreto que confere primado à determinação individual e às vias insólitas de expressão.
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Esse distanciamento esboça a possibilidade de um novo princípio que se apresenta mais como recuperação de um passado e de uma tradição e reconstituição de uma verdade originária do que como ruptura drástica da continuidade.
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O esoterismo visa o aspecto tipicamente social desse momento crítico, concebendo o começo não como ação individual e isolada, mas como ação de grupo responsável pela promoção do progresso e da história.
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Enquanto a afirmação do espírito crítico em sua dimensão social necessitar de expressões complexas e não conseguir apresentar-se em termos absolutamente puros, o esoterismo provavelmente não desaparecerá, mas apenas assumirá formas diversas.
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O importante é que o esoterismo não seja sumariamente eliminado por uma visão cognitiva dogmática e conclusiva, mas que se tente perceber todos os seus aspectos, lendo também suas sugestões críticas — caminho que conduz, partindo do esoterismo, para uma estrutura social mais articulada, mais livre e criativa.
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