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MISTÉRIOS

Enciclopédia Einaudi 18. Natureza — Esotérico/exotérico. Lisboa: IMPRENSA NACIONAL-CASA DA MOEDA, 1990

Esotérico/Exotérico

  • O par esotérico/exotérico encontra sua segunda aplicação específica no âmbito das religiões de mistérios que se afirmaram na Grécia e em países orientais como o Egito e a Pérsia, onde, segundo Pettazzoni, o esoterismo implica por si mesmo um exoterismo e, portanto, uma separação entre o dentro e o fora, cuja ponte é a iniciação.
    • Ao contrário das sociedades primitivas, a separação não se refere fundamentalmente à estrutura da comunidade, mas ao conteúdo sagrado oferecido nela — a separação se dá entre o sagrado e o profano.
    • Nas religiões esotéricas, a comunidade vale não como simples comunidade, mas como forma especial que garante o contato direto com a divindade e, por seu intermédio, a salvação do indivíduo.
    • O que se rodeia de silêncio não é um conjunto de regras da vida comunitária, mas uma intuição da vida e da salvação que a palavra não pode definir nem comunicar.
  • Os mistérios de Elêusis, a forma mais antiga de religião esotérica conhecida no saber grego originário, combinam um rigoroso processo de iniciação com um conhecimento místico de caráter visionário que Platão descreve como a revelação súbita de uma beleza eterna, unívoca e incomunicável por palavras.
    • O Hino a Deméter, datado do fim do século VII a.C., confirma que os ritos esotéricos não se podem transgredir, transmitir nem proferir, declarando ao mesmo tempo feliz aquele que os viu, por oposição ao não-iniciado.
    • A iniciação se fazia em duas fases — pelos pequenos e pelos grandes mistérios — com condições relativas a ritos, jejum e abstenção de certos alimentos.
    • Platão, no Banquete, descreve o grau supremo de iniciação como visão de uma beleza que não é forma, conceito nem ciência, mas revelação do ser em si e por si, eternamente unívoca.
    • No Fedro, Platão refere a Planície da Verdade, a pastagem apropriada à melhor parte da alma e o prado lá em cima, e a iniciação como libertação do túmulo que é o corpo, aproximação do divino numa luz pura.
    • A visão suprema se opõe radicalmente ao modo corrente de considerar o mundo — é considerada loucura, no sentido de ser possuído por um deus — e liberta quem é por ela invadido do perigo presente e futuro.
    • Segundo Platão na Sétima Carta, esse conhecimento não é comunicável por palavras, mas surge instantaneamente, qual luz de chama palpitante, após longa convivência destinada a esse fim.
  • Embora os mistérios de Elêusis eliminassem certas exclusões imediatas presentes nas sociedades primitivas — como a do sexo feminino e a de escravos ou habitantes de determinada cidade —, mantinham, segundo Colli e Pettazzoni, uma seleção rigorosa que reservava o grau supremo visionário, a epopteia, a um número muito restrito de eleitos.
    • As famílias sagradas dos Eumólpidas e dos Quércias, que regiam a celebração dos mistérios, tinham como função culminante uma seleção.
    • A epopteia só podia ser alcançada um ano após a iniciação aos grandes mistérios, e o número dos escolhidos não era grande.
    • A grande afluência de participantes às solenidades de Elêusis acompanhava, do exterior, a iniciação reservada a pouquíssimos eleitos.
    • Segundo Pettazzoni, a iniciação consistia originalmente na admissão de estranhos ao culto de algumas famílias que o mantinham como patrimônio privado e que permaneceram como depositárias dos mistérios, transmitindo a seus membros os sacerdócios mais importantes.
    • Com o tempo, o vínculo entre os mistérios de Elêusis e essas famílias se atenuou, admitindo-se homens e mulheres, livres e escravos, e configurando-se uma separação de novo tipo — característica da religião esotérica em contraste com a religião olímpica.
    • Os mistérios de Elêusis assumiram, já no século VII a.C., caráter escatológico e soteriológico, contrapondo um destino melhor na vida futura à triste existência presente, numa perspectiva de renascimento e participação na natureza divina.
    • Segundo Pettazzoni, a origem dos mistérios de Elêusis é agrária, não egípcia, mas indígena e pré-helênica, remontando aos primeiros povos da Hélade que, subjugados pelos invasores, formaram em grande parte a plebe — uma plebe cujas aspirações ultraterrenas, nascidas do peso do trabalho incessante, desenvolveram em Elêusis a ideia de uma vida melhor após a morte.
  • A estrutura esotérica do orfismo é análoga à de Elêusis, mas apresenta desenvolvimento histórico próprio e caráter social mais completo, tendo como meta a constituição de uma comunidade permanente de iniciados, com propaganda e formação de comunidades locais sob a direção de chefes responsáveis.
    • Heródoto chama os ritos órficos de secretos e afirma que suas prescrições são reguladas por um discurso sagrado; Platão menciona frequentemente iniciações órficas e respostas oraculares poéticas.
    • No Banquete, Platão contrapõe os unidos pelo delírio e furor báquico pela filosofia aos profanos e toscos excluídos dessa comunidade; na República, menciona libertações e purificações de ações injustas chamadas iniciações.
    • No Fédon, Platão cita a expressão mistérica de que os homens estão numa espécie de cárcere do qual não podem libertar-se por si mesmos; no Crátilo, confirma que no discurso secreto o corpo é o túmulo da alma, prisão em que ela paga suas culpas.
    • O orfismo é uma religião de salvação com escatologia proeminente: a elaboração doutrinária do mito refere-se ao elemento divino congênito do homem — adquirido pelos Titãs ao comer a carne de Dioniso —, aprisionado no elemento titânico pecaminoso e perecível, exigindo um ciclo indefinido de existências para a libertação, segundo Pettazzoni.
    • Os órficos se afastavam do mundo, distinguiam-se por rito fúnebre especial e lugar de sepultura reservado, constituindo uma sociedade de santos diferente e independente da sociedade política dos cidadãos.
    • A diferença entre Elêusis e orfismo, segundo Pettazzoni, é que Elêusis não exerceu propaganda religiosa nem organizou seus iniciados como sociedade hermética e exclusiva — a iniciação era ato de piedade individual —, enquanto o orfismo buscou a constituição de comunidade permanente de iniciados com organização missionária.
  • A religião pública das cidades gregas era expressão de íntima coesão social e dominada pela ideia de comunidade, mas correspondia pouco às exigências da religiosidade individual, preocupava-se pouco com a alma e seu destino e dava escassa importância à escatologia — o que explica que os excluídos da vida cívica tendessem para religiões soteriológicas e esotéricas.
    • Segundo Pettazzoni, os que não eram cidadãos viviam à margem do organismo estatal e não participavam de direito na religião pública, sendo o esoterismo, em certo sentido, a resposta religiosa a uma exclusão prévia operada pela organização social e política.
    • O orfismo foi a religião própria da plebe rural, que permaneceu em grande parte alheia à vida pública.
    • A diferença entre Elêusis e orfismo revela diversas gradações da coesão exclusivista: Elêusis representa um primeiro nível de caráter individual, enquanto o orfismo alcança uma expressão social mais completa.
  • Os mistérios de Samotrácia, na época helenística um centro religioso de primeira grandeza rival de Elêusis, e os de outras tradições gregas, partilhavam a estrutura de graus de iniciação com o grau supremo dos epóptai garantindo a visão mística da salvação, além de apresentarem uma dupla elaboração dos mitos e da prática religiosa — uma esotérica e outra popular e exterior.
    • A elaboração esotérica correspondia rigorosamente à instância da iniciação, enquanto a elaboração popular se dirigia aos que observavam as cerimônias do exterior, recorrendo a motivos da religiosidade mais comum e difundida.
    • O segredo imposto sobre os aspectos mais reservados dos mistérios exigia que só rara e acidentalmente se pudesse discorrer sobre eles de forma própria, favorecendo versões simplificadas para compreensão popular e gerando diversificação de significados e interpretações de fórmulas rituais e textos esotéricos.
  • Os mistérios de Osíris, no Egito, organizaram-se desde cedo sem associações especiais, como cultos de tipo individual análogos aos de Elêusis, mas evoluíram, na época helenística e sob o domínio romano, para verdadeiras comunidades iniciáticas e místicas — os collegia Isidis —, difundidas em Roma e nas províncias.
    • Na história egípcia marcada por espírito de conservação, esses cultos afirmaram-se no segundo período do novo reino, quando um novo movimento impôs iniciativa independente da teocracia tebana dos sacerdotes, tornando os deuses mais humanos e acessíveis, segundo Pettazzoni.
    • Heródoto, que discorre sem reticências sobre cultos de outras divindades egípcias, sente escrúpulo íntimo que o impede de falar sobre a religião de Osíris — o mesmo escrúpulo que o faz silenciar sobre os mistérios de Samotrácia, de Elêusis e especialmente os órficos.
    • Pettazzoni afirma que o esoterismo egípcio teve sua principal origem na crise da estrutura política quando o indivíduo, abandonado a si mesmo, reconstituía um âmbito secreto para cultivar o pensamento sobre a vida futura.
    • Apuleio, nas Metamorfoses, descreve os mistérios egípcios do século II d.C. como incluindo preparação do iniciado no santuário em diálogo com sacerdotes, estado de expectativa e devoção com sinais da vontade divina em sonhos e visões, seguidos do rito que englobava uma morte fingida, viagem ao além-túmulo e regresso à vida, garantindo ao iniciado a certeza da regeneração e da salvação.
  • O mitraísmo persa ilustra o mesmo padrão: após um período de mitraísmo público e estatal que esmagou os elementos esotéricos das origens, a queda do império e o enfraquecimento da estrutura política fizeram renascer a religiosidade individual com preocupações escatológicas e soteriológicas, dando origem a um mitraísmo esotérico que pretendia reconstituir, em fase de crise, as condições de uma comunidade social e religiosa renovada.
    • Os grupos esotéricos iranianos se consolidaram especialmente nas condições da diáspora, em que a desagregação da pátria era agravada pelas dificuldades nos países estrangeiros.
    • No interior dessas comunidades passaram a prevalecer os magos, que, embora às vezes fechados em exclusivismo de casta, mantiveram contatos com os estrangeiros e desenvolveram ação de proselitismo.
    • Segundo Pettazzoni, foi especialmente sob o domínio estrangeiro e na consequente diáspora que a religião persa aprofundou os motivos da religiosidade individual e interior, suas esperanças escatológicas e experiências soteriológicas, transformando-se num mistério — isso foi o mitraísmo.
    • Também nesse caso, o esoterismo é a resposta a uma crise histórica da comunidade, mediante a tentativa de recriar uma nova comunidade consolidada pelo vínculo do mistério e pela coesão da participação e da exclusão.
  • Na época helenística, o reforço dos cultos esotéricos gregos e seu encontro com os cultos orientais refletiram a dissolução das anteriores estruturas políticas e a dificuldade da espiritualidade individual em encontrar-se nas novas organizações, configurando uma dualidade religiosa fundamental entre o espírito dos mistérios e as formas da religião oficial.
    • Os cultos dos mistérios garantiam experiência de comunidade e satisfação da religiosidade individual em grau muito maior que a religião tradicional, que se aproveitava das novas estruturas do Estado universal.
    • Segundo Pettazzoni, o que ainda estava religiosamente vivo no paganismo, fora do formalismo dos cultos oficiais, era o espírito de religiosidade dos mistérios.
    • O caráter esotérico dos cultos dos mistérios serviu para fazer sentir de forma imediata e profunda o fascínio da comunidade mais viva e orgânica que deixara de ser diretamente perceptível na organização oficial da vida política.
    • O fascínio da comunidade e a importância da exclusão estavam estreitamente ligados a um modo mais pessoal e direto de viver a experiência religiosa, expressa pela esperança de total regeneração e completa libertação, acrescida do fascínio de uma visão mística que abria aos iniciados horizontes novos e transcendentes.
    • O âmbito do segredo e do mistério oferecia, ao mesmo tempo, a base para a reconstituição de uma nova comunidade e a perspectiva de um novo sentido para a vida e para a morte, alcançável não por disciplina intelectual e teórica, mas por movimento interior de abandono e confiança.
    • O motivo esotérico acentuava a condição fundamental da nova fé: uma conversão decisiva de pontos de vista à luz da qual nascia um novo espaço — o da libertação — frente ao qual se colocava um novo fora, uma nova exclusão.
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