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MÍSTICA
Enciclopédia Einaudi 18. Natureza — Esotérico/exotérico. Lisboa: IMPRENSA NACIONAL-CASA DA MOEDA, 1990
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A mística da merkavah, que ocupa o período do século I a.C. ao século X d.C., gira em torno da história da criação e tem como objeto fundamental a visão do trono de Deus – daí ser também designada mística do trono –, não aprofundando propriamente a natureza insondável de Deus, mas considerando sua manifestação nas supremas expressões da divindade em que estão contidas todas as modalidades da criação.
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O ponto de chegada da viagem mística não é a fusão com o infinito, mas a contemplação da corte divina e do trono de Deus, percorrida em sete etapas através dos palácios celestes e suas salas, mediante técnica própria, práticas mágicas e rituais e condição de dignidade interior.
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O caráter da mística do trono é basiliomórfico – não cosmológico –, ou seja, estrutura-se não pela descrição do universo ou da ordenação dos Céus, mas pela descrição da corte de Deus e suas hierarquias, evocando sob certos aspectos as condições históricas da realeza terrena dos séculos IV e V.
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A suprema majestade de Deus, concebida como rei sentado no trono, coloca-o a tal distância do místico que nem o momento extático a pode eliminar – não se insiste na união mística da alma com Deus, e a alma permanece perante Deus sem se confundir em sua infinitude.
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A forma literária dos textos que documentam essa mística é predominantemente o louvor e a exaltação de Deus em todos os aspectos de sua majestade e glória, com o mesmo cuidado em não omitir títulos honoríficos que manifesta o súdito perante o soberano.
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A mística do trono induz muitas vezes o místico a acentuar uma espécie de corporeidade de Deus de dimensões imensas – a isso se refere a revelação do Shi'ur qoma, a medida do corpo de Deus, ligada à mística da merkavah e destinada provavelmente a fazer sentir a infinita grandeza de Deus em relação à realidade insignificante do homem.
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O Sefer Yesirah ou Livro da Criação, escrito provavelmente entre os séculos III e VI, exprime a mística de fundo cosmológico que cabe na acepção mais ampla da cabala e contém elementos relevantes do que virá a ser a mística cabalística em sentido próprio, contemplando a questão da estrutura do universo.
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O universo aparece aí como constituído pelos primeiros dez números primordiais, as sefirot, e pelas vinte e duas letras do alfabeto hebraico, que em conjunto formam as trinta e duas vias secretas da sabedoria por meio das quais Deus criou tudo o que existe.
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As letras do alfabeto, como expressão da palavra de Deus, estão cheias de virtude secreta: Deus as ideoou, plasmou, combinou, sopesou e misturou, e por meio delas realizou toda a criação.
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Segundo Bertola, o Sefer Yesirah pressupõe uma teoria de relação recíproca entre palavras e coisas, quase como uma causa das outras – se o Verbo foi a causa das coisas, as letras que compõem as palavras são também elementos das coisas, e as três letras alef, mem e shin, representando os três tipos fundamentais de letras, representam os elementos fundamentais do universo: ar, água e fogo.
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O quadro completo do fundo místico sobre o qual ganha relevo a cabala autêntica em sentido estrito inclui, além dos temas já referidos, as contribuições do hassidismo no mundo hebraico alemão – com os motivos escatológicos da ressurreição e da visão beatífica, os primeiros lineamentos de uma teologia da história, o relevo conferido à devoção em contraposição aos valores intelectuais, e a atenção à natureza infinita de Deus e à sua imanente presença no mundo criado – convergindo especialmente na personalidade de Abu l-'Afiya e no Sefer ha-zohar ou Livro do Esplendor, o documento mais significativo da cabala propriamente dita.
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No núcleo mais típico da tradição cabalística, a relação entre a alma e Deus, mesmo em sua forma mais íntima, determina-se como adesão e não como identificação, conservando sempre uma certa distância entre a alma e Deus como modo de evitar a dissolução subjetiva – o que confere ao êxtase menor importância do que em outras correntes do misticismo.
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