User Tools

Site Tools


esoterismo:problema-da-linguagem

Problema da Linguagem

TANNER, André. Gnostiques de la Révolution. Paris: Engloff, 1946

TEXTO ORIGINAL

  • A questão da natureza do signo linguístico, embora remetendo a Platão e à filosofia medieval, impõe-se com urgência inédita na segunda metade do século XIX, extrapolando o círculo dos filósofos e linguistas para alcançar os próprios poetas.
    • Problema já formulado no Crátilo de Platão e retomado na filosofia medieval
    • Caráter radicalmente novo da intensidade com que a questão se coloca no século XIX
  • Um objeto se torna problema para a consciência no momento em que se perde sua posse instintiva, como ilustra o caso da estética, disciplina jovem que floresceu justamente quando as grandes épocas criadoras eram mais pobres em reflexão sobre a beleza.
    • A estética, em sua forma atual, tem menos de dois séculos
    • Os séculos de Péricles e de Luís XIV produziram pouca reflexão estética sistemática
    • Os autores de Fedra e da Arte Poética apresentam considerações relativamente fracas sobre a matéria
    • A palavra grega cosmos reunia os sentidos de universo, ordem e beleza
    • O distanciamento da vivência instintiva da beleza e da realidade da linguagem desperta a consciência e impõe a busca de uma conquista mais elevada
  • A linguagem humana, ao se dividir e diferenciar ao infinito como a cultura em geral, constitui uma riqueza desde que permaneça aberto o canal entre a raiz profunda e a florescência suprema, mas quando esse canal se fecha a flor perde cor e vida, daí o imperioso retorno dos poetas à origem da linguagem.
  • Victor Hugo, o primeiro grande poeta francês a meditar fortemente sobre a natureza da linguagem, paradoxalmente ainda possuía o primitivo mistério do verbo, sendo sua faculdade de erro sintoma do nascimento do problema e da necessidade de remediá-lo, de tal modo que os poetas não mais poderiam usar a palavra sem tentar conceber-lhe a essência.
    • Hugo afirma que a palavra é um ser vivo, nascida antes da alma, com Adão não sendo seu pai
    • Os versos das Contemplations formulam uma filosofia completa do verbo
    • A palavra, ao nascer, teria saudado a luz como irmã, assumindo iluminar o interior como a luz ilumina o exterior
    • Seria vão reduzir esses versos a mero lirismo exagerado ou a simples literatura
  • Em Rimbaud, a reflexão sobre a linguagem aparece como fulguração momentânea na Alchimie du Verbe e na Lettre du Voyant, atribuindo cores às vogais, regulando a forma e o movimento das consoantes, e postulando a chegada de uma língua universal da alma para a alma, reunindo perfume, sons e cores.
    • Rimbaud declara inventar a cor das vogais: A negro, E branco, I vermelho, O azul, U verde
    • Escrevia silêncios, noites, anotava o inexprimível e fixava vertigens
    • Previa uma língua que seria da alma para a alma, resumindo tudo e prendendo o pensamento ao pensamento
  • O que é fulguração momentânea em Rimbaud torna-se em Mallarmé objeto de longo e misterioso esforço, concebendo a palavra como ser vivo dotado de carne nas vogais e ditongos e de ossatura delicada nas consoantes.
    • Mallarmé evoca uma ciência capaz de escrever a história das letras do alfabeto através de todos os tempos e de revelar sua significação quase absoluta
    • Tenta uma dissecação das palavras inglesas, atribuindo valor próprio a cada letra
    • Concebe o alfabeto como um zodíaco espiritual de vinte e quatro signos
    • Retoma o mito de Babel para postular uma língua originária única, substância da verdade, da qual a diversidade dos idiomas impede a proferição das palavras que seriam materialmente a verdade
  • Claudel, em texto do Art poétique, afirma que a palavra nomeia a permanência das coisas e repete a ordem que as cria, distinguindo verbo, palavra e nome como três dimensões do ato de falar, e acrescenta em nota que cada letra possui uma atitude sonora provocada pela ideia geradora que ela imita.
    • O verbo designa a virtude de quem fala
    • A palavra designa o movimento particular que é o motivo de cada ser
    • O nome designa a diferença pela qual cada indivíduo não é o outro
    • A consoante S indica ideia de cisão; N sugere nível interiormente atingido; L exprime alegria, luz, deslizamento
    • Claudel cita Platão pelo Crátilo: existem nomes naturais às coisas, e apenas quem considera qual nome é naturalmente próprio a cada coisa é um verdadeiro artesão de nomes
  • André Breton registra que os surrealistas tentaram partir da palavra para chegar ao pensamento, desconfiando das palavras como meros auxiliares e esperando que elas comandassem o pensamento, tendo chegado a concretizar essa operação.
    • As palavras eram antes tratadas como pequenos auxiliares esvaziados de pensamento
    • Os surrealistas passaram a esperar que as palavras comandassem o pensamento
  • Milosz, poeta e linguista, afirma que certos nomes essenciais como pão, sal, sangue, sol, terra, água, luz, trevas e nomes de metais não são irmãos nem filhos, mas pais dos objetos sensíveis.
    • Milosz dirige-se aos que a oração conduziu à meditação sobre a origem da linguagem
    • O conhecimento dos objetos designados por esses nomes essenciais é declarado necessário
  • Apesar das diferenças de temperamento, estilo e corrente poética, quase todos os poetas franceses abordados partilham uma visão realista da linguagem no sentido medieval, postulando uma origem única e transcendente para ela e recusando o caráter meramente convencional do signo.
    • Todos consideram a língua não como produto de convenção mas como realidade espiritual
    • Todos postulam que a língua participa, até em seus elementos, da realidade do ser no Universo
    • Uma grande poesia sempre se fundou, implicitamente, nessa base
    • Fabre d'Olivet constitui o único caso de linguista que oferece, no plano da ideia, o pendant exato da experiência poética do período
    • O nome de Fabre d'Olivet nunca é citado pelos poetas, embora a concordância seja notável
  • A questão central é por que a filosofia da linguagem de Fabre d'Olivet foi ignorada e por que não se desenvolveu, no prolongamento de sua via, uma linguística respondendo ao movimento da poesia, cuja resposta reside no fato de que toda filosofia do signo depende da origem atribuída ao homem.
    • O semelhante só produz o semelhante
    • Para Fabre, como para os poetas, a linguagem é fenômeno espiritual e só pode ter origem em princípio análogo
    • Não é possível atribuir à língua um princípio espiritual sem descobrir um princípio espiritual no próprio homem
  • A linguística do século XIX foi atravessada pelo darwinismo, levando Auguste Schleicher a adotar a doutrina darwiniana em 1863 e Darwin a elaborar, a partir dessa tese, uma teoria da linguagem que o obrigou a admitir um homem primitivo sem linguagem, o Homo primigenius alalus, imagem que nada tem de fato científico.
    • O livro De l'Origine des Espèces de Darwin foi publicado em 1859
    • Schleicher, linguista de Iena, publicou A Teoria de Darwin e a Linguística em 1863
    • Darwin toma a tese de Schleicher para elaborar sua teoria da linguagem em A Origem do Homem
    • O alalus resulta do cruzamento de uma hipótese científica sobre o corpo humano e de uma tese linguística não demonstrada sobre uma realidade de outro plano
    • Esse produto híbrido, aceito como dogma, condenava toda pesquisa sobre a fala a derivar de gritos incoerentes à linguagem articulada, o que viola o princípio de que o semelhante só produz o semelhante
  • A confusão instaurada pelo darwinismo, pelo marxismo e pelo racismo no século XIX bloqueou absolutamente qualquer filosofia da linguagem fundada em bases diferentes das de Fabre, sendo indispensável distinguir o fato científico certo de sua interpretação arbitrária e de seu abuso político injustificável.
    • Arnold Wadler é apontado como o único linguista contemporâneo a ter prestado homenagem a Fabre d'Olivet
    • Wadler é descrito como tendo feito muito para colocar claramente o problema
  • A ciência contemporânea admite os diferentes estádios da evolução como fato adquirido, mas reconhece ignorar sua lei, e o zoólogo Adolphe Portmann, professor na Universidade de Basileia, define com clareza o vazio dessa construção, propondo que o espírito humano não é um fenômeno tardio superajuntado ao corpo animal.
    • Portmann é autor de L'Origine de l'Homme e Fragments biologiques
    • A hipótese de que o espírito emerge progressivamente de um corpo animal redressado é um postulado que nada demonstra
    • Não é possível isolar o nascimento da forma humana como problema zoológico fora do conjunto que constitui o homem
    • Cada membro do corpo humano e cada movimento são expressão de um elemento particular que não pode ser captado materialmente
    • A distinção entre ciência natural e ciência espiritual tem utilidade limitada à diferenciação de métodos
  • Uma vez corretamente elaborado o fenômeno originário do homem, nada na biologia moderna proíbe conceber uma origem espiritual do homem, nem ver no fator desconhecido da evolução a ação do princípio espiritual que tende a criar para si uma forma de manifestação física na terra.
  • Portmann demonstra que o erro do transformismo foi introduzir a hipótese indemonstrável de que a linguagem humana deriva do grito animal por enriquecimento progressivo, confundindo linguagem e produção de som e mascarando um dos grandes problemas da antropologia.
    • Do grito do animal só se pode passar ao grito do homem, nunca ao vocábulo articulado, que é de essência diferente
    • A biologia só verá corretamente a natureza do fenômeno da aquisição da linguagem quando superar a equivalência errônea entre emissão de som e linguagem, grito animal e palavra
  • O pensamento de Fabre d'Olivet não encontra mais, além da crise darwinista, obstáculos na ciência contemporânea, mas subsiste ainda a questão da demonstração prática que ele tentou dar à sua filosofia da linguagem ao restituir a língua hebraica e traduzir os dez primeiros capítulos do Gênesis.
    • Fabre escolheu o hebraico por ser uma das línguas mais antigas à sua disposição, ao lado do chinês e do sânscrito
    • Atribuiu a cada som e letra do alfabeto hebraico um valor significativo geral
    • Estabeleceu um vocabulário das principais raízes
    • Forneceu uma tripla tradução: palavra a palavra francês, palavra a palavra inglês e versão correta francesa
    • Notas gramaticais abundantes justificam pelo vocabulário radical a significação proposta
  • Os eventuais erros de fato nas pesquisas linguísticas de Fabre d'Olivet, atribuíveis às possibilidades limitadas da época, não diminuem o valor do método nem o interesse de seu princípio, assim como os erros de Goethe não invalidam sua método científica.
    • Há provável certeza de erros de fato no conjunto das pesquisas de Fabre
    • Os trabalhos posteriores revelaram elementos que ele não podia dispor
    • O caso de Goethe é análogo: os fatos foram refutados ou registrados, mas o método foi negligenciado, quando é o contrário que importa
  • A tradução de Fabre faz emergir lentamente de sua envoltória grosseira a figura de um mito de beleza e alcance singulares, e a lógica interna dos fatos é notável: o método fundado na ideia de uma origem divina do homem e da linguagem, aplicado ao velho texto sagrado, faz aparecer precisamente o mito da origem espiritual do homem.
    • O Adão de Fabre é um princípio imaterial, formado da sublimação das partes mais sutis do Elemento adâmico
    • Esse princípio é admitido por outras cosmogonias antigas com as quais o hebraico estaria em acordo
    • A biologia contemporânea circunscreveu e reservou um lugar para esse princípio
    • No capítulo II, versículo 19, Adão nomeia cada espécie segundo os rapports de cada uma com a Alma vivente universal
  • O longo desenvolvimento sobre Fabre d'Olivet era necessário para dissipar a espessa camada de obscuridade depositada sobre essa ordem de noções e para provar em detalhe que o pensamento de Fabre, e também o de Saint-Martin, longe de ser produto de fantasia extravagante, repousa sobre bases integráveis à cultura contemporânea.
    • A filosofia da linguagem de Fabre apresenta múltiplos rapports com os problemas da poesia e da ciência contemporâneas
    • Em Claude de Saint-Martin a filosofia da linguagem é importante; em Fabre é essencial
    • As duas obras principais de Fabre, a Langue hébraïque restituée e o comentário sobre os Vers dorés, partem de um fato linguístico e se apoiam em uma tradução
    • Em Fabre, o pensamento mais ousado toma sempre seu impulso a partir de um fenômeno elementar da palavra humana
    • A inteligência do mito e da história tem nele a mesma origem que a reflexão linguística
esoterismo/problema-da-linguagem.txt · Last modified: by 127.0.0.1