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Liberdade, fatalidade do amor

TANNER, André. Gnostiques de la Révolution. Paris: Engloff, 1946

Carta a um amigo sobre a Revolução Francesa

Deve-se observar que a liberdade, em seu verdadeiro sentido, é o poder que cada ser tem de cumprir sua lei, e que nós devemos possuir esse poder, como todos os outros seres; caso contrário, o autor das coisas teria feito uma exclusão bárbara e inconsistente em relação a nós, dada a grandeza do destino que percebemos em nossa essência radical; mas que, se nos foi necessariamente dado esse poder e, no entanto, já não o temos, como prova a nossa miséria, é porque o deixámos perder, uma vez que o princípio soberano que, por sua natureza, é o gerador eterno desse poder, não pode ao mesmo tempo gerar a sua morte e destruição.

Teria sido necessário, ao contrário, descrever-nos o amor inextinguível desse princípio supremo por sua criação e mostrar-nos como esse amor vivo não pôde, desde a alteração de nossas relações primitivas, senão multiplicar os caminhos pelos quais a alma humana pudesse se aproximar dele e se reunir com ele, como sendo o único centro onde ela pudesse encontrar seu descanso. Pois se é preciso ser insensato para negar nossa degradação, mesmo que ainda não se saiba explicá-la, é preciso sê-lo igualmente para negar o amor do princípio supremo por sua criatura e sua imagem; assim, é preciso sê-lo para negar que ele tenha aberto, em todos os tempos e de todas as maneiras, caminhos de reabilitação e regeneração para o homem. Ora, se esses caminhos são abertos pelo amor, quem ousaria circunscrever seu número e extensão?

A própria necessidade da existência desses caminhos incontáveis e salutares não implica a ideia de uma fatalidade cega que nos constrange, pois essa necessidade encontra diante de si uma lei ainda mais necessária: a do amor. Pois, convenhamos aqui com uma ousadia encantadora e santa, Deus, em relação a todas as suas criaturas, está na fatalidade do amor eterno que o liga a elas, sem poder se separar delas. Mas quão longe está essa fatalidade que ele impõe a si mesmo, como sendo a própria fonte de seus afetos! Que longe está, digo eu, essa fatalidade baseada na universalidade de sua existência viva que abraça tudo, dessa fatalidade servil e tenebrosa com que os poetas e filósofos mancharam o Criador, quando não souberam nos oferecer a chave dos movimentos versáteis e involuntários de sua criatura! Nada mais sublime nele do que essa mesma fatalidade, pois, para desenvolver perfeitamente a profundidade de seu amor, ela deve nos deixar o poder de responder ou resistir às investidas que esse amor supremo nos faz continuamente, para que esse amor possa repousar sobre alguma analogia, sobre alguma base que seja livre como ele e, ao mesmo tempo, para que possamos sentir a dignidade da existência que nos permite pretender ser livre e voluntariamente essa base sobre a qual repousa essa fatalidade divina e eterna, que faz de Deus o ser mais grande, mais terrível e mais amável; porque ela o tornou para sempre o ser mais amoroso, mais vivo e mais necessário.

Sob esse ponto de vista do amor inesgotável do princípio supremo, que se ocupa apenas de produzir e multiplicar para sua criatura perdida os meios livres de retornar a ele, poderia ter-nos sido mostrado o quanto a palavra religião se torna menos sombria pela magnífica perspectiva que nos oferece de nos elevarmos um dia à palavra homenagem, e pela imensidão dos caminhos que se abrem para esse fim sob os nossos pés, uma vez que o amor, estando no centro universal de todas as coisas, deve poder acompanhar tudo o que sai das mãos do seu autor soberano; além disso, poderíamos ter sido mostrados que não são apenas os atos de seu amor que o Princípio Supremo emprega nessa obra de primeira ordem, mas também os atos de sua sabedoria e de seu poder, para nos arrancar desse estado de languidez e violência em que a alma humana está visivelmente detida.

E é aqui que a natureza física, retomando seu lugar entre os testemunhos que a razão exige, veríamos o Deus completo e universal nos oferecer tudo o que há nele para nos ajudar a nos unir a ele. Pois se, em seu estado de harmonia, o homem é feito para participar e desfrutar com deleite de todas as obras maravilhosas da Divindade, todas essas mesmas obras apenas mudam de relação com o homem quando ele desce à desarmonia; e se, nessa mudança de relações, elas não são mais para ele meios de prazer tão vívidos quanto em seu estado de regularidade, elas ainda são para ele meios de união, e é então que se tornam para ele religiões.

Assim, os elementos, o ar, o som, a duração, o tempo, as línguas, o cálculo, a íntima aliança que existe entre os bons costumes e os fundamentos da sociedade natural e civil, as instituições políticas, cuja invenção nos pertence menos do que acreditamos, uma vez que não podemos criar nada, a história da espécie humana, o próprio quadro de seus preconceitos e erros universais, nos quais provavelmente se teria encontrado um resíduo fixo, se tivéssemos dedicado o tempo e a atenção necessários para deixar evaporar o volátil e o heterogêneo, os movimentos inexprimíveis e secretos do coração do homem, sobretudo essa espécie de santa veneração que o domina quando contempla a sua própria grandeza e que, apesar dos seus crimes, das suas trevas e dos seus desvios, o revela a si mesmo como um Deus despido (perdoe-me o termo), como um Deus envergonhado, que cora por se encontrar tão expatriado na terra, que chora por não poder mostrar-se nela em sua forma verdadeira e sublime, e que é mais tímido e mais constrangido diante do crime do que o crime é tímido e constrangido diante da virtude; eis os caminhos nos quais o pensamento do homem poderia ter encontrado tantas religiões, ou seja, tantos meios de reunir por si mesmo sua inteligência, seu espírito e seu coração à fonte única da qual ele descende e sem a qual não há paz para ele; porque, percorrendo cuidadosamente esses caminhos, ele não poderia deixar de encontrar aquele que lhe era próprio e que o teria conduzido infalivelmente ao seu destino.

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