Papel da Geografia Sagrada
SCHWARZ, Fernand. Initiation aux livres des morts égyptiens. Paris: A. Michel, 1988.
Na visão tradicional, o homem vive a experiência do sagrado e se conecta ao universo através de uma geografia sagrada, integrando o espaço e o tempo, cujo objetivo é reproduzir na Terra as configurações do mundo celestial. A geografia sagrada não é uma simples geografia física, mas uma ligação direta entre o Céu e a Terra. Essas conjunções entre o Céu e a Terra são celebradas em locais geográficos específicos, cujo conjunto compõe um verdadeiro espaço sagrado.
O que comumente chamamos de “espaço sagrado” não é, portanto, apenas uma superfície, mas um espaço constituído por pontos de convergência onde se unem e se casam as forças do alto e as do baixo. Este espaço pode ser comparado a uma imensa rede cujos nós são as ligações, os pontos de união ou de “hierogamia” (casamento sagrado) entre o Céu e a Terra. Assim, cada cidade tradicional é um desses nós mágicos, uma dessas ligações, um dos elementos estruturantes da geografia sagrada.
Este casamento entre os diferentes planos da existência era celebrado em certos momentos privilegiados do ano, determinados pela instauração de um calendário. O objetivo do calendário era dar vida e movimento ao espaço, ligando-o ao ritmo cósmico. Assim, o tempo também se tornava sagrado e permitia a reintegração do homem no universo.
A geografia sagrada é, portanto, um espaço-tempo sagrado que atua como um intermundo, dando acesso aos diferentes planos da existência cósmica. Ela encarna a vontade do homo religiosus de tornar habitável, cósmico, seu local de permanência temporária, que se torna então um microcosmo, ou seja, um modelo reduzido do universo; como um espelho, este último consegue captar e refletir na Terra o que acontece acima e abaixo dele.
Através da geografia sagrada, as sociedades tradicionais puseram em marcha o circuito de correspondências que permite ligar a consciência da experiência terrena à vida cósmica. Por um lado, existe o espaço “cosmizado”, habitável, organizado, ordenado e, por outro lado, fora desse espaço familiar, existe o desconhecido, o caos, a dissolução.
Toda geografia sagrada consiste na explicação da imagem do mundo contida na Revelação mítica, que constitui o núcleo das crenças da sociedade tradicional. Apesar de sua diversidade, os relatos míticos são todos portadores de uma imagem convergente do universo. Cada um traz consigo as imagens do centro do mundo, ligando o alto e o baixo, bem como o eixo do mundo através do qual tudo vive e se conecta, como provou Mircea Eliade.
É a imagem que, graças ao seu caráter multivalente, é usada pelo homo religiosus para captar a realidade última. É porque essa realidade se manifesta de forma contraditória, sob a forma de paradoxo, escapando à linearidade do conceito, que a linguagem simbólica, ou seja, a da imaginação ativa, se torna a ferramenta de expressão operacional de toda a geografia sagrada.
