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Estrutura e a Estabilidade da Civilização Tradicional
I. A Estrutura e a Estabilidade da Civilização Tradicional
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O homem das civilizações tradicionais, independentemente de sua pertença, adere à crença, conforme explicitado por São Paulo (Romanos, VIII, 20-22), de que a introdução do mal no mundo é uma consequência do pecado.
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A sociedade, frequentemente concebida sob o modelo da cidade-Estado, estrutura-se como um círculo mágico consagrado ao seu antepassado-fundador, cuja consagração é reiterada pelo sangue dos sacrifícios, visando oferecer proteção ao indivíduo contra o mal e as repercussões de suas próprias transgressões.
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Enquanto parte integrante de um organismo coletivo legítimo, o indivíduo manifesta receio unicamente da exclusão ou separação do grupo, pois tal dissociação acarretaria o risco de sofrimento e de causar prejuízo a si mesmo e aos outros.
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A cidade-Estado tradicional, edificada sobre o arquétipo mítico do universo, é susceptível a alterações ao longo do tempo, perdendo gradualmente sua pureza, isto é, a fidelidade ao mito fundador, não obstante a reiteração dos rituais de consagração.
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A sociedade tradicional empenha-se na aproximação da perfeição das origens e na renovação do instante primordial de sua fundação, permanecendo intrinsecamente vinculada ao presente enquanto dirige seu olhar ao passado, em reverência à época em que a coexistência humana com o invisível se dava em harmonia com o universo.
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Procura-se evitar a todo custo qualquer modificação que, ao distanciá-la da perfeição do tempo das origens, possa intensificar o desequilíbrio resultante da transgressão da Grande Proibição, denominada pecado original.
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As estruturas constritivas da sociedade tradicional protegem o indivíduo do que São Tomás de Aquino designa como “um erro certo, uma inadequação certa diante do ato de escolher, ele próprio inadequado” (De Malo, 1-3).
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À imagem do modelo divino, a sociedade tradicional, ao ser “simultânea a cada instante do tempo”, impõe uma paralisação às ações humanas, prevenindo a reincidência no pecado.
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A civilização tradicional não se configura como uma Ideia, no sentido hegeliano do termo, destinada a cumprir um curso histórico segundo uma lógica predeterminada; antes, é uma Ideia que se manifesta no momento fundacional e se degrada com a passagem do tempo, por ser atualizada por homens falíveis em virtude da transgressão da Grande Proibição.
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Em face de circunstâncias inéditas, a sociedade tradicional aciona mecanismos compensatórios complexos destinados a preservar seu equilíbrio, operando como um “móvel” cujos componentes, em equilíbrio harmonioso, garantem a estabilidade do conjunto.
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As transformações que a sociedade tradicional vivencia assemelham-se às lentas e restritas oscilações previstas de um móvel, nunca comprometendo a estabilidade global.
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Em virtude de sua rigidez, consolidada pelo tempo e pela convicção de sua própria perfeição, torna-se difícil atribuir dinamismo espontâneo às sociedades tradicionais.
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Similarmente, a análise de suas estruturas sociais sob uma ótica diacrônica e evolutiva se revela um desafio, arriscando-se a reduzir-se a um mero exercício acadêmico ou a um afã classificatório.
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As observações atuais não oferecem subsídios para a reconstituição da história das estruturas sociais que, em tese, deveria progredir de forma linear do aparentemente simples ao mais complexo.
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A estrutura social de uma remota aldeia australiana, por sua intricada teia de mito, proibições, tabus matrimoniais e clãs de caçadores, com seu intento de projetar o cosmos na esfera terrestre, é suficiente para refutar tal raciocínio evolutivo.
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A manutenção da identidade de uma sociedade tradicional perdura enquanto seus membros preservarem a consciência difusa de participar de sua imortalidade, integrando cada nova aquisição ao patrimônio comum.
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Desta forma, o caráter singular de uma determinada cultura e sociedade é salvaguardado.
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A tradição oral é o veículo que mantém vivo e presente no íntimo dos homens o mito, que atua como o locus geométrico comum de todas as instituições, crenças e técnicas, tornando inviável qualquer questionamento dos valores fixados de modo definitivo pela sociedade.
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A justificação da existência do indivíduo é dada em função do grupo ao qual pertence, sendo o exemplo do ferreiro pertinente, uma vez que ele atualiza, em sua vida profissional e social, os atos de um ancestral mítico fundador de sua arte.
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Nestas sociedades, a vida humana configura-se como uma repetição de um roteiro imutável, no qual apenas os atores se alternam.
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Na relação com a sociedade, o indivíduo assemelha-se a uma peça de mosaico cuja forma, cor e dimensão são compreendidas unicamente em referência ao todo.
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A única forma de reflexão acessível ao homem das civilizações tradicionais consiste em refletir-se no mito da fundação, no esquema interpretativo do mundo estabelecido pela sociedade à qual pertence.
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