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folktale:1001:apresentacao:lingua

Língua e estilo

R. CANSINOS ASSENS, in Libro de las mil y una noches: el de los conocimientos maravillosos y las historias entretenidas, peregrinas … 5 ̇ed ed. Madrid: Aguilar, 1992.

  • A língua das Mil e uma noites constitui um termo médio entre o árabe clássico e o vulgar, refletindo o período de transição em que a obra foi fixada.
    • Alternância entre zonas de purismo clássico e passagens de intenso plebeísmo.
    • Abundância de localismos, expressões idiomáticas e barbarismos gramaticais.
  • O livro funciona como um órgão polifônico onde a mutação do estilo acompanha a mudança do sentimento do escritor.
  • A retórica árabe da obra apresenta exemplares dos quatro estilos fundamentais, comparáveis às ordens arquitetônicas gregas.
    • Estilos classificados como plano, elevado, baixo e mediano.
  • A prosa rítmica ou ornamentada marca o nível mais alto de elevação, situando-se entre a prosa e a poesia.
    • Uso sistemático de imagens, aliterações e rimas internas ao início e fim dos períodos.
    • Emprego paradoxal desse estilo sofisticado em gêneros picarescos para descrever a miséria dos personagens.
    • Citação de autores de sessões literárias como Al-Hariri e Al-Yaziji.
  • O estilo predominante na obra é o plano ou florido, aproximando-se do sermo rusticus que gerou os atuais romances árabes.
    • Distância em relação ao árabe clássico e arcaico dos poemas antigos.
    • Uso da prosa rimada apenas para solenizar exórdios, descrever batalhas épicas ou em passagens de paródia humorística.
    • Menção às histórias do rei Omar bin al-Nu'man e de Gharib e Ajib como exemplos de estro épico.
  • A prosa semítica mantém uma cadência musical primitiva que Sheldon considera um traço de infantilismo linguístico.
    • A aliteração como base do nascimento da poesia e modo natural de fala humana primordial.
    • Transformação de vícios da prosa ocidental em virtudes da prosa oriental, como as paronomásias e similicadências.
    • Comparação entre os recitadores públicos árabes e os cantadores de flamenco no uso de batidas rítmicas.
  • A musicalidade monocórdia da prosa árabe influenciou trovadores e jograis ocidentais.
    • Referência a Berceu e ao Arcipreste de Hita como herdeiros do ritmo árabe.
    • Menção ao historiador Schack e à tradução de Valera sobre a origem da monorrima no estilo do romanceiro.
  • A métrica árabe evolui para formas complexas com leis severas de quantidade e número, tratadas nos estudos de poesia.
    • Referência ao tratado de Al-Aruz e à obra de Alvarez Sanz e Tubau sobre poética árabe.
  • A graça da poesia árabe reside nas aliterações interiores e não na rima final, que deve ser evitada como similicadência.
  • As Mil e uma noites contêm variedades de metros que nem sempre foram respeitados nas traduções ocidentais.
    • Citação de metros como rachis, tsekil, hafif e outros.
    • Decisão de Galland e outros tradutores de suprimir os versos por considerá-los obstáculos à narração.
  • A interpolação de versos, que variam de trovas a odes longas, é uma característica essencial da técnica narrativa árabe que deve ser preservada.
    • Opinião favorável de Weil e Burton à manutenção das poesias intercaladas.
    • Uso de versos como pérolas em roupas lisas, prática comum inclusive em escritores ocidentais que citavam latim.
  • As incrustações líricas funcionam como citações de antologias para demonstrar a erudição do prosista.
    • Dificuldade de identificar a autoria dos versos, raramente indicada pelos contistas.
  • Poemas de grande sublimidade na obra são frequentemente paráfrases de textos bíblicos.
    • Epinício na história do rei Omar comparado ao Magnificat de Miriam, irmã de Moisés.
    • Versos elegíacos na história do emir Musa associados aos lamentos de Jeremias e ao Eclesiastes de Salomão.
  • O estilo da obra acomoda-se à diversidade de estados de ânimo e à pluralidade de origens geográficas de seus autores.
    • Participação de escritores egípcios, sírios, persas arabizados e judeus.
    • Captura de ressonâncias dialetais por estudiosos como De Sacy e Burton para tentar datar as histórias.
  • A tradução de elementos exóticos para o árabe mantém um plano tonal uniforme em toda a obra.
    • Exemplo da História dos sete vizires como tradução direta do persa.
    • Impessoalidade objetiva das literaturas antigas onde o eu individual raramente se manifesta.
    • Ausência do narcisismo subjetivo típico do século XIX.
  • O tom geral da época impõe uma eugenia espiritual que torna as obras coletivas semelhantes a criações de um único gênio.
    • Comparação com a unidade sentida no Mahabharata e na Ilíada.
  • O emprego de frases estereotipadas e clichês literários é uma tradição respeitada que confere prestígio ao autor oriental.
    • Uso secular de tropos como comparar o rosto à lua cheia ou o talle à rama de han.
    • Inexistência de batalhas entre antigos e modernos no Islã devido ao caráter estático e sagrado da tradição.
  • O respeito à tradição no mundo islâmico mantém viva uma língua literária que não é falada no cotidiano.
    • O árabe clássico como língua do livro, pouco compreendida na fala mesmo por doutos do Cairo ou Beirute.
  • O árabe primitivo decompôs-se em diversos romances e dialetos vulgares ao longo da geografia do império.
    • Visão de Renan sobre o árabe clássico como uma língua puramente literária criada por poetas.
  • A escrita árabe atua como uma ideografia que mantém a unidade teórica das raças islâmicas contra a dispersão babélica.
    • Função da palavra escrita como partitura da sinfonia islâmica de Marrocos à Oceania.
  • A língua do Alcorão preserva a unidade espiritual, e sua alteração seria uma revolução traumática.
    • Comparação com a reforma dos jovens turcos que abandonaram o alfabeto árabe em favor de um plano racionalista.
    • Inexistência de sucesso para movimentos modernistas que tentaram inovar o tesouro de imagens árabes.
    • Registro de sufocamento de movimentos inovadores na revista Al-Ahram de El Cairo.
  • A supervisão dos compiladores conferiu uma fisionomia clássica e uniforme a um material originalmente romântico e diverso.
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